O psiquiatra exorcista


A falácia do apelo à ignorância -- alegar que, já que um fenômeno X não tem explicação racional conhecida, todos deveriam aceitar a explicação irracional Y -- tem uma espécie de toque de Midas  retórico: faz arrogância insuportável soar como profunda humildade.Quem a utiliza geralmente começa declarando, humildemente, que não sabe explicar X, que na verdade ninguém sabe explicar X, para em seguida argumentar que, se você não for um cabeça-dura orgulhoso, resta a opção de aceitar que a única explicação cabível é Y. O argumentador está, em resumo, dizendo: "eu sou humilde, e se vocês forem humildes como eu, vão aceitar que estou inquestionavelmente certo e que a verdade é Y".

Essa manobra toda fica muito clara no artigo "As a psychiatrist, I diagnose mental illness. Also, I help spot demonic possession", publicado no início do mês pelo jornal The Washignton Post. Nele, o psiquiatra e psicanalista Richard Gallagher, católico, relata como se converteu numa espécie de assessor para os exorcistas católicos dos Estados Unidos, depois de encontrar casos que era "incapaz de explicar com meu treinamento".

A ideia de que o treinamento -- psiquiátrico, psicanalítico -- poderia ter sido inadequado ou insuficiente para os casos específicos que o levaram a abraçar a hipótese da possessão não pareceu ter lhe ocorrido. Trata-se de uma dose dupla de arrogância: a de se considerar um médico dotado de conhecimento perfeito sobre sua ciência e, além disso, a de se ver como membro da única religião verdadeira sobre a face da Terra.

Como detalha bem o neurologista Steve Novella em seu blog, Gallagher usa uma cadeia de falácias, que vai do apelo à ignorância ao argumento da incredulidade pessoal ("não posso acreditar, logo..."), passando pela sempre profícua confusão entre inexplicado (não há explicação racional disponível neste momento) e inexplicável (nenhuma explicação racional jamais será possível).

Alguns dos exemplos citados pelo psiquiatra são especialmente patéticos quando lidos por alguém com alguma experiência em fraudes psíquicas e/ou técnicas de persuasão usadas por videntes: para citar um só caso, ele parece ter ficado impressionado com o fato de um paciente "possesso" ter sido capaz de apontar "fraquezas secretas, como orgulho indevido", de seus interlocutores. Mesmo? Qualquer cartomante de esquina, digna de seu velho tarô ensebado, faz o mesmo com um pé nas costas.O nome do truque é Efeito Forer.

Ele também parece impressionado com casos em que a pessoa supostamente possessa fala em línguas que não conhece, ou "não poderia conhecer". Pondo de lado a questão de relatos exagerados -- tanto da proficiência do possuído quanto de sua ignorância pré-possessão -- a ideia de que uma pessoa pode, ao longo da vida, captar, aqui e ali, palavras, frases ou mesmo intuir regras gramaticais de uma língua estrangeira com a qual nunca teve contato formal, e acumular esses dados no inconsciente, parece estar além de seu horizonte explicativo.

"O que devo pensar de pacientes que, inesperadamente, começam a falar em latim perfeito?", pergunta ele. É uma boa questão, mas outra ainda melhor é: por que apelar para a mitologia católica da possessão demoníaca para respondê-la? Por que não deixar a pergunta em aberto até que haja evidências mais conclusivas ou, então, respondê-la com algum outro absurdo igualmente "plausível", como o cérebro do paciente estar captando transmissões de rádio de 3.000 anos atrás? Ou uma "simples" reencarnação?

Além de se gabar "humildemente", Gallagher cita alguns números preocupantes: diz, por exemplo, que a Igreja Católica nos Estados Unidos conta hoje com 50 exorcistas "estáveis", nomeados por seus bispos para dar combate ao demônio de modo quase rotineiro. Dez anos atrás, o número era doze. Trata-se de uma maré crescente de irracionalidade.

Cuido da questão da possessão demoníaca a fundo no meu Livro dos Milagres, e o consenso absoluto das fontes científicas e seculares é de que o fenômeno, na verdade, se desdobra numa série de causas, que vão de distúrbios psiquiátricos ou neurológicos a válvulas de escape para inadequações sociais e que inclui, também, fraude pura e simples. Tentar reabilitar, seja sob o aspecto clínico ou científico, a ideia de possessão como um fenômeno causado por espíritos ou demônios prejudica os doentes, encobre os estresses sociais e acaba sendo uma mão na roda para os espertalhões.

Comentários

  1. Por coincidência nesta semana mesmo eu esbarrei com o "argumento da ignorância" sendo citado numa fala do Neil deGrasse Tyson.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência