Dióxido de carbono é um poluente?

Uma coisa que sempre me impressionou é a tendência que as pessoas -- a maioria? -- têm de se perder em discussões de terminologia. Nada contra definir os termos do debate com clareza (sem essa definição, toda conversa tende a se tornar circular), mas discutir terminologia é uma outra coisa: é não discutir o conteúdo da definição, e sim  seu nome.

Ou seja, não é a questão de se, quando falamos "carro", estamos ambos nos referindo a um veículo terrestre sobre rodas dotado de um motor de combustão interna, mas sim se "carro" é um nome adequado para um veículo terrestre sobre rodas dotado de um motor, etc., etc.

A primeira questão pode ser relevante numa série de contextos (e se eu estiver me referindo, na verdade, a um carro elétrico, ou a um vagão de trem?), mas a segunda é apenas uma questão de convenção. Poderíamos concordar em chamar o veículo de que estamos falando de "gurundu", e isso não faria a menor diferença para a conversa.

Shakespeare talvez tenha intuído isso quando escreveu que "uma rosa, sob qualquer outro nome, exalaria o mesmo perfume".

Claro, alguém poderia fazer o favor, neste ponto, de nos lembrar de que as palavras em geral não são neutras, e que a escolha de termos pode alterar, sutilmente, o rumo de um debate, por conta das implicações emocionais e inconscientes que cada palavra traz.

A linguagem é, sob esse aspecto, "carregada"; as palavras "têm bagagem". Daí os infindáveis embates sobre o uso de "manifestante" ou "vândalo", "militante extremista" ou "terrorista", por exemplo.

Mesmo reconhecendo que as palavras têm uma carga, no entanto, muito da grita que se faz a respeito de terminologia só serve para obscurecer as questões de fundo e exaltar os ânimos. Gerar, enfim, mais atrito do que luz.

Muito da energia gasta discutindo se jovens que saem às ruas para queimar carros e quebrar vitrines merecem ou não o epíteto de "vândalos" seria melhor empregada na busca pelas causas e motivos do vandalismo (ou da "manifestação", como se queira). Pode-ser argumentar que encarar o evento como "vandalismo" já enviesa a apuração dos fatos, mas até aí, "manifestação" faz o mesmo. Todo olhar inicial embute uma visão limitada da realidade, afinal. E é exatamente por reconhecer isso que sabemos que investigações são necessárias.

A ideia de que a terminologia molda a realidade é verdadeira até certo ponto, mas muitas vezes parece ser levada a extremos que beiram uma espécie de reverência supersticiosa pelas palavras, como no caso das pessoas que evitam dizer "câncer" ou "azar", ou nos demônios que não revelam seus verdadeiros nomes para não serem controlados por magos ardilosos.

Essa obsessão com termos e nomes costuma ser associada a uma versão especialmente caricatural do discurso de esquerda, mas outras forças já aprenderam a jogar o mesmíssimo jogo.  Como no caso do aquecimento global. Não sei se é impressão minha, mas parece que está ficando cada vez mais comum encontrar, em caixas de comentário por aí, "céticos" da mudança climática vituperando contra o "absurdo de se tratar o CO2 como um poulente".

Afinal, como o dióxido de carbono poderia ser um poluente? Plantas precisam dele! A vida como a conhecemos precisa dele! E assim por diante. Essa linha de argumento se tornou mais comum depois que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA decidiu classificar as emissões de CO2 como um perigo para o bem-estar humano.

Rigorosamente, o argumento deixa de ser sobre  a realidade do aquecimento global de origem antrópica, e se torna um argumento sobre a conveniência do uso da palavra "poluente".

Mas a questão, é claro, quase nunca é tratada de modo rigoroso; o que se tenta é construir um sofisma que vai do "absurdo" de se considerar poluente uma substância que é essencial para a vida à conclusão de que regular emissões de CO2 é besteira.

O fato, no entanto, é que as pessoas que acham que "poluente" é uma palavra pesada demais para o pobre dióxido de carbono são livres para aparecer com um termo melhor; mas que o mundo não vai parar de esquentar por causa disso.

Por fim, é sempre bom relembrar Paracelso, que mais ou menos na época em que o Brasil estava sendo descoberto sentenciou que "todas as coisas são venenosas, e nada está livre de veneno; apenas a dose permite que uma coisa não seja venenosa".

