Genitália no Santo Sudário




Desculpe se o título da postagem soa irreverente ou blasfemo, mas não é culpa minha: o fato é que uma dupla de cientistas italianos acaba de publicar um paper alegando, and I kid you not, que é possível ver o contorno do escroto de Jesus na imagem do Sudário de Turim. Para a edificação de meus leitores, reproduzo a imagem acima, na abertura da postagem.

O artigo descreve as técnicas digitais usadas para "restaurar" e "limpar" a foto do sudário. Os autores estavam, originalmente, procurando melhorar a visibilidade das mãos (queriam encontrar sinais dos polegares, porque aparentemente há algum debate sobre a posição final dos polegares de uma vítima de crucificação, já que os pregos afetariam os nervos), e a descoberta do saco escrotal parece ter sido uma feliz coincidência.

O artigo foi publicado no periódico Journal of Cultural Heritage, que aparentemente não representa um dos esforços mais coruscantes da mega-editora científica Elsevier. Os autores, como fica claro desde as primeiras linhas do texto, estão fortemente investidos na tese da autenticidade da mortalha: abraçam com vontade as várias tergiversações que buscam descartar o resultado definitivo da datação de carbono 14 que plantou o sudário solidamente entre os séculos 13 e 14. Ignoram a ampla evidência documental e estética (a figura do sudário está em estilo gótico!) que também indica a era medieval como ponto de origem. Ignoram a evidência arqueológica de que a imagem do sudário contraria o modo como eram realizados sepultamentos na Judeia no século I EC. E oferecem, ainda, o argumento capcioso de que ninguém jamais foi capaz de reproduzir todas as características do sudário:

"É quase incrível que, a despeito do alto nível da tecnologia disponível hoje, ninguém tenha sido capaz de reproduzir a imagem de um suposto produto de manufatura medieval com as mesmas características químicas e físicas encontradas no Sudário de Turim".

Ao frisar o as mesmas, eles tentam contornar o fato de que diversas reproduções quase exatas -- e que preservam características ditas "milagrosas"do sudário, como a suposta "informação 3D" codificada na silhueta -- foram realizadas por pesquisadores como Walter McCrone, Joe Nickell e Luigi Garlaschelli, que até fez um tutorial em vídeo explicando como produzir um sudário em casa:




A ideia de que ninguém, até hoje, fez uma cópia exatamente exata do sudário é uma falsa questão: reproduzir a Mona Lisa ou mesmo O Grito do Ipiranga com "as mesmas características químicas e físicas encontradas" nas telas originais também é uma quase impossibilidade. Se não fosse, os falsários de obras de arte teriam uma vida muito fácil.

Mas, e quanto ao contorno do saco escrotal do Homem do Sudário? Ele está lá na imagem, certo? Imagino que a maioria dos leitores que chegaram até aqui já sabem a resposta: é uma imagem, tratada digitalmente, de um original antigo, manchado e desbotado. É, virtualmente, um teste subjetivo de interpretação de manchas de tinta (ou, no caso, pixels). Para comparar, veja abaixo a foto original e a imagem tratada "pura", sem as flechinhas brancas que sugerem a interpretação escrotal:



Em minha humilde opinião, o artigo Turin Shroud hands’ region analysis reveals the scrotum and a part of the right thumb deveria ter sido publicado num periódico de psicologia, como exemplo de como as pessoas tendem a interpretar ruído como informação, principalmente como informação que valida seus desejos e preconceitos.

Comentários

  1. Compartilho, completamente, de sua "humilde opinião", porém, muito mais bem ponderada do que a ideia dos autores do artigo.

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  2. Aproveitando que se está falando de Jesus, já que se diz que ele ressuscitou após 3 dias, é bom tomar conhecimento do caso deste iogue que ressuscitou após 8 dias:

    a) http://www.ahjonline.com/article/0002-8703(73)90260-3/pdf (versão resumida)

    b) https://app.box.com/s/zk2cfy4jbvg4zq7bxds1eq5ep0kzlp9f

    Desconheço mágicos que conseguiram reproduzir o fenômeno por meios normais. Há um, Guy Bavli, que supostamente simula o fenômeno em https://www.youtube.com/watch?v=qjTuYsy7NKg, mas é muito mal feito. Monitores de ECG são muito sensíveis ao movimento, razão porque o paciente tem que ficar completamente imóvel durante o exame, caso contrário os artefatos atrapalham completamente o traçado. Chama a atenção também que os batimentos cardíacos observados através dos sinos estão em frequência mais alta do que o do ECG. Em suma o truque é muito simples, um monitor de ECG pré programado para simular a assistolia, duas atrizes como auxiliares de palco e uma encenação de uma parada cardíaca. Algo extremamente diferente do que o iogue (aparentemente) fez.

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