Os malucos e a estufa

"É difícil fazer um homem compreender um fato quando seu salário depende de uma continuada incompreensão". A frase, do romancista americano Upton Sinclair (1878-1968) é repetida diversas vezes no livro The Madhouse Effect ("O Efeito Hospício", em tradução literal), escrito a quatro mãos pelo cientista Michael E. Mann e pelo cartunista Tom Toles. Mann, climatologista da Universidade Estadual da Pensilvânia, é um dos autores do histórico "paper" que apresentou a primeira versão do chamado "gráfico do taco de hockey", que mostra como as temperaturas médias globais dispararam ao longo do século 20:

A linha azul reproduz o "bastão de hockey" original, publicado em 1999. A vermelha, temperaturas reais de 1850 e até 2013 

Madhouse Effect -- o título é um trocadilho entre "madhouse" ("hospício") e "greenhouse" ("estufa") -- é uma mistura de divulgação científica e polêmica política em torno das disputas sobre o aquecimento global causado pela queima de combustíveis fósseis.

A parte sobre ciência é bem simples e esclarecedora. Mann e Toles lembram que o fato de que a atmosfera terrestre aprisiona energia solar já havia sido deduzido por Joseph Fourier há quase 200 anos; que o papel destacado do CO2 e do vapor d'água nesse processo foi identificado por Svante Arrhenius há mais de 100; que não existe, aliás, nenhuma controvérsia quanto a essa propriedade específica do dióxido de carbono, de capturar calor: ela é levada em conta, por exemplo, no design de mísseis termoguiados.

Some-se a esses fatos bem estabelecidos apenas mais um, também nada polêmico -- o de que a queima de petróleo, carvão e outros hidrocarbonetos produz CO2 -- e temos um raciocínio completo e direto: CO2 impede que a Terra devolva ao espaço o calor recebido do Sol. Quanto mais CO2, mais calor fica aprisionado. Quanto mais petróleo usamos, mais CO2 emitimos. Usamos petróleo pra dedéu. Logo, aquecimento global.

Claro que, em se tratando de ciências físicas, cadeias dedutivas não bastam: é preciso confrontá-las com observações e experimentos. Afinal, mesmo que o encadeamento lógico, construído a partir das premissas conhecidas, seja perfeito, sempre é possível que a natureza tenha deixado alguma premissa oculta pelo caminho.

No caso do aquecimento global causado por atividade humana, Mann e Toles concedem que, pelo menos até os anos 70 do século passado, era concebível que o efeito fosse, de algum modo, autolimitante: talvez outras formas de poluição emitidas junto com o CO2 fizessem "sombra" na Terra e reduzissem a radiação solar incidente (o mesmo princípio, ainda que numa escala bem menos dramática, do Inverno Nuclear). Ou talvez o aumento na evaporação de água produzisse mais nuvens e essas nuvens, sendo brancas, refletissem a luz do sol de volta ao espaço.

Mas Madhouse Effect aponta que, pelo contrário, as observações e experimentos conduzidos nos últimos 40 anos mostraram que o efeito estufa não é autolimitante e, sim, autoacelerante: não só o ganho em nuvens e sujeira não equilibra o aumento de temperatura, como a perda do gelo (branco, refletor de luz solar) nos oceanos expõe a água (escura), e o aquecimento dos solos congelados libera metano, outro gás do efeito estufa. Existe até mesmo um ensaio recente de filosofia da ciência descrevendo como e por quê pesquisadores, incluindo alguns que esperavam um efeito predominante da poluição "refrigeradora", mudaram de ideia e passaram a aceitar o aquecimento global.

Mann e Tobes também tratam da questão de como se pode afirmar que essa ou aquela tempestade, seca,  onda de calor, etc., foi provocada pelo aquecimento global de causa humana, ou se "teria acontecido de qualquer jeito". Madhouse Effect condena veementemente o argumento clássico de que não se pode vincular eventos específicos, como o furacão Katrina (que devastou Nova Orleans) ou a supertempestade Sandy (que causou danos graves a Nova York) ao fenômeno.

Os autores comparam o excesso de CO2 injetado na atmosfera pela atividade humana a uma espécie de dopping do sistema climático e perguntam: faz sentido questionar, a cada vitória ou recorde individual de um atleta dopado, se o resultado foi natural ou efeito dos esteroides?

Dada a ciência estabelecida, tanto na teoria quanto na prática, como o negacionismo climático persiste? É aí que o livro assume seu lado de polêmica política. Os autores denunciam a existência de uma espécie de carreira de "negadores profissionais", pesquisadores que se põem a soldo de interesses comerciais para questionar ou relativizar achados científicos (Madhouse Effect traça a origem dessa "profissão" na indústria do tabaco), apontam para o que consideram um terror paranoico de regulamentação governamental nascido nos tempos da Guerra Fria, denunciam jornalistas e profissionais de relações públicas envolvidos no assassinato de reputações e, como não poderia deixar de ser, citam a frase de Upton Sinclair sobre a relação inversa entre entendimento e remuneração.

