Utopia na porrada

Como você convence as pessoas a cooperar com estranhos?

Esta é uma pergunta fácil de formular, mas bem difícil de responder. O sucesso da espécie humana é resultado direto da capacidade do Homo sapiens de confiar em, fazer sacrifícios por e cooperar com pessoas que não fazem parte de sua família. 

Não se trata, é claro, de uma capacidade ampla e ilimitada -- como a epidemia de nepotismo e patrimonialismo que assola o Brasil, desde sempre, mostra -- mas o fato é que ela existe. E é, no fim, o que nos distingue das formigas.

Uma explicação comum para o que permite a extensão da solidariedade humana para além dos indivíduos geneticamente ligados a cada um de nós apela para dois fatores: a evolução do cérebro e a centralização do poder.

A parte sobre evolução do cérebro propõe que, quando a evolução desenvolveu, em nossa espécie, a capacidade de simpatizar com nossos pais, filhos e irmãos, ela não fez um trabalho muito bom na hora de definir limites estritos para essa simpatia.

Assim, da mesma forma que a capacidade de raciocinar com lógica pode ter evoluído em resposta aos desafios do ambiente -- o poder de postular números complexos sendo uma espécie de bônus inesperado -- o potencial para solidariedade seria um "transbordamento" do sentimento surgido na família.

Já a centralização do poder teria sido um passo necessário para impor laços comunitários onde a simples solidariedade não seria forte o suficiente, onde era preciso exigir do indivíduo sacrifícios que ele não faria sem coerção: na hora de construir muralhas e pirâmides, pagar impostos e ir à guerra, por exemplo. 

Essa ideia de que não existe cooperação em larga escala sem coerção é um tanto quanto incômoda, tanto do ponto de vista psicológico quanto político. 

Ela parece implicar algo de desagradável a respeito da natureza humana -- que só somos capazes de grandes empreendimentos quando ameaçados -- e sobre nossas aspirações à autonomia e à liberdade individuais, já que pressupõe que a existência de um Estado com poder de coagir e punir é e sempre será necessária, caso queiramos continuar fora das cavernas.

Foi com grande surpresa, portanto, que vi o resumo de um artigo publicado recentemente na PNAS, dando conta do estudo antropológico de uma comunidade asiática sem Estado e sem centralização de autoridade, mas onde as pessoas são capazes de feitos de cooperação em larga escala, envolvendo centenas de indivíduos, muitos dos quais não se conhecem.

Seria a utopia anarquista na Terra?

Comecei a -- na frase de Cândido de Carvalho-- pôr um fecho éclair nas minhas esperanças logo que vi o título do "paper": Punishment sustains large-scale cooperation in prestate warfare.

Os "feitos de cooperação em larga escala" são saques e invasões: o povo estudado, os turkana, são um grupo nômade pastoril, que de tempos em tempos promove ataques a comunidades vizinhas, de identidade étnica diversa, para roubar gado.
O fato, antrropologicamente interessante, é que os turkana montam seus batalhões de saqueadores sem que seja preciso que um conde, duque, rei, cacique ou xamã emita uma ordem, sem serviço militar obrigatório e sem contratar mercenários.

 As tropas surgem quando um turkana vê uma oportunidade e avisa os vizinhos, que avisam outros vizinhos, e assim por diante. Se surge um consenso de que a ideia é boa, lá vão eles.

Os autores do "paper" chamam atenção para um dado especial: atos de covardia e deserção são punidos. Como? Fofoca e linchamento. 

Se um homem comprometido com a batalha se comporta de forma desonrosa, os guerreiros que testemunham o ato o denunciam e, se ele não conseguir achar uma boa desculpa e um consenso social se formar contra ele, o sujeito pode acabar amarrado a um tronco e se ver impiedosamente espancado. Não até a morte, mas mesmo assim...

A ideia de que um estilo de vida "utópico" -- rural, livre, sem governo -- se baseia em guerra, fofoca e tortura pode ser meio chocante para algumas pessoas, mas a mim me parece meramente irônica. O homem pode ser o mais solidário dos animais, mas o que existe além dos limites impostos pela natureza a essa solidariedade não é lá muito bonito -- seja o imposto de renda ou o tronco dos turkanas.

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