Tá, mas para quê serve esse tal de Higgs?

Imagino que todo jornalista de ciência que está -- ou que já esteve -- ligado à grande mídia conhece a sensação: você começa a explicar ao editor por que é importante publicar algo sobre a descoberta X ou o experimento Y e, de repente, os olhos dele ficam vidrados, o cara abre a boca uma, duas vezes e, por fim, balbucia: "Tá, mas o que isso tem a ver com o mundo real?"

Essa parte sobre "mundo real" é complicada, principalmente para quem trabalha com jornal ou TV, onde os recursos são altamente limitados (papel e tempo, respectivamente), mas também, cada vez mais, com produtos online -- já que a exposição na home-page (finita) do portal influencia a audiência de modo dramático, e a contagem de cliques é a medida suprema de relevância. 

Dadas essas limitações, veículos de interesse geral -- grandes jornais, revistas, sites noticiosos -- tendem a, compreensivelmente, priorizar o chamado "hard news" (escândalos políticos, índices de inflação, estupradores à solta) e o serviço (datas de vestibular, informações de trânsito, defesa do consumidor). O que obriga a ciência a competir por espaço com o chamado "infotainment", ou "entretenimento informativo" -- fofocas de celebridades, galinhas de duas cabeças, Pés-Grandes, etc. 

(O jornalismo cultural enfrenta um problema parecido, mas os jornais impressos, principalmente, ainda veem os cadernos culturais  mais "densos", publicados no fim de semana, como fonte de prestígio, mesmo que muito pouca gente os leia; já cadernos de ciência...)


Há uma estratégia, da qual eu mesmo fui adepto durante muito tempo, de tentar conquistar espaço disfarçando a ciência como "infotainment", de certa forma contrabandeando-a em meio à bizarrice geral: usar a galinha de duas cabeças para discutir seleção natural, ou avistamentos de óvni para tratar de vieses cognitivos, por exemplo. 

O problema dessa manobra é que ela tende a escapar do controle -- usar a ciência para pôr rédeas no infotainment é como uma pulga tentar pilotar um elefante. Ou, como costuma acontecer com os policiais infiltrados na Máfia nos filmes de Hollywood, uma hora já não se sabe mais o que é do disfarce e o que é da essência. Aí o disfarce engole a essência e viramos o Discovery Channel.

A tediosa digressão acima me ocorreu enquanto eu refletia sobre a forma como o anúncio dos mais recentes resultados sobre a busca pelo bóson de Higgs no LHC foi tratado na Globo News e, depois, no Jornal Nacional. Na GNews, houve uma tentativa desesperada de se buscar uma conexão com o "mundo real" -- qual a relevância mediata, queria saber a apresentadora, dos resultados? Um físico presente ao estúdio tentava contextualizar a pesquisa, dar uma ideia do que é o Modelo Padrão de partículas... Mas a impaciência, a cara de e daí? da jornalista era inconfundível.

Já no JN, William Bonner anunciou que os cientistas tinham visto sinais de -- cito de cabeça -- "uma das primeiras partículas a surgir logo após a origem do Universo", frase acompanhada de umas imagens coloridas, e pronto. Uma tentativa, meio morna, de gerar "infotainment".

Esses dois polos -- o de forçar a barra em busca de relevância imediata e o de forçar a barra em busca de um efeito de "infotainment" hiperbólico -- são exemplares de como temas científicos acabam sendo tratados, nesse contexto midiático de pouco tempo, pouco espaço, pouca atenção.

Mas, enfim, para que serve o bóson de Higgs? Se a questão se refere ao que a partícula supostamente "faz" no mundo físico, tem uma boa explicação aqui, neste texto do Guardian. Se a questão tem um espírito mais filosófico, a descoberta do Higgs dará consistência à teoria predominante sobre as partículas que compõem o Universo, o Modelo Padrão, e as características específicas do bóson apontarão caminhos pelos quais essa teoria pode ser aperfeiçoada.

E por que nós, que pagamos impostos e ficamos presos no trânsito, deveríamos nos preocupar com isso? 

Supondo que nossos hipotéticos contribuintes/motoristas tenham corações duros demais para não se entusiasmar com a mera possibilidade de aprendermos mais a respeito do funcionamento do Universo, sempre poderemos lembrá-los de que os estudos e pesquisas que permitiram a construção do atual Modelo Padrão produziram, entre outros subprodutos, a bomba atômica e o chip de computador. Não faria muito sentido, portanto, parar agora.



Comentários

  1. Carlos:

    Você não acha que chamar o Boson de Higgs de "Partícula de Deus" um certo sensacionalismo barato justamente para garantir a audiência da massas e da mídia (e assim mais verbas)? Não cheguei a ler a anuncio original do LHC, mas pelo menos no Estadão usa-se justamente o esse termo. Isso ma causa arrepios!

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  2. O apelido surgiu como uma espécie de ironia por parte, SNME, de um nobelista de Física. Mas, concordo, ele foi extremamente mal escolhido, se presta a todo tipo de exploração sensacionalista e ajuda a chamar atenção. Mas chama atenção do jeito errado e a mídia, apostando na hipótese de que o leitor é um idiota que só reage a estímulos de alta intensidade, se agarra a ele.

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  3. O apelido surgiu como uma espécie de ironia por parte, SNME, de um nobelista de Física.

    SNME? O que é isso?

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  4. "Se Não Me Engano". Abreviação de digitador preguiçoso...

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  5. Senhores, não sei se aprendi mais... ou me confundi, mas me reservo o direito de dizer uma coisinha: Não estou só. Ainda existem pessoas interessadas em assuntos importantes... gostei da justificativa de continuar as pesquisas... afinal chegamos ao chip... e muitas outras coisitas mais...

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  6. Imagine no boca-a-boca de antes da revolução tecnológica provocada pela eletricidade... Como de faria para interessar as pessoas por uma tal de partícula hipotética denominada "Elétron"? Elas queriam saber é se o porco estava gordo, as galinhas botavam ovo... Quem iria imaginar que com o amadurecimento da teoria e com as aplicações práticas seria um dia possível contruír carruagens sem cavalos...?

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