Quem legislou as leis da Natureza?

Muita coisa seria bem mais simples neste mundo se um número maior de pessoas tivesse uma noção mais firme dos limites da analogia e da metáfora. Imagino, por exemplo, que todo mundo entende que o fato de o amor ser como uma roseira, pois é belo mas tem espinhos, não significa que ele também precise de esterco curtido e torta de mamona para prosperar.

Às vezes, no entanto, esse tipo de limite é difícil de achar. O caso da expressão lei da natureza é um clássico do tipo de confusão que surge nessas circunstâncias. Resumindo a postagem toda numa só frase, as "leis" naturais são descritivas, enquanto que as leis propriamente ditas, as leis das sociedades humanas, são prescritivas. A diferença entre os adjetivos é de apenas uma sílaba, mas compreende todo um universo de maus-entendidos, quando não de pura malícia.

Expandindo: quando um órgão político produz uma lei, o que ele está fazendo, falando de modo bem generalizado, é restringindo comportamentos: dada a possibilidade real de as pessoas adotarem as condutas A, B, C, D... , a lei determina que parte dessas condutas é inaceitável, outra parte é obrigatória.

Como, no entanto, nenhuma conduta deixa, de fato, de ser uma possibilidade real, é preciso um exercício de poder -- em parte pela cultura mas, em última instância, pela polícia -- para que a lei seja obedecida.

Como isso se compara ao que ocorre quando um cientista propõe uma lei da Natureza? Nesse caso, o que o cientista está dizendo é que, após longas e exaustivas observações, foi possível determinar, com uma dose razoável de certeza, que dadas as condições X, o ente natural Y sempre reage da maneira Z.

Em outras palavras, dizer que a lei da gravidade "faz com que" maçãs maduras a caiam de seus galhos, da mesma forma que a lei do IRPF me compele a preencher uma declaração anual de renda, é uma falsa analogia -- na verdade, uma das analogias mais falsas que se poderia imaginar. A locução "lei da gravidade" representa não um ordenamento, mas uma uma síntese. É o nome dado às generalizações tiradas de um extenso conjunto de observações que inclui, entre inúmeras outras, a de maçãs maduras caindo de seus galhos.

Dizer que a maçã cai "por causa" da lei da gravidade equivale a dizer que a maçã cai porque as maçãs caem.

Nesse sentido, a velha questão teológica de quem é o legislador por trás das leis da natureza se revela tão sem significado quanto perguntar de que vaca veio o leite usado para fabricar o queijo de que é feita a  Lua.

Claro que é possível evitar a confusão semântica trocando a pergunta ingênua por outra: por que há regularidades na natureza? Ou, de modo diferente: por que nossas observações da natureza revelam resultados tão consistentes a ponto de nos permitir deduzir "leis"?

A mim me parece que mesmo essa versão reformulada trai um antropocentrismo injustificado: como, nas relações sociais e humanas, estamos acostumados a esperar o caos, a menos que haja regras externas aos agentes, inadvertidamente supomos que a Natureza também deveria, na ausência de regras externas, ser caótica, e nos surpreendemos quando isso não ocorre. Mas é bem provável que essa surpresa diga mais a respeito de nossos preconceitos como animais políticos e sociais do que qualquer outra coisa.

Indo um pouco mais fundo na questão, pode-se dizer que as regularidades da Natureza existem porque o mundo físico -- ou, ao menos, a parte do mundo físico a que temos acesso -- é composto por um número finito de tipos de entidades: as leis da eletricidade surgem do fato de que as partículas que reagem à força elétrica cabem em tipos bem definidos; e de que os indivíduos dentro de cada tipo são idênticos entre si. Um elétron se comporta de seu modo peculiar simplesmente porque é um elétron, e as "regularidades" da eletricidade surgem do fato de que todos os elétrons são iguais.

Seria possível pressionar ainda um pouco mais e cobrar uma explicação para esse fato: por que, então, o "zoológico de partículas" é finito em sua diversidade? Por que o universo subatômico não é rico a ponto de gerar entidades perfeitamente individualizadas, dotadas de uma espécie de "vontade própria"?

De novo, a questão trai um viés antropocêntrico, mas talvez seja legítima; todavia, mesmo se for, representa um problema de física (ou de matemática) e não de filosofia ou teologia, como esperariam os postuladores do "legislador universal". A natureza, enfim, basta-se a si mesma: suas leis não são impostas por uma polícia cósmica, mas apenas refletem os limites da criatividade do possível.


Comentários

  1. Muito pertinente. Criar metáforas é realmente uma arte e expor suas limitações é tão explicativo quanto a metáfora em si.
    http://rodrigoveneziani.blogspot.com/

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