O financiamento público da pseudociência




A ciência brasileira está nas cordas, cambaleando, por causa de cortes drásticos no orçamento do setor -- e isso quem diz não sou eu, deu na Nature. Sintomaticamente, menos de uma semana antes, a Science havia publicado estudo mostrando que o investimento público em pesquisa científica é fundamental para o sucesso da indústria farmacêutica, base de um mercado que, em 2015, gerou receitas globais de mais de US$ 1 trilhão, ou meio Brasil.

Ninguém ignora, ainda, que toda a "economia do conhecimento" em que estamos imersos se apoia em tecnologias desenvolvidas com verbas públicas, seja por meio de dotações a universidades ou de contratos entre governos e empresas que mantêm departamentos robustos de pesquisa e desenvolvimento, além de laços com universidades.

Há quem se escandalize com isso, a privatização dos lucros gerados com conhecimento financiado pelo público, etc., mas o fato é que, pelas regras atuais do jogo global, é o gasto público em ciência que puxa o fio da meada do desenvolvimento tecnológico. E é o desenvolvimento tecnológico que puxa o fio da meada do desenvolvimento econômico.

Dize-se por aí que subdesenvolvimento não acontece por acidente, mas é na verdade um projeto cuidadoso, um esforço de gerações. A insistência secular do Estado brasileiro, esteja ele nas mãos da direita ou da esquerda, em subfinanciar a ciência enquanto irriga gostosamente setores econômicos extrativistas, regressivos e de baixo valor agregado parece confirmar o dito, mas mesmo no desanimador panorama histórico brasileiro, a contração atual é espantosa.

Ainda assim, no entanto, parece sobrar dinheiro para áreas que ou se pretendem científicas, ou tangenciam as ciências. O Ministério da Saúde, por exemplo, ao mesmo tempo em que defende a criação de planos de saúde privados "populares" -- onde a população de baixa renda pagará uma mensalidade para, suponho, ter o privilégio de esperar semanas na fila do hospital privado para tratar a unha encravada --  a fim de desafogar o SUS, gaba-se de incluir, nesse mesmo SUS já sobrecarregado, "terapias alternativas", num cardápio maluco que inclui coisas como o reiki, terapia baseada num princípio cuja falsidade foi provada por uma menina de 11 anos; quiropraxia, modalidade inventada por um charlatão americano no século 19 e que traz graves riscos à saúde do paciente; e outras práticas que, agora, vêm se somar às velhas conhecidas acupuntura e homeopatia.

Seria interessante conhecer qual o critério de inclusão/exclusão adotado pelos burocratas do Ministério. Peso da evidência científica certamente não é -- bastaria consultar a Colaboração Cochrane ou, se tivessem preguiça, um livro como Truque ou Tratamento, para se certificarem disso. Tradição? Mas a quiropraxia mal passou dos 100 anos. Lobby talvez seja a resposta correta.

Em termos de financiamento à pesquisa propriamente dita, para além do fiasco monumental da fosfoetanolamina, que consumiu milhões de reais do mesmo ministério que agora não tem verba nem para o cafezinho, e também uns cobres do governo paulista, há ainda o pagamento rotineiro por pesquisas em áreas que são claramente pseudocientíficas. Ano passado, o CNPq ofereceu minguados vinténs para estudos sobre homeopatia.

Levantamento recente na biblioteca virtual da Fapesp -- órgão do de fomento à pesquisa do governo paulista, que no início do ano teve de engolir um duro corte de facto em sua verba mínima constitucional --  aponta um total de quase 160 projetos em que foram concedidas bolsas ou auxílio à pesquisa envolvendo temas como homeopatia, acupuntura, reiki, mediunidade e espiritismo.

Mesmo considerando que parte desses projetos (principalmente os sobre espiritismo) trata de questões históricas ou antropológicas, e que o número representa uma gota no oceano dos cerca de 200 mil projetos e  bolsas contemplados pela Fundação (a proporção fica em torno de 0,08%), neste momento de demolição do sistema de financiamento público da ciência faz mesmo sentido o povo de São Paulo pagar pela avaliação de um tratamento veterinário homeopático à base de zinco contra o autismo?

Nas últimas décadas, a palavra "pseudociência" viveu um período ruim. Em 1983, o filósofo americano Larry Laudan publicou m artigo muito citado, "The Demise of the Demarcation Problem" ("O Falecimento do Problema da Demarcação"), em que argumenta que a distinção clara entre ciência e pseudociência é impossível, e que as pessoas deviam parar de se preocupar com isso.

