Vamos estudar a Bíblia? (2)

Em uma postagem anterior minha sobre o estudo não-religioso da Bíblia (uma das mais populares do blog, aliás; sinal de que há uma demanda reprimida por esse tipo de coisa) um comentarista chamou atenção para a duplicação do milagre da multiplicação dos alimentos no Evangelho de Marcos.

O primeiro trecho abaixo vem do capítulo 6:

38. Jesus perguntou: “Quantos pães tendes? Ide ver”. Eles foram ver e disseram: “Cinco pães e dois peixes”. 39. Então, Jesus mandou que todos se sentassem, na relva verde, em grupos para a refeição. 40. Todos se sentaram, em grupos de cem e de cinqüenta. 41. Em seguida, Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando-os aos discípulos, para que os distribuíssem. Dividiu, também, entre todos, os dois peixes. 42. Todos comeram e ficaram saciados, 43. e ainda encheram doze cestos de pedaços dos pães e dos peixes. 44. Os que comeram dos pães foram cinco mil homens.


Já este aqui vem do capítulo 8:

5. Ele perguntou-lhes: “Quantos pães tendes?” Eles responderam: “Sete”. 6. Jesus mandou que a multidão se sentasse no chão. Depois, pegou os sete pães, deu graças, partiu-os e deu aos discípulos para que os distribuíssem. E distribuíram à multidão. 7. Tinham também alguns peixinhos. Jesus os abençoou e mandou distribuí-los. 8. Comeram e ficaram saciados, e ainda recolheram sete cestos com os pedaços que sobraram. 9. Eram umas quatro mil. Então ele os despediu.

Se fosse nos tempos atuais, alguém diria que o dedo do redator esbarrou no CTRL+C / CTRL+V. 

O mais interessante, no entanto, é que este não é um caso isolado em Marcos. Na verdade, a repetição da multiplicação de pães e peixes é apenas o fecho da repetição de uma sequência completa de cinco milagres semelhantes. 

As duas sequências começam com milagres na água, o primeiro no capítulo 4, quando Jesus acalma a tempestade no mar:

37. Veio, então, uma ventania tão forte que as ondas se jogavam dentro do barco; e este se enchia de água. 38. Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram-lhe: “Mestre, não te importa que estejamos perecendo?” 39. Ele se levantou e repreendeu o vento e o mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento parou, e fez-se uma grande calmaria. 40. Jesus disse-lhes então: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” 41. Eles sentiram grande temor e comentavam uns com os outros: “Quem é este, a quem obedecem até o vento e o mar?” 

Que encontra um paralelo no capítulo 6, que repete até mesmo a temática da falta de fé dos discípulos:

47. Já era noite, o barco estava no meio do mar e Jesus, sozinho, em terra. 48. Vendo-os com dificuldade no remar, porque o vento era contrário, nas últimas horas da noite, foi até eles, andando sobre as águas; e queria passar adiante. 49. Quando os discípulos o viram andar sobre o mar, acharam que fosse um fantasma e começaram a gritar. 50. Todos o tinham visto e ficaram apavorados. Mas ele logo falou: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” 51. Ele subiu no barco, juntando-se a eles, e o vento cessou. Mas os discípulos ficaram ainda mais espantados.

A cada milagre aquático segue-se uma série de três curas. A primeira é composta por um exorcismo (5:1), uma hemorragia (5:25) e uma ressurreição; a segunda, pela cura de um cego (8:22), outro exorcismo (7:24) e o surdo-mudo (7:32). E ambas se encerram, como já foi dito, com uma multiplicação de pães e peixes.

É possível, especulam os estudiosos, que quando o autor de Marcos se sentou para escrever seu texto, mais de uma geração após a morte de Jesus, as duas sequências, provavelmente derivadas de uma narrativa original comum, já tivessem acumulado tantas pequenas divergências  -- como a natureza exata das curas, por exemplo -- que o redator tenha considerado mais prudente mantê-las ambas, como se fossem, de fato, séries de episódios independentes.

