terça-feira, 7 de junho de 2011

Vamos estudar a Bíblia?

Foi tão traumático que me lembro disso até hoje: a única vez, no meu tempo de estudante da USP, em que uma jovem bonita e desconhecida tomou a iniciativa de puxar conversa comigo foi para me convidar para um grupo de estudo bíblico. Em minha defesa, digo que resisti bravamente.

Não que a Bíblia não possa ser um objeto de estudo fascinante -- como, por exemplo, a Ilíada ou o Épico de Gilgamesh. O problema é que, quando o livro é abordado com um viés religioso, o resultado é um raciocínio circular: cada leitor encontra lá exatamente o que já trazia consigo, ou seja, seu próprio sabor peculiar de cristianismo. 

Isso não significa, no entanto, que não existam estudos sobre a Bíblia que se valem das mesmas ferramentas filológicas, históricas e arqueológicas a que outros grandes textos da Antiguidade são submetidos. Só o que significa é que esses estudos têm muito pouca divulgação.

Por exemplo, desde o século XVIII que estudiosos reconhecem que os Evangelhos de Mateus e Lucas são expansões do texto de Marcos. Não, veja bem, narrativas da mesma história com outras palavras (como reportagens de diferentes jornais sobre um mesmo evento), mas expansões do texto: cópias ampliadas de um núcleo único original. Esse núcleo seria formado por dois documentos: o Evangelho de Marcos e uma hipotética antologia de sermões e máximas de Jesus, hoje perdida, mas chamada de "Q" (de Quelle, ou "Fonte", em alemão).

O argumento para a derivação de Mateus e Lucas de Marcos é bem simples e direto: abundam os casos de "copy-paste"; Mateus e Lucas praticamente nunca concordam entre si contra Marcos, mas há vários casos de Mateus e Marcos concordando contra Lucas e de Marcos e Lucas concordando contra Mateus -- o que sugere que alguns episódios do original de Marcos foram copiados mais fielmente por um ou outro evangelista. Em conjunto, Mateus e Lucas reproduzem todos os versículos de Marcos, menos 31; Mateus inclui 92% do texto de Marcos. Não os mesmos episódios narrados de modo diferente, mas os mesmos versos.

Já a existência de Q é deduzida por um raciocínio um pouco diferente: há trechos em que Lucas e Mateus parecem ter bebido numa fonte comum, mas que não aparecem em Marcos. Esses trechos raramente são narrativos -- geralmente contêm parábolas, frases de efeito, sermões. Além disso, eles aparecem nos dois evangelhos na mesma ordem: se, em Mateus, Jesus conta a parábola X e, só mais tarde, faz o sermão Y, em Lucas X também vem antes de Y, ainda que os episódios intermediários possam ser diferentes. A dedução que a maioria dos especialistas tira disso é de que os dois estavam copiando o material de uma fonte comum, e que a ordem foi herdada dessa fonte.

O mais interessante é que comparações entre Lucas e Mateus permitem reconstituir, até certo ponto, o conteúdo de Q. Por exemplo, nas beatitudes ("bem-aventurados os...", etc.), Mateus mostra Jesus abençoando pessoas que sofrem de dores morais: os pobres de espírito; os que têm fome e sede de justiça. Já em Lucas, Jesus abençoa os pobres e os famintos. Ponto.

Isso deixa em aberto, claro, a questão de quem, ora bolas, Jesus queria mesmo abençoar. Uma opinião é a de que Lucas -- dado o tipo de teologia que ele parecia preferir -- não teria deixado as expressões "de espírito" e "de justiça" de fora, se soubesse delas. Se não sabia, é porque não estavam em sua fonte. Logo, provavelmente foram embelezamentos acrescentados por Mateus. Logo, não constam de Q, e provavelmente não foram ditas por Jesus.

O exemplo evidencia os perigos desse tipo de análise para quem prefere a abordagem religiosa, mas também as vantagens para quem está interessado em reconstituir um momento muito importante da história da humanidade, e seus personagens. Esta abordagem não é nova: há tentativas de reconstituir Q desde a década de 1830, mas a gatinha do estudo bíblico provavelmente não sabia disso.

Ah, sim: um bom ponto de partida para quem quiser estudar a Bíblia são os livros de 
Randel Helms e também  Q, the Earliest Gospel: An Introduction to the Original Stories and Sayings of Jesus, de onde vem muito da informação desta postagem.



