O zodíaco ataca novamente

Não sei se vocês notaram, mas nas últimas semanas houve uma pequena celeuma nas redes sociais porque a Nasa teria "mudado o signo astrológico" das pessoas. Claro, isso é uma bobagem. Foi, na verdade, apenas mais uma das infindáveis "redescobertas" da existência de Serpentário, a décima-terceira constelação do zodíaco, e da precessão dos equinócios. Essa história de que existem 13 signos (14, na verdade, se contarmos o fragmento da constelação de Baleia) da faixa zodiacal, e de que a posição real das constelações no céu não bate com a dos mapas astrais, é uma das novidades mais antigas do mundo -- eu mesmo tratei do assunto numa das postagens inaugurais deste blog.

Por coincidência, enquanto a tal "polêmica" dos signos cumpria seu ciclo facebookiano de de estouro-e-sumiço, chegava aqui em casa a edição mais recente de Correlation, o "journal" da Associação Astrológica da Grã-Bretanha. Como expliquei numa postagem anterior,  assinei Correlation como parte de minha pesquisa para escrever O Livro da Astrologia -- assinantes têm acesso aos arquivos históricos do periódico. Correlation publica artigos, muitos deles formatados como "papers" científicos ("abstract", tabelas, etc.) sobre a arte astrológica.

Essa edição recente traz a resenha do que parece ser um livro muito interessante sobre a história do esoterismo ocidental, por Nicholas Campion (cuja história da astrologia foi uma de minhas fontes) e, outra coisa que me chamou a atenção, uma defesa da reanálise dos dados apresentados no livro Astrology File, de Gunther Sachs. Publicado em 1998, o trabalho de Sachs, baseado na tabulação dos dados do censo suíço e comportando, graças a esse fato, informações referentes a milhões de indivíduos, foi saudado como uma "prova científica" da astrologia, ao encontrar correlações entre signo solar e escolha de profissão, e entre signos e casamentos.

O estudo, no entanto, logo foi invalidado por uma série de questões de metodologia. Três críticas completas podem ser lidas aqui mas, resumindo: os efeitos eram muito pequenos, podendo ter sido causados por perturbações que nada têm a ver com astrologia (por exemplo, a distribuição de nascimentos não é exatamente uniforme ao longo do ano, logo não é correto pressupor que 1/12 da população nascerá em cada signo); os resultados são inconsistentes entre si; as técnicas estatísticas usadas não eram as mais adequadas.

Além disso, dados de censo tendem a apresentar pequenos problemas no registro das datas de nascimento -- se uma pessoa só responde ao formulário pela família inteira, há o risco de ela inconscientemente repetir seu mês de nascimento ao preencher o do cônjuge -- que acabam amplificando o número de casais do mesmo signo.

A artigo em Correlation mergulha nos dados de Sachs e nos de outro autor, Didier Casttille, que tentou refazer o trabalho de Sachs usando uma base de dados francesa. O texto defende algumas conclusões positivas sobre a realidade das afinidades astrológicas no campo do romance, fazendo apenas uma menção de passagem às críticas aos métodos aplicados. Outro artigo, na mesma edição de Correlation, tenta escavar algo mais de significativo na base de dados de Gauquelin, agora valendo-se dos nodos lunares, os pontos em que a órbita da Lua cruza o plano da órbita terrestre.

Em linhas gerais, os dois trabalhos exemplificam a prática de torturar os dados, considerados válidos a priori, até que eles digam alguma coisa -- qualquer coisa -- que vá ao encontro das expectativas pessoais dos autores.

Como se trata de astrologia é fácil, para a maioria de nós, perceber os vieses implícitos, o abuso da aplicação automática de testes estatísticos, a perda de significância causada pela enésima reanálise da mesma base de dados. Já numa dissertação de mestrado ou numa tese de doutorado parece que é mais difícil detectar essas coisas. Nesse aspecto, a astrologia ainda pode ser muito didática.

Comentários

  1. A teoria dos signos do Zodíaco permanecem confiáveis, segundo a interpretação dos Astrólogos?

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    1. A maioria diz que sim. Tem uma explicação mais alongada no link ao final do 1o. parágrafo da postagem.

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