De lá para cá, muita gente passou a tratar "pseudociência" como uma espécie de pejorativo vazio, como "bobo" ou "feio". Mas, em tempos recentes, a maré começou a virar: em 2013 foi publicado o livro The Philosophy of Pseudoscience, reunindo artigos em torno da ideia de que o problema da demarcação -- como separar ciência da pseudociência e da não-ciência -- ainda é relevante e, até, crucial. Quando há dinheiro (escasso) em jogo, mais ainda.

Comentários

  1. Mas há boas noticias!!! A Secretaria dos Esportes de Campinas disponibiliza um ambulatório de osteopatia para atletas da cidade! http://www.portalcbncampinas.com.br/2017/03/secretaria-de-esportes-de-campinas-disponibiliza-ambulatorio-de-osteopatia-para-atletas/

    Pior é ouvir os atletas elogiando a iniciativa.

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    1. Melhor seria se informar o que é e quais os resultados da osteopatia, quiropraxia e acupuntura para não propagar pseudo-narrativas.

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    2. Fontes confiáveis sobre acupuntura e quiropraxia estão linkadas no texto. Há pseudo-narrativas em torno dessas práticas, por certo, mas desconfio que não são as que você imagina

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    3. é dificil colocar experiencias que funcionam diferente pra cada pessoa em larga escala pra poder mentir que sempre vai acontecer a mesma coisa. não vai, e muitas pessoas ja foram curadas sim, eu mesmo aprendi certas terapias que hoje me fazem ser outra pessoa, quem faz yoga sabe, é uma ilusão dizer que todas são falaciosas, o pior disso tudo é que estas terapias estão para ajudar a crescer e ser feliz, quem fica tentando destruir isso nem tentou expandir a visão e o entendimento.

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  2. Aumente o cardápio de bobagens com uma pedagoga que oferece o "thetahealing" à população baiana, uma gororoba que diz que tudo é psicossomático e Deus opera milagres quânticos: http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1850922-a-doenca-nao-e-necessariamente-algo-ruim

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  3. Ou seja, para ser considerado, por um grupo de pessoas, ciência, deve portanto estar vinculado a um visão reducionista e mecanizada. Tudo que ultrapassa a barreira imposta por esse determinado grupo, é reduzido a pseudociência, por não estar de acordo com essa lógica reducionista. De qualquer forma, eu vejo a ciência como uma conhecimento universal, ou seja, suas técnicas e métodos devem estar a serviço e a disposição de todos. Se um objeto de pesquisa é julgado antes mesmo dos resultado, como podemos determinar o que deve ou não ser pesquisado? Como dizia Max Plank ciência avança funeral após funeral, quando aquele grupo que não aceita as novas ideias e novos conceitos morre, ai podemos considerar um avanço na ciência. Ainda vivemos em um mundo onde a visão materialista, reducionista é a principal lógica da ciência, mais quem foi que disse que tudo o que deve ser pesquisado tem que seguir essa lógica? E o que dizer dos milhões gastos para manter o uso de pesticidas e produtos químicos nas lavouras, mesmo sabendo dos graves danos ao meio ambiente que essa pratica gera ?

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    1. Aprenda a usar o "mas" e depois volte pra conversar.

      O paradigma materialista-reducionista é uma base importante para não se ficar em simples onanismo dialético que não lida com fatos e evidências.

      Ó, "sábio"! Ilustre-nos com esse seu paradigma alternativo e mostre como ele já funcionou para produzir algo que preste.

      Mas faça o seguinte: quando tiver um câncer, procure o João-de-Deus ao invés de um hospital.

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  4. Ciência envolve testar suas ideias, por melhores que sejam, frente à natureza. Algumas dessas ideias não correspondem aos fatos (homeopatia, acupuntura, quiropraxia, osteopatia, terra plana, fosfoetanolamina para tratar câncer, intelligent design, etc etc) mas seus proponentes/seguidores continuam achando elas boas e mesmo assim continuam adotando-as. Pseudociência consiste em tratar ideias erradas como se elas sim correspondessem aos fatos. Isso não depende de visão materialista ou reducionista, mas somente do fato das suas ideias não correspondem aos fatos.

