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Pena de morte reduz o crime? Não dá pra saber, ainda

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A Academia Nacional de Ciências dos EUA divulgou um relatório sobre uma série de estudos a respeito da eficácia da pena de morte como elemento dissuasório -- isto é, se o fato de uma pessoa saber que pode ser condenada à morte efetivamente reduz a probabilidade de ela cometer um crime. Os estudos foram realizados a partir de 1976, quando os Estados Unidos voltaram a aplicar a pena capital, após uma moratória de quatro anos. A conclusão da Academia? Os estudos não prestam, e não devem ser usados como argumento a favor ou contra a punição pela morte. "Pesquisas realizadas até agora sobre o efeito da pena capital nas taxas de homicídio não são úteis para determinar se a pena de morte as aumenta, diminui ou é irrelevante", afirma nota de apresentação do trabalho, que pode ser baixado gratuitamente aqui . Prossegue a nota: "A questão fundamental (...) é se a pena capital é mais ou menos eficaz, como dissuasão, que penas alternativas, como prisão perpétua (...) No entanto,...

Astrologia pautando a imprensa?

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No início da semana, um leitor do blog me mandou este link para uma matéria online de O Globo , onde uma astróloga é chamada a explicar as mazelas da cidade fluminense de Niterói. O tempora, o mores , pensei, enquanto encarava a leitura do texto (quem quiser uma discussão mais detalhada de por que astrologia é besteira pode se divertir nesta postagem de 2011 ). Para que não me chamem de xiita obtuso, fui capaz de notar que a parte astrológica da matéria do jornal carioca era apenas uma espécie de nariz de cera para introduzir a parte realmente "carnuda" da reportagem, um levantamento exaustivo dos problemas que afligem Niterói e da inoperância das autoridades. Em jargão jornalístico, "nariz de cera" é um texto apensado ao início de uma matéria, como um órgão olfatório postiço e, como tal, não se encaixa muito bem lá. Esses narizes costumam ser usados quando o repórter sente (ou sabe) que não tem  nada de realmente quente a anunciar, tipo, caiu um prédio ou o...

Felicidade (a minha) em números

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Eu sou mais feliz comendo num jardim às sextas-feiras, de preferência depois de ter dormido pelo menos sete horas. Esse é, ao menos, o que deduzo dos resultados de duas rodadas da pesquisa Track Your Happiness , para qual me inscrevi no ano passado. Terminei de responder ao segundo ciclo do questionário agora. Compreensivelmente, sou mais infeliz no dentista ou no velório, às quintas-feiras e depois de ter dormido menos de seis horas. Abaixo, alguns gráficos (a quem interessar possa -- afinal, o que é um blog sem um pouco de exibicionismo, gratuito, né?) sobre o meu estado de espírito: Este é o "What are you Doing", com a escala de felicidade no eixo X (por alguma razão, "doing housework" -- no meu caso, isso significa lavando pratos -- ganhou de "reading" e "home computer". Suponho que minha mulher vai querer impugnar esse resultado específico): Este aqui, o "Where are you", novamente com o nível de felicidade na horizontal: ...

Quem tem medo da eugenia?

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"Eugenia" é, por longa tradição histórica, uma palavra suja. A simples menção traz à mente imagens de clínicas nazistas onde eram exterminados portadores de diversos tipo de deficiência, ou políticas de Estado , adotadas em vários países em diversos momentos, proibindo a miscigenação de raças ou determinando a esterilização de parcelas da população. Tudo muito desumano e assustador. Ou, ainda, faz pensar em filmes como Gattaca , onde os ricos têm acesso a genes de primeira linha para seus filhos, e as pessoas são continuamente submetidas a testes genéticos para avaliar suas aptidões. De novo, tudo muito desumano e assustador. Mas, será esse o único modo de encarar a questão? Um exemplo ficcional: em sua série de romances sobre o imortal Lazarus Long, o escritor de ficção científica Robert Heinlein imagina a figura de um milionário que paga para que pessoas de famílias especialmente longevas tenham filhos entre si, ao longo de várias gerações. Seu objetivo é, exatamen...

Homeopatia, acupuntura, Torresmo e Pururuca

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Os leitores daqui talvez já estejam familiarizados com a tempestade surgida em torno da publicação de nota, na edição mais recente da revista Scientific American Brasil , defendendo o uso da homeopatia como uma espécie de panaceia para os males ecológicos do planeta. A reação da comunidade brasileira de leitores levou a questão a fóruns internacionais de debate sobre ciência e pseudociência, a uma manifestação pública da editora da edição original da revista , desautorizando a publicação de textos pró-homeopáticos e, por fim, a um pedido de desculpas do editor-chefe da SciAm Brasil (que, no entanto, não menciona o puxão de orelha vindo da matriz). Se a história serve de guia, é provável que um terceiro ato desta comédia, ainda em andamento (surgiram algumas questões pertinentes, por exemplo, quanto à seriedade e sinceridade das desculpas oferecidas pelo editor Ulisses Capozzoli) venha de homeopatas queixando-se do "fascismo metodológico" e do "clima de linchamento...

O sofrimento dignifica?

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É bem possível que um dos memes mais difundidos do planeta -- aparecendo, de uma forma ou de outra, em todas as culturas, seja por meio de dolorosos ritos de iniciação à vida adulta, ou  na valorização do martírio -- seja o de que a dor e o sofrimento são, no fim e ao cabo, bons . Que o sofrimento dignifica o sofredor. Que o castigo edifica o caráter, fortalece o espírito, engrandece, enfim, a vida. A concordância em torno desse ponto é tão grande que nele até o pensamento de Nietzsche ("O que não nos mata nos torna mais fortes") e o ethos católico ("a gestação do feto anencéfalo dignifica a mãe", nas palavras de um arcebispo ) parecem convergir. Desconfio até de que muito do desprezo com que costuma ser visto o princípio da ética utilitarista, pelo qual o importante é maximizar o prazer e minimizar a dor, deriva mais do temor de que "minimizar a dor" nos reduza todos a um bando de bundões invertebrados do que do receio de que "maximizar o pra...

A Paixão de Cristo, e de mais um monte de gente

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Aviso: postagem longa, muito longa. Confesso que gosto do filme de Mel Gibson . Só não comprei o DVD porque lá em casa ninguém ia querer assistir comigo. Há alguns trechos, principalmente a "lágrima de Deus" no final, e as mulheres esfregando o chão loucamente, que são bregas pra burro, mas no geral trata-se de um filme honesto, que lança um olhar firme sobre a capacidade humana de causar dor ao próximo -- e de fazê-lo sorrindo. Abstraindo-se a informação de que o cara que está sendo espancado e crucificado na tela é, supostamente, o Filho de Deus, o que resta é uma denúncia do abuso de poder, do sadismo e da desumanidade. Claro, abstrair o status de Filho de Deus do protagonista meio que vai contra a intenção do autor, mas ir contra o autor é um privilégio da audiência. Faça o exercício: tente ver o filme encarando o personagem de Jim Caviziel como um pobre caipira, meio iludido mas bem-intencionado, que foi passar o feriado na cidade grande, arrumou briga com a pol...