Satanistas e pastafarianos, uni-vos!



Já escrevi tanto sobre laicismoe ateísmo militante (por exemplo, nesta postagem do blog, nesta outra e neste artigo para a Folha de S. Paulo [atrás de um payall, sorry]), que a preguiça quase me impede de volar ao assunto. Mas, fazer o quê, né? Repetindo o que escrevi há mais de seis (seis!) anos:

Sei que muita gente torce o nariz para esse ateísmo, digamos, "in your face", exibicionista, loquaz -- estridente, diriam alguns. Amigos cuja opinião respeito queixam-se de que esse "novo ateísmo", ou "ateísmo afirmativo", acaba sendo tão chato, inoportuno, pentelho, etc., quanto o proselitismo religioso. Será que as pessoas não seriam mais felizes se, simplesmente, parássemos de encher o saco uns dos outros com metafísica?
 
Por mais que eu possa simpatizar com a opinião expressa no parágrafo acima, ela deixa de levar em conta dois fatores -- talvez os fatores -- fundamentais: primeiro, a religião é estruturalmente incapaz de respeitar uma trégua do tipo; ela é invasiva, pervasiva e não tem o menor senso de ridículo ou de boas maneiras. Segundo, encher o saco funciona. Pergunte ao pentelho-mór do Novo Testamento, São Paulo.

 
Não se engane: nenhum ateu parte para o ativismo sem prévia provocação. Isso geralmente toma a forma de um momento em que o ateu olha em volta e diz: "Peraí, esses caras estão atrapalhando a minha vida por causa de umas merdas em que eles acreditam".

 
Ao se dar conta de que essas "umas merdas" são passivamente toleradas, quando não abertamente promovidas, pela sociedade que ajuda a sustentar com os impostos que paga, o ateu pode ser perdoado se decidir entrar em campanha para explicar a seus concidadãos que elas são, ora bolas, merdas.


E parece que chegou a hora, outra vez. Não só pela aprovação do ensino religioso confessional em escolas públicas -- não sou jurista, apenas um mero usuário da língua portuguesa, mas quando a Constituição Federal proíbe, em seu Artigo 19, a "subvenção" de igrejas ou cultos religiosos pelo Estado, isso não deveria incluir o uso de recursos públicos (prédios, móveis, água do bebedouro, eventualmente, o salário do professor) para fins de proselitsimo? Ou em juridiquês "subvenção" quer dizer outra coisa? -- como pelo avanço das leis municipais proibindo o "ensino de ideologia de gênero".


Aliás, para quem acha que o neopentecostalismo é a cabeça-de-ponte do retrocesso neste país, é bom lembrar que o pânico moral em torno da "ideologia de gênero" -- uma locução-espantalho para se referir ao conceito altamente subversivo de que homossexuais e transexuais não precisam se sentir culpados por serem como são (há quem ache que pode ser ruim se as crianças ouvirem isso na escola) -- foi lançado por aquele argentinão boa-praça que fica tão bem de vestido branco, o legalérrimo papa Chico, primeiro numa exortação apostólica e, depois, numa série de discursos, incluindo um em que compara a aceitação da homossexualidade à bomba atômica.

Em termos práticos, no entanto, admito que o ateísmo militante chegou a uma espécie de beco sem saída, no que diz respeito a relações públicas. Desde a morte de Christopher Hitchens não temos um porta-voz realmente sofisticado, bem articulado e suficientemente mordaz, e disputas em torno de questões como feminismo, minorias e liberdade de expressão fracionaram bastante o movimento. Mas há alternativas: satanismo e pastafarianismo.

 Nos Estados Unidos, por exemplo, a Igreja de Satã tem sido muito bem-sucedida em explorar as brechas na laicidade do Estado. Em diversas partes do mundo, os pastafáris também têm obtido vitórias. Se o Estado se recusa a cumprir seu papel de neutralidade, e argumentos racionais são desprezados com cínicas circunvoluções retóricas, o que resta é o reductio ad absurdum da pantomima. Alguém quer assinar um projeto de lei contra a "ideologia de Chico" nas escolas?


Comentários

  1. Eu topo entrar com uma ação para obrigar as escolas a terem aula de pastafarianismo, de budismo tântrico (onde o sexo e a intoxicação não são pecado – pecado é não curtir a vida, de preferência sem a moralidade provinciana medíocre que costuma existir), de satanismo, de magia cerimonial, etc e tal... Qualquer coisa que não seja religião monoteísta, especialmente a cristã. Só pra virar o feitiço contra os feiticeiros.

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  2. Dizer que alguém acredita em "merda" por causa de gente como o Silas Malafaia, Marco Feliciano e demais figuras é um sinal de inteligência? Ou seria indício de fé no Hawkins? Ou seria por causa das cruzadas medievais, motivadas pelo "cristianismo"?

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  3. Será que vosso lúcifer tem poder para se encarnar e ressuscitar ao terceiro dia, acredito que que não.

    www.salesianos.com.br/santo-sudario-foi-impresso-por-uma-explosao-energia-considera-fisico-2/

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