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    1. fato é que cada pessoa funciona diferente na sua psique e na sua biologia, essas terapias alternativas são muito pessoais, muitos ja se curaram de cacoetes e problemas modernos. pra colocar no papel algo que funciona diferente pra cada é dificil, mas seja cientista de vc mesmo, va a estes lugares curar algo que vc precise (achar que não precisa de nada pode ser um motivo, pq vc esconde alguma enfermidade que ja existe na sua vida) e teste, teste com algumas, em vez de sair falando o que acha. não são todas que são falaciosas, eu mesmo ja fiz e me sinto melhor de verdade, sinto meu corpo e meus sentimentos melhores, estou mais criativo e feliz, e vcs querendo destruir algo de bom.... ai ai

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    2. Um sinal da pseudociência é o apelo a argumentos de teorias de conspiração (os cientistas dizem isso porque estão conspirando e não querem reconhecer a verdade etc.). Outro é assinar anonimamento comentários em blogs. Ainda outro é apelar para experiência pessoal sem levar em conta o efeito placebo. E finalmente usar falácias, tipo se eu financio A que é prejudicial então deveria financiar B que não tem efeito nenhum.

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    3. Será mesmo que tudo o que é feito com técnicas alternativas é placebo? Pra falar a verdade, com estatísticas também é possível se afirmar qualquer coisa. A diferença é ver que a medicina e a vulgo ciência por trás disso, também se enfiou por um caminho de exploração, de prepotência e de tentativa de subjugar a todos em sua lógica perversa, cada vez mais absurda e esquizofrênica, condenando a quem a utiliza a se manter doente, esquecendo qualquer outra causa sem ser sintomas generalizantes... Mas jamais isso será admitido também... E não é conspiração ou nada do tipo. É a lógica em se apoderar de todo e qualquer tratamento para que assim qualquer outro processo jamais seja reconhecido...

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    4. Anônimo, NÃO é fato que cada um funcione diferente em sua psique e corpo. Fosse assim, não conseguiríamos ter o mínimo de ciência biológica ou comportamental. Subjetivismo não leva a lugar algum. É o mesmo que dizer que alguém que acredita em vampiros, lobisomens e fantasmas pode estar certo. Afinal, é a "realidade subjetiva de cada um"... kkkk

      Murici, tem razão, nem tudo. Meditação, por exemplo, tem efeitos comprovados cientificamente sobre estresse e ansiedade. Por outro lado, há evidências gritantes de que a meditação pode provocar males muito profundos em certos casos. Logo, não existe panacéia universal nesse aspecto e merece muito cuidado. É um retrocesso enorme incluir reiki como terapia alternativa. Daqui a pouco o SUS vai oferecer pajelança também? Afinal, temos relatos de que funcionou em alguns casos... Ora, nos poupe!

      Prepotência científica? Não, é simples cuidado mesmo. Ande por aí e veja quantos charlatães e estelionatários existem para ver como é preciso ter precaução. Lógica perversa? Explica melhor essa afirmação estapafúrdia. Lógica perversa quem tem são os enganadores e deslumbrados que existem por aí.

      Esquizofrenia e alienação é ensacar todos os cientistas e a ciência nessa ótica tacanha de que querem se "apoderar de todo e qualquer tratamento para que assim qualquer outro processo jamais seja reconhecido".

      Tem muita gente aberta a outros paradigmas médicos que não a alopatia. Porém, são pessoas honestas que, fazendo pesquisas, percebem que isto ou aquilo NÃO funciona. Vai ficar insistindo no erro pra quê?!?

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  5. O Stephen Kanitz diz que está sobrando dinheiro privado para investir em ciência, desde que tenha aplicações tecnológicas. Veja sua "Carta aos Cientistas Brasileiros":

    http://blog.kanitz.com.br/cientistas-brasileiros/

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  6. Acho engraçado e um tanto quanto "anticientífico" chamarem terapias como acupuntura de pseudociência.

    Será só por não ter uma matemática que agrade aos doutores?

    Se a falta de comprovação de fatos via laboratório incomoda, então incomodem-se também os cientistas ao tentarem explicar efeitos quânticos que não possuem cálculos.

    Eu vejo muitas, muitas mesmo, aos milhares (ou mais), pessoas que tem resultados que nenhum efeito placebo jamais trouxe, utilizando a acupuntura.

    Eu mesmo já tive processos inflamatórios da coluna resolvidos com uma ou duas aplicações de agulhas. Seria isso charlatanismo do meu organismo, querendo me enganar e desinflamando minha coluna?

    Ou teria o efeito placebo a capacidade de acabar com inflamações? Nesse caso, qual seria a matemática desse efeito?

    Acho que um bom "Não me venha com chorumelas" pode deixar um bocado de pessoas bravas comigo né?

    Se não agrada aos senhores doutores uma ciência que não está nos livros, de que forma descobriremos as novas?

    Já querem teorias comprovadas no ato? Lembrem-se que ainda estamos comprovando as teorias do início do século passado. Essa geração de cientistas impacientes está acabando com a verdadeira arte da ciência.

    Pronto. Falei.

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