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Usando a lei para calar a boca dos outros

A censura judicial anda tendo trabalho. Praticamente ao mesmo tempo em que os responsáveis pelo livro Privataria Tucana são condenados por terem publicado a  obra num momento inconveniente para o candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo, José Serra, o blog Viomundo é penalizado -- ao ponto, parece, da inviabilidade econômica -- por ofender o jornalista Ali Kamel, do Grupo Globo. Casos notórios anteriores são o do Jornal Pessoal , condenado por chamar um latifundiário de... latifundiário, e o das duas censuras impostas ao Estadão , a envolvendo o filho de José Sarney  e outra, o blog de João Bosco . Em todos esses casos, o que mais me estupidifica -- como cidadão pagador de impostos, jornalista e escritor ingenuamente leigo nos labirintos kafkianos do Judiciário -- é o absoluto desprezo, em cada decisão censória, pelo simples e comezinho conceito de "verdade". Nos dois casos envolvendo o Estadão , a informação censurada era comprovadamente verdadeira; no da Privatari...

O estado do Estado laico, ou: recordar é viver

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Setores do movimento evangélico brasileiro vêm adquirindo uma reputação -- não de todo imerecida, diga-se -- de inimigos do Estado laico. Por contraste, o catolicismo começa a a parecer até "manso", e não é difícil encontrar nas redes sociais alusões a uma suposta "ameaça evangélica" às liberdades civis e republicanas.  Minha impressão, no entanto, é a de que os evangélicos estão apenas pagando o preço de chegar tarde à festa, e que quando se trata de violar a liberdade alheia não existe, de fato, religião "mansa". Abaixo, alguns casos em que liberdades básicas de um Estado supostamente laico -- de investigação científica, de crítica, de expressão artística -- foram violadas, no Brasil, por motivos religiosos. E o único evangélico que teve algo a ver com qualquer um deles foi, no fim, a vítima. 1986 : Recém-saído de uma ditadura de duas décadas, o Brasil ressuscita uma das marcas do período autoritário, a censura de artes e espetáculos, para e...

Em busca do Robin Hood histórico

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É semana santa e eu ia escrever algo mais temático, talvez sobre o livro Beyond the Quest for the Historical Jesus ,  em que o monge dominicano (!) Thomas Brodie argumenta que os Evangelhos são peças de ficção, mas aí pensei: ora bolas, existem vários outros casos em que história e ficção se confundem, e alguns deles envolvem até personagens mais coloridos e interessantes. Então, à guisa de ovo de páscoa deste blog, deixo-os excepcionalmente, neste fim de semana, na companhia do alegre bandoleiro de Sherwood. Interpretado no cinema por atores tão diferentes como Errol Flynn, Kevin Costner e Russell Crowe; matriz mitológica que ajudou a estruturar as lendas de gente como Billy the Kid, Jesse James e, até mesmo, Che Guevara; nobre desterrado ou camponês levado ao desespero, líder rebelde ou bandoleiro -- afinal, quem foi Robin Hood? Em seu tratado clássico sobre o tema (intitulado, exatamente, Robin Hood ), o medievalista britânico Sir James C. Holt explica que praticamente...

Direitos Humanos

O reconhecimento da dignidade inerente e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana é o fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo.  (Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 1948 ) Então, né. Direitos Humanos. Para que isso serve? Por que tanta briga por causa de uma comissão da Câmara dos Deputados? Não é muita frescura? Quem liga para isso? Não seria melhor cuidar, primeiro, dos "humanos direitos"? "Humanos direitos!" Há uma arrogância implícita no uso, a sério, dessa frase que quase me faz perder o fôlego. É espantoso imaginar que tem gente que olha nos olhos do próprio reflexo no espelho e se declara, sem uma ponta de dúvida ou de ironia, um "humano direito". Mesmo? Jura? Há de ser a mesma gente que lê o Poema em Linha Reta de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e não sente a porrada no peito. Claro, a maioria das pessoas não é formada de bandidos -- entendendo-se "bandi...

Beco do Pesadelo

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Finalmente cumpri meu dever de casa cético-literário e li Nightmare Alley , um clássico do romance noir  americano que gira em torno de um mágico de circo que vira primeiro mentalista, evolui para pastor evangélico picareta e, então, falso médium, enriquecendo com as doações "espontâneas" de fiéis embasbacados. Em se tratando de um romance noir , tudo é muito sórdido, há uma mulher fatal e a coisa toda termina em tragédia, claro. O autor, William Lindsay Gresham, era jornalista da era pulp, especializado em " true crime stories ",  ou narrativas romanceadas de crimes verdadeiros. Ele depois viria a escrever um livro de não-ficção sobre os circos de aberrações norte-americanos, Monster Midway , e uma biografia de Harry Houdini. Antes de virar escritor, Gresham lutara ao lado dos republicanos na Guerra Civil espanhola, e durante alguns anos foi casado com a poeta Joy Davidman, que viria a abandoná-lo para se casar com C.S. Lewis. Nightmare Alley é um livro imp...

Precognição #fail

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Alguém por aí talvez ainda se lembre do alarde com que foi saudado o artigo Feeling the Future , assinado pelo psicólogo americano Daryl Bem e publicado, no início de 2011, pelo importante periódico científico  Journal of Personality and Social Psychology (JPSP) . Nesse trabalho, Bem descreve uma série de nove experimentos, dos quais oito -- oito! -- teriam gerado prova estatística de que o futuro é capaz de afetar o passado: ou, mais especificamente, de que pessoas são capazes de prever eventos que ainda estão por acontecer. O assunto não só gerou furor na mídia internacional , como até rendeu uma capa da IstoÉ aqui no Brasil, além de uma entrevista de Bem ao portal iG . O artigo de Bem chamou atenção porque não só seu autor é um cientista respeitado, como o veículo que aceitou publicá-lo, o JPSP , também goza de grande prestígio. Não se tratava de (mais um) artigo de pesquisadores obscuros lançado numa revista de nicho, do tipo que circula apenas entre crentes fiéis, mas do...

O "papabile" criacionista e o fantasma do design

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Agora a eleição já passou e tudo, mas fica a curiosidade: um dos cardeais tidos, até a semana passada, como um dos "favoritos" para assumir o comando do Vaticano, o austríaco  Christoph Schönborn , havia causado um certo furor, alguns anos atrás, ao assinar um artigo no New York Times  afirmando que o darwinismo, em sua formulação atual  (o "dogma neo-darwinista", como o cardeal chama), é filosoficamente incompatível com o magistério da igreja católica . Schönborn, que mais tarde publicaria um livro sobre sua visão do assunto, Chance or Purpose? Creation, Evolution and a Rational Faith , está longe de ser um " six-day creationist ", o tipo de sujeito que acha que o capítulo 1 do Gênese deve ser interpretado literalmente. Magnanimamente, ele concede, em seu texto para o NYT , que a igreja de Roma "deixa para a ciência muitos detalhes sobre a história da vida na Terra", e que "a evolução, no sentido de uma ancestralidade comum, pode ser ...