Sarek e Teoria dos Jogos



Gostei dos dois primeiros episódios de Star Trek Discovery. Não que sejam perfeitos (spoilers começam aqui) -- por exemplo, o fato de a nave  Shenzhou não ter uma sonda não-tripulada disponível ainda me soa estranho -- mas, no geral, os episódios são boa ficção científica, dentro dos padrões de um espetáculo de massa, e boa Star Trek.

A ver se o nível se mantém ou melhora nos próximos episódios, claro.

Sei que muita gente vai discordar da última afirmação do primeiro parágrafo, então aqui vou eu defendê-la contra a ideia de que a série é Trek "apenas em forma, não em espírito". Evidências pró: temos  a missão que abre o primeiro episódio, salvar uma espécie alienígena de uma seca; o maravilhamento da protagonista com o fenômeno cósmico que estuda em seguida, seu sobrevoo quase reverente da misteriosa estrutura klingon, que por alguns instantes faz lembrar Arthur C. Clarke; temos linhas e mais linhas de diálogo ("A Frota Estelar nunca atira primeiro", "Somos exploradores, não soldados").

Evidências contra: fãs reclamaram do comportamento da protagonista, uma primeira-oficial que se amotina, dizendo que "isso é impensável na Frota". Bom, eu me lembro de pelo menos três motins protagonizados pelo arquetípico primeiro-oficial Sr. Spock na série clássica (episódios The Menagerie, Amok Time, This Side of Paradise), sem falar das vezes em que ele deu um jeito de contrariar ordens e usou a pinça vulcana para incapacitar colegas da tripulação à sorrafa (The Imunity Syndrome, por exemplo). E lembre-se de que os eventos de Discovery se passam cerca de uma década antes dos da série clássica.

Também reclamou-se do fato de Sarek, o embaixador vulcano, dizer que o modo que seu povo encontrou de lidar com os klingons foi "sempre atirar primeiro". Mas, do modo como Sarek descreve a construção dessa "solução", ela se reduz à mais pura lógica (vulcanos são lógicos, certo?).

É quase um teorema da Teoria dos Jogos: se, em repetidas interações, o parceiro insiste em se comportar de modo traiçoeiro, o melhor modo de preservar-se é, na próxima vez, traí-lo antes. Esta estratégia, chamada "tit-for-tat", foi consagrada num torneio histórico. Ah, mas além de lógicos, vulcanos são inabalavelmente éticos! Bem, logo no primeiro episódio da série clássica, Spock (ele de novo!) sugere friamente que Kirk mate seu amigo Gary Mitchell, pelo bem da nave e da tripulação (Where No Man Has Gone Before).

 Uma crítica que me parece mais pertinente é a de que o modo como esses episódios foram construídos parece fazer com que os valores da Federação -- e de Star Trek -- como otimismo, abertura ao outro, curiosidade à frente da hostilidade, pareçam fraquezas: afinal, se a Shenzhou não tivesse sido tão legal com os klingons, toda a tragédia poderia ter sido evitada.

Mas, primeiro, esse caminho já havia sido tomado lé em Deep Space 9. Segundo, é preciso ver como a série vai se desenvolver a partir daí. É importante notar que, em termos narrativos, valores desafiados não são, necessariamente, valores derrotados: a ética da Federação ainda pode prevalecer até o fim da temporada, e este talvez seja um dos principais arcos narrativos da série.

Estou plenamente satisfeito com esta nova encarnação de Star Trek? Não. Mas essa é uma questão de gosto pessoal, e é uma insatisfação que me acompanha desde que Wesley Crusher subiu a bordo da Enterprise-D e que se agravou a partir de Deep Space 9. Explico.

Durante a série original dos anos 60 -- e, para ser justo, em parte da Next Generation -- a ficção científica, no sentido de especulação científica e extrapolação de ideias, era mais importante que o cenário ou, mesmo, os personagens.

Grandes autores de ficção especulativa, como Norman Spinrad (The Doomsday Machine) ou Robert Bloch (Catspaw), para ficar em dois e meus episódios favoritos, usavam o arcabouço da série para desenvolver suas ideias, e as ideias predominavam sobre o arcabouço:  Kirk, Spock, McCoy, a Enterprise e toda a mitologia da Federação, etc., estavam lá para facilitar e mediar a exposição dos conceitos criados pelos autores. É por isso que Gene Roddenberry conseguia impor sua hoje tão criticada visão da Federação como uma "utopia possível": o conflito entre os personagens podia ser mínimo porque o peso dos personagens era relativamente baixo na equação geral da narrativa.

Nos últimos 50 anos, no entanto, houve uma espécie de inversão de prioridades (não só em Star Trek, mas na ficção em geral -- científica ou qualquer outra): o arcabouço virou proscênio. Personagens e  mitologia passaram a ser mais importantes que as ideias. A especulação virou pretexto para o drama, em vez de o drama servir de apoio para a especulação. Os artesãos de roteiro tomaram o lugar dos escritores.

Enfim, como disse, é uma questão de gosto. Imagino que a maioria das pessoas prefira "um protagonista simpático com quem possamos nos identificar" resolvendo suas angústias íntimas a um herói mais ou menos genérico tentando descobrir se a máquina gigante que está devorando Epsilon Eridani realmente tem uma mente própria, e portanto direitos, ou é apenas um simulador muito bem programado, e portanto pode ser explodido sem problemas. Sinto falta disso. Mas, quem sabe? Se viver o suficiente, talvez veja a moda virar outra vez.

Comentários

  1. A Shenzhou não lançou uma sonda porque eles a perderiam na estática que interferia nas ondas eletromagnéticas do cinturão de asteroides. Tanto é que usaram um telescópio "antigo" para visualizar o objeto não identificado. Acho que estar mais preocupado com o desenvolvimento psicológico (dramático) do personagem, hoje, é, sim, uma tendência evolutiva da FC e das séries em geral. Levantar uma sobrancelha e ficar pensativo não é mais uma opção.

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    1. Um drone poderia ter autonomia suficiente para navegar os asteroides, tirar umas fotos e voltar. Não precisaria ser teleguiado. Mas concordo que as pessoas estão submetendo esses episódios a um nível de escrutínio crítico que, se aplicado à série clássica, por exemplo, não deixaria nenhum episódio intacto... ;)

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  2. Eu gostei também, mas com ressalvas. Basicamente minhas preocupações foram com essa lógica vulcana estranha que fez a Michael tentar um motim e q a série se prenda demais a essa guerra q se iniciou e esqueça a parte da exploração. Estou ansioso pra conhecer a Discovery e seu capitão e ver pra onde vamos!

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    1. Pelo que entendi vendo o teaser no final do episódio, e pelo que li sobre a série depois - essa "guerra" é apenas um arco, e outros virão.

      Eu mal posso esperar o episódio com os Tribbles ^_^

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  3. Acho que esta foi a crítica que mais me identifiquei sobre os dois episódios. Compartilho contigo esta mesma sensação... no geral... gostei muito do que vi... e estou mesmo ansioso pelo restante. rsrsrs

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