Mann e Toles definem uma espécie de "escalada do negacionismo", em que cada argumento nega o anterior. Numa tradução parafraseada,  esses estágios seriam: (1) o aquecimento não existe; (2) existe, mas é natural; (3) não é natural, mas é irrisório; (4) não é irrisório, mas é benéfico; (5) não é benéfico, mas tentar consertar sairá mais caro; (6) a tecnologia vai nos salvar.

Ao apontar o caráter inconsistente da escalada -- e notar que, em debates, vários negacionistas  transitam de um degrau para o outro sem pudor -- os autores, de certa forma, antecipam a constatação apresentada num artigo recente, publicado no periódico SyntheseThe ‘Alice in Wonderland’ mechanics of the rejection of (climate) science: simulating coherence by conspiracism ("A mecânica 'Alice no País das Maravilhas' da rejeição à ciência (climática): simulando coerência por conspiracionsimo"), de que a negação da mudança climática antropogênica depende de um corpo de alegações que é internamente inconsistente.

Os autores do trabalho em Synthese apontam que os argumentos supostamente científicos contra a mudança climática carecem de coesão: por exemplo, dizem que o CO2 é necessário para impedir uma nova era glacial e, depois, que o CO2 e a temperatura da Terra não estão relacionados; ou que não existem medidas históricas confiáveis dos níveis de CO2, e que o registro histórico mostra que a temperatura sobe antes da concentração de CO2. Que o aquecimento global não existe e que houve uma pausa no aquecimento global. A menção a "Alice" vem da frase da Rainha Branca em Através do Espelho, "Acredito em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã".

Uma das ilustrações de Tom Toles para o livro
Por sua vez, The Alice in Wonderland mecahnics faz referência a um trabalho publicado em 2012 em Social Psychological and Personality Science (SPPS), com o título sugestivo de Dead and Alive: Beliefs in Contradictory Conspiracy Theories ("Morto e Vivo: Crenças em Teorias de Conspiração Contraditórias"), que constatou uma forte correlação de crenças contraditórias entre pessoas que aderem a teorias da conspiração -- por exemplo, pessoas que consideram altamente provável que a Princesa Diana tenha sido assassinada também consideram altamente provável que ela tenha forjado a própria morte e ainda esteja viva.

Os autores do trabalho na SPPS concluem que adesão a uma meta-narrativa -- no caso, a de que a "história oficial" da morte de Diana é falsa -- solapa a inconsistência das narrativas individuais. Conspiracionistas "tiram sua coerência de crenças centrais, como a convicção de que as autoridades participam de maciços esquemas para enganar o público (...) A conectividade com essa ideia central fornece apoio a qualquer teoria individual", afirma o artigo.

Voltando ao tema da mudança climática, dá para dizer que as estratégias individuais de negação, mesmo contradizendo-se, têm conectividade com a ideia central de que nada pode ou deve ser feito para conter as emissões de CO2, o que as torna coerentes o bastante para libertários paranoicos,  políticos em campanha, administradores públicos amestrados por lobistas, cientistas mercenários -- e gente acometida pela síndrome de Upton Sinclair.


Comentários

  1. Pena que este texto não chegara aos acometidos da síndrome ou será descreditado.

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  2. Entendo sua exposição e concordo totalmente, apesar de não ter nenhuma pretensão a ser um conhecedor com capacidade para julgar o assunto, tal a sua complexidade.
    Por outro lado, mas dentro do tema, gostaria de saber sua opinião, sobre a previsão de nova era glacial dentro de 2000 a 4000 anos.
    Se conseguirmos lidar com o aquecimento global sofreremos de qualquer modo os efeitos de uma nova era glacial?
    Uma coisa agrava a outra? Este é mais grave que aquela, até porque, em tese, teremos mais tempo para nos preparar para a era glacial?
    Gostaria sinceramente de saber sua opinião a respeito, e de antemão peço desculpas se não consegui ser muito claro ao expor meu questionamento.
    Sou leitor de seu blog há muito tempo e aprecio muito seu estilo de escrita, sua clareza e honestidade intelectual nos temas que trata.

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    1. Oi, Bruno! Obrigado! Olha, se bem me lembro, glaciações são eventos complexos, cujas causas vão da composição da atmosfera a variações na órbita da Terra. Não sei se há meios prever como a composição da atmosfera atual pode afetar o clima numa escala de milênios -- muita coisa pode acontecer nesse meio-tempo. Mas minha mais forte impressão é de que, se a humanidade durar até a próxima glaciação, as gerações de então provavelmente estarão equipadas para lidar com isso. A principal preocupação das gerações atuais deve ser o clima dos próximos 100 anos...

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