Comentários

  1. É interessante que na semana passada postei um artigo em meu blog entitulado "Logoslogia" com tema semelhante, mas focando o outros lado: a importância dos nomes. Como você bem notou, essa é uma discussão centenária entre o realismo e o nominalismo. Pude perceber que seu foco é no realismo mais que nominalismo, mas acho interessante frisar que ambos os lados possuem validade. O realismo defendido aqui está claro, mas o nominalismo aponta para um lado mais subjetivo da questão que também é importante e não pode ser negado.
    Pegando o seu exemplo do aquecimento global e do CO2 como poluente, obviamente chamá-lo de poluente ou de qualquer outra coisa não irá mudar a realidade do aquecimento global. Mas o fato de chamarmos de poluente fala muito sobre a questão, principalmente o quão desinformados somos sobre isso! CO2 não é poluente, mas a questão é que a alta emissão desse gás aponta para a alta emissão de outros poluentes, além de não ajudar na questão do efeito estufa, mas mesmo assim está longe de ser um poluente como o Óxido Nítrico ou o Monóxido de Carbono. O fato de chamarmos o CO2 de poluente mostra como a população - e principalmente nossos legisladores que criam as leis que taxam a emissão de CO2 - desconhece os estudos científicos e a realidade: uma noção subjetiva sobre o desconhecimento da realidade objetiva.
    Eu defendo que o nominalismo e o uso das palavras e nomes aponta para a forma como tratamos o real. A mística do nome está sobre a mística do conhecimento da realidade: se eu conheço o nome do demônio, eu conheço a sua realidade e posso controlá-lo. Se eu conheço o nome do cidadão eu posso controlá-lo. Se eu sei como chamar uma pessoa, se de vândalo ou de manifestante, eu sei como controlá-lo, ou ao menos sei como devo me reportar a ele, se com respeito ou com medo.
    Talvez possa ser pelo fato de eu ser psicólogo que reconheço e valorizo o lado subjetivo das questões e por isso reconheço o valor do nome. Romeu e Julieta tentaram mostrar que um nome é só um nome, que Capuletos e Montéquios são no fundo pessoas e que os nomes não são justificatias para o ódio. Mas, ao mesmo tempo, por mais que uma rosa sob outro nome não perdesse o seu perfume, ninguém iria gostar de ter em casa uma plantação de "Flor de estrume" ou "Fedorenta vermelha", certo? Talvez a questão seja que Capuletos e Montéquios não sejam diferentes na realidade, mas que existem diferenças históricas e pessoais que são apontadas pelos nomes, isso não há dúvidas.
    Enfim, o que tentei opinar aqui é que nomes também têm relevância e importância! Espero ter contribuído para o debate... =)

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  2. Essa discussão lembra muito um professor meu de agronomia que tentava mudar o nome da disciplina de "Plantas daninhas" para "Plantas indesejáveis"... O conceito poluição, poluente, poluir... no Aurélio: 1.Sujar, corromper, tornando prejudicial à saúde 2.Sujar, macular... Usa-se o termo para poluição sonora, visual, até para uma placa publicitária fora de local. Sabemos que a importância do CO2 mas ele é inclusive unidade de medida em relação a outros gases no Potencial de Aquecimento (25 a 32 vezes o CH4, ~296 vezes o N2O...). Ele na atmosfera como está, evitando a dissipação das ondas de espectro magnético mais longo, as de calor, e com todas essas evidências de ser efeito antrópico, na minha opinião, o CO2 é poluente.

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  3. Uma das primeiras obrigações de um cientista é usar o nome certo para cada coisa.

    Infelizmente, uma das primeiras obrigações de um jornalista é usar o nome errado para cada coisa para que o seu texto se adeque ao público e ao estilo do seu jornal/revista/rádio/TV/blog.

    Estou forçando a barra, claro, mas no fundo a questão é essa: quem sabe o que é CO2 sabe que entender os seus efeitos vai além de uma simples definição é/não é. Já quem não sabe, acaba achando a definição mais importante que o fato.

    Lembro quando Plutão foi "rebaixado", de ter lido em blogs perguntando se essa mudança em Plutão poderia ter consequencias para o sistema solar. Os seja, para elas, o planeta havia mudado por causa de uma mudança na sua definição.

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  4. "...mas que o mundo não vai parar de esquentar por causa disso..."
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    Engraçado que o relatório do IPCC mostra exatamente o contrário, primeiro a temperatura sobe, para somente depois termos uma alta no CO2 e não o contrário.

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    1. A onda *atual* de aquecimento global na verdade *se segue ao aumento do CO2* desencadeado pela Revolução Industrial, e que ainda vivemos. Em escala geológica, de milhões de anos, aí sim, o mais normal é a temperatura começar a subir um pouco antes do CO2 aumentar, mas há uma boa explicação para isso: http://www.skepticalscience.com/Why-does-CO2-lag-temperature.html

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