Vida multicelular a jato: evolução em ação

Artigo publicado online pela PNAS mostra que grãos de uma levedura unicelular, Saccharomyces cerevisiae, bem conhecida por animar as noites de sábado dos não-abstêmios, são capazes de formar estruturas muito parecidas com organismos multicelulares em menos de dois meses.

Agora, note que o parágrafo acima fala em "organismos multicelulares", e não em meras "colônias de células". Entre as características anotadas pelos autores do experimento, há a divisão de trabalho entre as células, elas são geneticamente idênticas e os aglomerados se comportam como organismos dotados de identidade individual, gerando até mesmo filhotes: células na superfície dos aglomerados morriam depois de um tempo, o que fazia com que novas células não tivessem como aderir à estrutura original e forçava-as a começar seus próprios aglomerados independentes.

O segredo do experimento foi submeter as células de levedura uma "seleção natural" (no caso, artificial) por gravidade: como aglomerados de células são mais pesados do que células solitárias, os pesquisadores, liderados pelo americano William Ratcliff, da Universidade de Minnesota, montaram um esquema no qual culturas de levedo eram centrifugadas, e apenas o material depositado no fundo dos tubos voltava a ser cultivado.

(Para entender a relação entre força centrífuga e peso, assista a este clipe de 007 contra o Foguete da Morte.)

O resultado dessa pressão seletiva, onde os mais gordos assumem o papel de mais aptos, foi a produção de uma forma rudimentar de vida multicelular em cerca de 60 dias.

Os “flocos de neve”, como os aglomerados foram chamados, tinham um ciclo de vida com estágio juvenil, quando cresciam sem limites, e um adulto, quando após atingir um certo tamanho se dividiam em floco-mãe e floco-filha.

Ratcliff foi capaz, até mesmo, de ajustar os estágios. Se cultivasse apenas os flocos que afundavam mais depressa, os organismos selecionados cresciam muito mais antes de sofrer divisão. Isso confirma que a seleção natural estava atuando no floco como um todo. “Elas (as células) sobrevivem como um todo ou morrem como um todo. A seleção se desloca para o nível multicelular”, disse ele, falando à revista Nature.

Como nota o blog Science Sushi, este é apenas mais um exemplo de como a evolução pode gerar estruturas complexas a partir de pressões seletivas relativamente simples. Abaixo, um vídeo do processo:

 

Comentários

  1. Vale lembrar que foram usadas linhagens unicelulares descendentes de linhagens multicelulares.

    []s,

    Roberto Takata

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