Usando o cérebro para prever sucesso

Estúdios de cinema fazem exibições para plateias de teste; escritores, cada vez mais, apelam para "beta readers", amigos que leem as obras e dão opiniões -- espera-se -- sinceras, antes que os textos cheguem às mãos de um editor; editoras de livros têm uma reserva de "leitores profissionais" que tentam determinar as qualidades dos livros em perspectiva; editores de jornais, revistas e de websites apresentam suas propostas de reforma editorial a grupos de foco.

Todos esses métodos têm como objetivo reduzir o risco envolvido no lançamento de uma obra, criando um modelo que permita prever a reação do mercado (e, eventualmente, matar um projeto destinado ao fracasso antes que ele vire um buraco negro de recursos).

As falhas desse sistema são notórias: abundam casos de obras rejeitadas seguidas vezes que acabaram virando sucesso, bem como trabalhos aprovados com honra e distinção pelos grupos de teste e que acabaram fazendo tanto sucesso quanto um steak tartare numa colônia de vegetarianos.

Mesmo assim, o pessoal que decide como e onde fazer investimentos acha que isso é melhor que nada. E, dada a obsessão humana em conquistar pelo menos um mínimo de ilusão de controle sobre o imponderável, montar um grupo de foco ainda é melhor do que degolar um bode para Mercúrio, o deus do sucesso comercial.

Acho (se bem que gostaria de saber se alguém já fez um teste duplo-cego a respeito).

Imagino, portanto, que executivos de marketing de todas as cores e credos começarão, em breve, a salivar sobre um resultado publicado por pesquisadores da Universidade Emory no Journal of Consumer Psychology: aparentemente, uma ressonância magnética funcional do cérebro de adolescentes permite, com razoável precisão, prever quais músicas pop farão sucesso -- e, com precisão maior ainda, quais serão fracassos retumbantes.

O estudo é derivado de um trabalho anterior, sobre pressão de grupo, no qual jovens de 12 a 17 anos foram expostos a uma série de canções então desconhecidas e não lançadas comercialmente, enquanto seus cérebros eram analisados.

Alguns anos depois, uma dessas canções despontou no show de calouros -- desculpe, reality show -- American Idol, o que levou os pesquisadores a revisar seus dados e buscar uma correlação entre as leituras cerebrais e o sucesso (ou fracasso) comercial posterior das canções usadas.

Essa é uma metodologia meio perigosa -- é muito fácil achar algo nos dados, quando se sabe o que procurar -- mas, ressalvas à parte, os autores afirma ter descoberto uma correlação entre a atividade no centro de recompensa do cérebro dos jovens e o sucesso das canções.

Mais exatamente: uma alta atividade nessa área do cérebro dos ouvintes permitiu prever (ou "pós-ver", no caso) 30% das canções que viriam a vender mais de 20.000 cópias. Já uma baixa atividade marcou 90% das canções com vendas abaixo das 20.000 unidades.

O escritor de ficção científica em mim fica imaginando a adoção generalizada do procedimento pelo pessoal do marketing. Na definição de discursos políticos, por exemplo: pondo eleitores na máquina e vendo como seus cérebros se acendem quando são mencionadas expressões como "privatização" ou "casamento gay".

Quem viver, verá.

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