15 comentários:

  1. Tá, tudo isso é interessante, como de costume por aqui, Orsi. Fica, entretanto, um ponto obscuro:

    E ai, comeu?

    :)

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  2. Não, não... Percebi na hora que era um caso de "bait and switch" e pulei fora!

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  3. Tem também as questões dos textos apócrifos e dos critérios utilizados para se afirmar quais textos seriam ou não do cânone.

    Até por isso, a bíblia é um interessante objeto de estudo apenas se pudermos buscar outras fontes, porque o "sola scriptura" é extremamente falho.

    A saída para as explicações religiosas (não exatamente de teólogos, mas dos religiosos da média) é interpretar como mistérios divinos e fica por isso mesmo. É onde a idéia primordial de não questionar a autoridade torna o movimento religioso nocivo.

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  4. E o evangelho de João, de onde saiu?

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  5. Da cabeça de João, seja lá quem tenha sido! :-)

    Pelo que pesquei na minha Oxford Bible, parece ter sido um cara que tinha acesso aos três anteriores, mas que mexeu de forma bastante liberal com o conteúdo deles, além de incluir um bocado de ideias próprias...

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  6. 1)
    Por séculos o cristianismo oficial, antes até d Constantino, perseguiu à morte todos q contestassem a historicidade do mito cristão, incluindo os próprios cristãos (dissidentes chamados cristãos professos, gnósticos, míticos etc todos considerados "heréticos", "anti-cristos", independente da corrente ortodoxa, católica ou posteriormente protestante à qual pertencessem), tentando apagar ou denegrir todos os mitos concorrentes q levam à genealogia do cristianismo no ocidente, já q no oriente mitos como os do Krishna védico ou do Budda já estavam por demais enraizados p/serem descartados e ignorados em função d 1 novo mito. Embora, claro tb não tenham sido poupados como fonte d inspiração pelo novo mito q surgia.

    Já outros como o Mitrianismo, outro irmão mais velho do cristianismo, este sim mto popular em Roma nos 2 primeiros séculos do q depois veio a ser entendido como era cristã, ao lado do maniqueísmo e zoroastrismo, tb mto popular no primeiro milênio do calendário cristão; praticamente desapareceram como cultos populares, principalmente em função da perseguição feroz imposta pelos cristãos q não se envergonharam nem um pouco em inverter os fatos e baseados na própria intolerância p/forjar a Suposta perseguição à q teriam sido expostos na época em q o Mitrianismo e o Maniqueísmo, entre outras crenças existiam numa Roma tolerante do ponto d vista religioso. Aliás, tolerância e cristianismo oficial até recentemente nunca tinham se dado mto bem...

    Curioso notar q os ardentes defensores da historicidade cristã, sejam estes crentes literais (independente da corrente católica ou protestante à q pertençam) Ou evemeristas, desconheçam até mesmo as citações da próprias enciclopédias do Vaticano ou a Protestante q já no séculos XVIII apontavam para, entre outras coisas, as incongruências históricas, as origens baseadas em outros mitos desprezadas e forjas d citações históricas feitas pelos primeiros "historiadores" cristãos sobre textos dos historiadores romanos q viveram na época e pouco depois na qual supostamente Cristo existiu. Citações q nos textos originais não existiam.
    A expansão rápida e violenta do Islamismo no 7ºséculo do calendário cristão deve mto ao aprendizado c/o Cristianismo q ao longo dos séculos em termos d violência religiosa não perde pra ninguém, embora pose d vítima e libertador.
    Não é à toa q, ao contrário dos primeiros tempos ainda hj orientais não monoteístas e judeus evitem o assunto na presença d cristãos literais.

    Ninguém menos que uma autoridade eclesiástica cristã, no caso, o Bispo Warburton de Gloucester (1698-1779) classificou as citações tidas como de Josefus à respeito de Jesus como “falsificações grosseiras e primárias.” À exemplo de outras imprimidas pela Igreja católica entre os séculos 4 e 7 sobre textos d outros autores como Plíno, o Jovem, Tácito e Suetônio à fim d apresentar "argumentos" da existência d Jesus contra os dissidentes cristãos e os chamados evangelhos apócrifos.

