Os manuais Disney e eu


Minha geração é uma das grandes injustiçadas da história brasileira. Nascidos no início dos anos 70, chegamos tarde demais para sermos rebeldes com causa (quando chegamos à adolescência, a ditadura já estava nos estertores), e cedo demais para nos encaixarmos nos rótulos mercadológicos que depois viraram moda (Geração X,  yuppies, Geração Y, millennials, etc.). Teríamos ficado a ver navios ou, como na imortal canção de Roberto e Erasmo, a sentados na beira do caminho, suponho, não fossem os manuais Disney.

Falando especificamente do meu caso: as duas carreiras que acabei seguindo -- jornalista e escritor -- talvez não me tivessem ocorrido se não fossem o Manual do Peninha e o Manual do Mickey, ambos relançados recentemente.

O Manual do Mickey, especificamente, é um fantástico compêndio de informação sobre literatura policial e de mistério. Foi lá que, pela primeira vez, ouvi falar no Agente Secreto X-9, em Hercule Poirot, Inspetor Maigret e Padre Brown. Não seria exagero dizer que minha incipiente carreira internacional como escritor de mistérios (três contos publicados profissionalmente em inglês até agora, e mais um já pago, aguardando a vez) não existiria sem ele.

O curioso é que, até o relançamento recente do livro, eu nunca havia possuído um exemplar: lia o livro aos poucos, na casa de um primo mais velho que tinha uma coleção completa dos manuais, alguns (como o do Mickey) lançados quando eu ainda era recém-nascido.

Já o Manual do Peninha, sobre jornalismo, se não me fez decidir pela profissão, certamente me deu algumas dicas importantes, ainda que, hoje em dia, obsoletas, sobre marcas de revisão, o papel do copidesque e a informação, que hoje tem sabor agridoce, de que em 1973 o jornal O Estado de São Paulo circulava, aos domingos, com mais de 200 páginas e 12 cadernos.

Peninha apresentou-me ainda ao conceito de paparazzi, ao primeiro trocadilho memorável que encontrei na vida ("Marlon deixou a brandura de lado..."). O livro também traz cápsulas biográficas sobre gente como Pulitzer, Hemingway, G.B. Shaw e Júlio Mesquita. Aliás, outra coisa notável sobre os manuais Disney: eram livros, na acepção precisa da palavra -- cerca de 200 páginas de texto informativo, redigido segundo a norma culta, corpo 12, entremeadas por ilustrações -- e, ora bolas, as crianças liam. Mas vamos deixar o meu Velho Rabugento Interior fora dessa.

Agora vou cair no clichê e dizer que a Abril deu um golpe de mestre ao republicar esses livros. E registro, aqui, a esperança de que a iniciativa vá além da linha Disney e, algum dia, vejamos reedições do Manual do Detetive e do Manual do Espião. Porque nós, meninos e meninas dos anos 70, já fomos injustiçados por tempo demais!

Comentários

  1. Geração X, varia de fonte pra fonte o corte exato, mas abarca os setentenials.
    https://en.m.wikipedia.org/wiki/Generation_X
    ----

    []s,

    Roberto Takata

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