Besteirol corporativo: eu no Zero Hora

Até hoje me lembro de como fiquei chocado quando, no fim do século passado, tive em mãos um jornalzinho produzido pelo setor de marketing da agência de notícias em que trabalhava, para ser divulgado entre executivos de grandes empresas -- na época, antes do boom da internet, o principal mercado da agência eram empresas que precisavam de serviços de informação em tempo real.

O primeiro impacto foi notar como o texto era ruim, mal escrito, mal ajambrado. O segundo foi decifrar, debaixo da massa ignara de anglicismos toscos e mal resolvidos (antes da esquerda nos trazer o "empoderamento", o capitalismo gerou a "monetização") e da sintaxe confusa de quem pensa em inglês ruim e escreve em português pior ainda, os significados pobres, as promessas vazias, o otimismo imbecil e a absoluta ausência de lógica.

Foi ali que comecei a desconfiar que a fronteira final a ser conquista pelo pensamento crítico racional não seria a medicina alternativa, a crença na vida após a morte ou os feitiços para trazer a pessoa amada em três dias, mas o mundo corporativo. Meu breve convívio (alguns anos depois) com um processo de "reestruturação corporativa", a recente crise global desencadeada pela "exuberância irracional" dos mercados e a atual cultura do "empreendedorismo" só fizeram transformar essa desconfiança em certeza.

Basta passar dois ou três minutos assistindo aos vídeos de "coaching" ou de "consultores de marketing" que pululam nas redes sociais para ver que hoje vivemos num mundo onde as pessoas parecem convencidas todas as desgraças apontadas por Arthur Miller em sua peça A Morte do Caixeiro Viajante -- a subserviência abjeta, a aterradora vacuidade espiritual, a manipulação fria e egoísta dos afetos -- são abertamente recomendadas, elogiadas e ensinadas como virtudes. A sinceridade de quem receita esses comportamentos é fantástica. Estamos numa era para além da hipocrisia.

Foram reflexões assim que me levaram a escrever o artigo A Superstição Empreendedora, publicado na edição deste sábado do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Comentários

  1. E o seu artigo foi de uma felicidade extraordinária. Há algum tempo eu tinha ideias semelhantes sobre team-building, mas nunca as escrevi. Vivo em um ambiente que padece exatamente disso, e não posso me expor dizendo tudo o que penso sobre, mas até se quiser trocar ideias sobre o assunto eu preciso ser cauteloso.

    Obrigado pelo artigo, de qualquer forma.

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