    Os textos d Flavius Josefus por ex. foram alvo da igreja católica pois este é o historiador do oriente próximo mais famoso da época à q se refere o mito cristão, especialmente porque ele escreveu durante o primeiro século. Seu pai, Matias, viveu em Jerusalem na época d Pilatos e certamente diria à seu filho historiador algo sobre os eventos estranhos e gloriosos descritos nos evangelhos oficiais, se estes houvessem realmente ocorrido... (Continua)

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  7. 2) Continuação...
    O próprio Josefus foi designado para a Galiléia durante as guerras judaicas e posteriormente estava em Roma na época alegada pelo oficialismo cristão q outra figura mítica cristã, Paulo d Tarsus, supostamente esteve qdo então teria despertado a ira das autoridades romanas sobre ele Paulo e a comunidade cristã q apesar d tão pouco tempo já teria chegado à Roma e se tornado influente à ponto d provocar a intolerância nos tolerantes (em assuntos religiosos) romanos.

    Contudo, em toda a obra deste historiador, que constituem muitos volumes c/riqueza d detalhes, não há nenhuma menção de Paulo ou dos cristãos, e há somente dois breves parágrafos que se atribuem à Flavio e supostamente (por inferência dos cristãos literais) se refeririam à Jesus.

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  8. 3)
    Concluindo,
    Só a custa d mtos séculos d perseguição os judeus foram, assim como outros grupos tiveram suas respectivas mitologias "emprestadas" à força pelo cristianismo literal oficioso, foram convencidos a achar conveniente calar suas críticas sobre a inconsistência da construção em q se baseava tal colcha d retalhos mitológica q ainda hj pretende ser histórica.

    Assim como só hj parece renascer o cristianismo original, o professo, considerado herético pelos fundamentalistas por não aceitar a historicidade do Cristo já q, segundo os professos, desde o início, Cristo são vários e não apenas um, sendo Jesus apenas a face “moderna” d um/vários q já teve/tiveram e ainda terá/ão várias outras faces.

    P/terminar é importante lembrar q as características básicas do Cristo ( salvador, pregador, dotado d poderes especiais, mártir, ressurreto etc ) se encontram Tanto mto antes do suposto período histórico deste, constante em várias figuras mitológicas, do egípcio Horus ao romano Mitra passando pelo hindu Krishna ( Índia aliás aonde o cristianismo literal e intolerante nunca teve vez ); Quanto em mitologias q cresceram isoladas d qq influência das já citadas, como a mitologia Azteca, cujas cidades p/espanto e fúria dos espanhóis tinham parte d inúmeras construções, muros e paredes cobertas c/ referências à vida e “calvário” d seus respectivos martíres míticos religiosos. Referências q não foram d todo destruídas.


    “O cristianismo é uma colcha de retalhos de mitos antigos” Nietzsche

    “Nasce um Deus. Outros morrem.
    A Verdade nem veio nem se foi: o Erro mudou.
    Temos agora uma outra Eternidade,
    E era sempre melhor o que passou.
    Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
    Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
    Um novo deus é só uma palavra.
    Não procures nem creias: tudo é oculto.” Fernando Pessoa

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  9. Interessante pq o livro de Marcos também é reconhecido pelo paralelismo de estruturas (como no evento dos Pães e dos Peixes).

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  10. Na verdade as cartas de Mateus, Lucas e Marcos, são três pessoas que assistiram o mesmo evento e o narram.
    Acho um pouco esquisito quando as pessoas falam sobre a Bíblia sem nem ao menos terem lido. Não se pode discutir um livro sem ter lido.
    A Bíblia é extremamente confrontadora, ela explicita as falhas humanas de um jeito super original.
    E em vez de tentar refutar o irrefutável que tal experimentar.
    A Bíblia traz ensinamento preciosíssimos e que se praticarmos seremos felizes.

    Recomendo o livro de Eclesiastes na versão em NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da SBB - Sociedade Bíblica do Brasil.
    É uma linguagem bem mais fácil de assimilar.

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  11. A Débora engana-se achando que todos os contestadores da bíblia nuca a leram, eu mesmo já estava lendo-a pela quinta vez (com enciclopédia bíblica e um Mega dicionário como complemento dos estudos) quando a partir daí apostatei em favor da Razão, que me libertou dessa escravidão, que é a religião, este livro é todo contraditório e irracional, não apresenta evidências nem provas do que se escreveu ali...

