Deu na "Science": armas fazem mal para a saúde



Após o massacre de crianças na escola de Sandy Hook, nos EUA, em dezembro de 2012, quando 20 crianças e seis adultos foram mortos por um atirador, houve um aumento na circulação de armas de fogo no país, um efeito captado pelas estatísticas de verificação de antecedentes -- requerida, em alguns Estados, para a compra legal de armamento -- e, também, pelo aumento de buscas no Google sobre como adquirir e fazer a manutenção de armas de fogo. Cerca de 3 milhões de armas foram compradas nos cinco meses que se seguiram ao ataque, o que representou um pico na série histórica.

Artigo publicado na revista Science vincula a maior exposição a armas de fogo -- exposição causada não só pelas compras, mas também pelo aumento na circulação de armas que estavam guardadas --  a uma elevação na taxa de mortes acidentais causadas por essas armas. Pelo menos 60 vidas foram perdidas em disparos acidentais no mesmo período de cinco meses, para além do que seria esperado, estatisticamente, em condições normais, numa elevação de 27%. Vinte dessas vítimas foram crianças, e o aumento de número de mortes foi maior nos Estados onde também foi maior a elevação nas vendas.

"Advertimos contra a interpretação de nossos resultados como um elo direto entre o aumento nas vendas de armas e as mortes adicionais", escrevem os autores. "As vendas de armas, em nossa análise, representam a exposição a armas; elas se correlacionam com um aumento no interesse em armas de fogo, mesmo entre as pessoas que já eram proprietárias de armas". Mais adiante, acrescentam: "observamos apenas os ferimentos acidentais com armas de fogo que levaram à morte, e nossa estimativa, portanto, fornece um limite inferior para as consequências de saúde pública dos picos de exposição a armas de fogo".

O resultado da Science não é exatamente uma surpresa. Uma das conclusões mais consistentemente reproduzidas  e confirmadas das pesquisas sobre armamento civil (aqui, aqui, aqui e aqui) é de que, embora a relação entre armas e criminalidade geral seja fraca ou inexistente (porque o crime depende de uma série de outros fatores, como economia, cultura, etc.), a relação entre armas nas mãos da população e mortes estúpidas -- acidentes, crimes passionais, brigas entre "cidadãos de bem", suicídios --  é inegável.

Como já escrevi em outras oportunidades, quem não é profissional de segurança pública mas tem uma arma de fogo em casa, ou anda armado, verá sua arma ser disparada, em ordem decrescente de probabilidade, nas seguintes circunstâncias: nunca; num acidente; contra si mesmo (num suicídio ou homicídio); numa briga com o cônjuge ou outro "cidadão de bem"; e, lá em último lugar, em legítima defesa.

As pessoas, no entanto, gostam de imaginar que estatística é uma coisa que só acontece com os outros.

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