Das duas sequências, a multiplicação dos alimentos para satisfazer 5.000 pessoas e o caminhar sobre a água reaparecem em João, enquanto que a cura do cego e a ressurreição têm paralelos joaninos.

Neste momento, alguém poderia imaginar que a tradição oral por trás da cadeia de milagres tem uma base histórica -- uma cadeia real de milagres, talvez? Os estudiosos mais atentos encontram uma base, sim, só que mitológica: feitos míticos atribuídos a Moisés e aos profetas Elias e Eliseu.

O par de profetas aparece no Velho Testamento curando cegos e ressuscitando mortos de um modo que lembra muito as técnicas usadas por Jesus: com a aplicação água, saliva e lama aos doentes. Já o heroi do Êxodo obviamente tinha poder sobre as águas do mar (que se abriram para ele) e era capaz de alimentar multidões (com maná dos céus e aves).

O núcleo original de cinco milagres parece ser mais, então, um dispositivo retórico para insinuar no personagem Jesus uma estatura comparável à das grandes figuras do Velho Testamento do que uma compilação de fatos.

E quanto ao que o homem Jesus realmente fez, ou disse? Aqui, tenho de citar o teólogo Robert M. Price, autor de Deconstructing Jesus: "O Jesus histórico se perdeu por trás da cortina de vitrais do dogma cristão".

Comentários

  1. Não se esqueça ainda de Asclépio/Esculápio e os milagres de cura nos templos de Apolo e as lendas sobre cornucópias.

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Pelo visto, esta é aúltima oração pra salvar seu coração..Brincaeirinha.Voceê ainda lê HQ? Sei que gosta de FC, por isso poderia recomendar alguma cosia pra gente no ramo da FC e dos comics? Algum da ainda vou reler Camelot 3000

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  3. Oi, Evandro! As adaptações de Star Trek da IDW, principalmente as histórias escritas e desenhadas pelo John Byrne, são uma boa diversão. Em termos mais épicos, a saga da Alien Legion é uma das minhas séries favoritas. Não sou lá muito fã de Moebius e da tradição de fc franco-belga, mas há quem jure que nunca se fez nada de melhor que os Metabarões...

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  4. mas se centenas (e milhares) de pessoas o seguiam a pé durante 3 anos e meio, por que o registro de apenas duas ocasiões em que ele alimentou o povo de forma semelhante deveria demonstrar "cientificamente" que o registro é falso?
    o mesmo caso se aplica ao barco: eles não eram pescadores? Não costumavam pescar para se sustentar (e comer)? Sendo pescadores, certamente usaram um barco para pescar milhares de vezes durante suas vidas. Por que o fato de existirem dois relatos diferentes no barco demonstra que são falsos? Além disso existe o relato do naufrágio de Paulo e Jesus não apareceu.

    novamente você seleciona (por coincidência talvez) detalhes de todo um cenário enorme, omitindo outras informações importantes (por descuido talvez) para defender as teorias que você gosta.