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  12. É simples saber o porquê de dizedr que a Bíblia é irracional e contraditória: o Cristianismo não é para os que vivem da razão e intelectualidade. Cristianismo é fé. Simples assim.

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  13. Ora, se "o Cristianismo não é para os que vivem da razão e intelectualidade" então ele é irracional e, assim sendo, acaba envolvendo-se necessariamente em contradições, como necessariamente se envolve em contradições tudo que não respeita a razão. Alias, se a fé exige o abandono da racionalidade então ela desdenha daquilo que nos diferencia das outras criaturas. Por que esse desperdício? A nossa própria sobrevivência depende quase totalmente da nossa racionalidade. Se em todas nossas escolhas e decisões da vida precisamos usar o cérebro racional que temos, por que quando a decisão ou escolha envolve importantes questões lógicas sobre a Bíblia devemos colocar o cérebro num cofre e agirmos como se fôssemos acéfalos? Então Deus teve o trabalho de instalar um cérebro fantástico em cada ser humano para que ele não o use justamente em um momento dos mais importantes que é decidir sobre alegações religiosas as quais, aceitas ou não, afetará sua vida para sempre?

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  14. A Bíblia não é contraditória, mas é preciso saber uma coisa para poder afirmar isso:
    Que Nela há duas Religiões.
    Uma que está ultrapassada, mas permanece Nela porque serviu de base para a outra, entretanto, a mais uma razão acima disso pelo o qual esta religião ultrapassada permanece Nela; porque tem a sombra das coisa que ainda virão no novo mundo. Quem já leu Gálatas e Hebreus e guardou o que nessas cartas leram, sabem do que estou falando.

    Por fim, essa outra Religião baseada na já citada, que embora o mundo não se apercebeu disso, Ela se chama CRISTO JESUS, como está escrito: “Eu Sou o Caminho, A Verdade e A Vida... Ninguém vem ao Pai se não por mim”. No entanto o mundo não tem entendido isto. Não tem se apercebido no que quer dizer de fato esta Palavra dita por JESUS. O mundo aceitou a enganação e enganado tem para si um Jesus que julga ser o único Deus. Com isto o Verdadeiro JESUS, ao invés de ser a Religião por Onde O DEUS que é O PAI Dele deve ser Adorado _ fazendo jus ao que o próprio JESUS disse que Ele é _ fica obscurecido e assim sua glória e a do DEUS Nele que é o PAI fica substituída no conhecimento da humanidade, já que JESUS passou a receber a adoração como sendo o único Deus trínico, quando a perfeita adoração devia ser dada Nele ao PAI DELE. Essa era a Realidade no Puro Cristianismo Santo Apostólico.
    Em resumo:
    Na Bíblia há duas Religiões:
    Antigo judaismo, também chamado de Lei, e Antigo Cristianismo.
    Antigo Cristianismo, porque como já visto aqui o cristianismo praticamente em geral no mundo é pagão, ou seja, demoníaco, porém, muito bem disfarçado de santo. Isto porque após a partida completa de JESUS na Sua Intensidade, ou seja, como CRISTO e o significado Bíblico de CRISTO deve ser conhecido aqui, viria, conforme dito por Ele mesmo, o príncipe deste mundo que é apartado Dele e que os próprios Apóstolos chamaram de anticristo que assumiria o cristianismo de forma tal _ após as partidas Deles deste mundo _ ao ponto do mundo todo acreditar que ainda estão fielmente sendo cristão, embora não são. Quem já leu 2ª Timóteo 4, 2ª Tessalonicenses 2, Evangelho de João quase no finalzinho e guardou o que leu sabe do que estou falando.
    Antes porém, quero deixar claro que o antigo judaísmo descrito na Bíblia, ou seja, a Lei é Santa e isto porque tem as promessas e a base do Messianismo, ou seja, do Cristianismo, também do futuro após o Cristianismo e mostra como o homem passa a ser arrogante ao lidar com o próximo se favorecido pelo O DEUS.

    _CRISTO significa: Ungido a Rei que Governa através dos Súditos, que no casso eram seus Apóstolos, quamdo se tem a própria Bíblia como dicionário das coisas escritas Nela_

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    1. Raciocínio circular é para os fracos. Tudo o que eu entendi que você disse se baseou numa única frase: "A Bíblia diz que é verdadeira porque a Bíblia diz que é. Logo ela é verdadeira" WTF???

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