    por que você esquece de pontos importantes como a honestidade dos escritores bíblicos em não omitir seus piores defeitos, bem como os erros mais vergonhosos de reis, de profetas e até mesmo dos apóstolos?
    Por exemplo: medo e/ou vergonha em cumprir designações dadas por Deus, ou assassinatos e adultérios cometidos pelos reis (inclusive de Davi), o impedimento do próprio Moisés em entrar na terra prometida depois de ter liderado o povo por 4 décadas, ou a forte briga entre Paulo e Barnabé por causa de Marcos, ou as constantes discussões dos apóstolos sobre quem era o maior entre eles e como foram corrigidos, e etc (são muitos e muitos casos que nem cabem aqui)
    Outra informação importante, é Jesus ter aparecido (após sua ressurreição) primeiramente para mulheres (o que seria considerado um privilégio enorme), em uma época "arcaica e machista"? Por que os evangelhos não contam que Jesus apareceu para a "cúpula" dos homens mais importantes?
    Isso está relacionado até com a descrição destes homens (apóstolos): não eram tratados com toda a pompa como são os papas hoje. Os evangelhos os descrevem como homens "simples".
    O exemplo de Paulo: era perseguidor de cristãos, e tinha boa instrução, e um cargo comparável ao de um advogado hoje em dia, mas preferiu se tornar cristão mesmo sabendo que isso tiraria seu prestígio, sua carreira, e por fim seria perseguido e executado por causa disso. Após se tornar cristão trabalhava ajudando a costurar tendas. Passou grande parte da sua vida preso na cadeia por causa de suas convicções.
    E os cristãos (muitos foram testemunhas oculares da vida de Jesus) que escolheram morrer jogados aos leões (com suas famílias), ou serem pendurados em postes e queimados vivos, ao invés de simplesmente negarem sua fé e se livrarem.

    Além disso tudo, que dizer da harmonia interna da bíblia em tratar de um tema durante 1600 anos de escrita por cerca 40 escritores diferentes (pastores, pescadores, até um médico, reis, etc) e só quando completada se entendeu seu sentido? (que certamente não é "faça o bem e vá para o céu". Existe o desenvolvimento de toda uma idéia complexa e interessantíssima que parece ter sido cuidadosamente escondida dos "sábios e intelectuais"). Esta harmonia demonstra de forma clara que a bíblia foi "escrita" por uma única mente.
    Aparentemente você não sabe nada sobre isso justamente por já ter sido condicionado a se apegar a detalhes fora de contexto, com o objetivo de distrair do que realmente demonstra a veracidade dos relatos.

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  5. Oi, Anônimo! É óbvio que o único jeito de saber o que realmente aconteceu na Galileia no tempo de Jesus é entrando numa máquina do tempo. Só o que podemos fazer é pesar probabilidades. Então, o que parece mais provável? Que realmente ocorreram duas sequências de milagres do tipo mar-curas-multiplicação, ou que a repetição reflete duas formas diferentes de um mesmo mito?

    Suponha uma biografia de um pirata do século XVII que dissesse que ele saqueou o Rio de Janeiro, três ilhas do Caribe e a Flórida, e que mais tarde saqueou o Rio de Janeiro, três ilhas do Caribe a Flórida. Na ausência de qualquer tipo de registro histórico para corroborar isso, Você acharia que as duas sequências realmente ocorreram, ou que se tratou de um cochilo do biógrafo?

    Quanto à extrema "honestidade" dos autores da Bíblia, essa é uma interpretação. A outra é que os livros que viriam a fazer parte da Bíblia foram escritos em épocas diferentes, por autores diferentes e com propósitos diferentes. Por exemplo, Samuel e Reis, onde vemos as vilanias de David, pode ter sido escrito por um setor da sociedade interessado em minar o poder da monarquia e projetar a importância dos sacerdotes de YHWH. Já Crônicas, onde David aparece muito melhor na fita, pode ter sido produto de outro partido, com outros interesses.

    Quanto à Bíblia conter "o desenvolvimento de uma ideia complexa e interessantíssima", duas coisas:

    (1) não parece haver duas correntes cristãs dipostas a concordar em o quê, exatamente, o livro deve conter, afinal (há escrituras que são canônicas para os católicos bromanos, mas não para os ,luteranos; outras que são canônicas para os ortodoxos, e não para os romanos, etc.)

    (2) a montagem da(s) Bíblia(s) foi feita por, exatamente, "sábios e intelectuais" que já conheciam de antemão a "mensagem" que queriam passar, e escolheram os livros de acordo. É como o trabalho de um contador que já conhece o total desejado, e então precisa escolher, de uma lista, os fatores que resultarão nessa soma.

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