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Eu, o crítico

Só uma nota rápida para avisar os leitores do blog de que dois ensaios meus que poderiam ser considerados de "crítica literária" estão disponíveis, alhures, na internet. O mais antigo é A obra de Lovecraft como paródia do cristianismo , onde apresento a tese (que não é minha, mas com a qual concordo) de que muito do "terror cósmico" de HP Lovecraft na verdade surge de um olhar irônico lançado sobre os mitos da escatologia cristã: afinal, a promessa do Grande Cthulhu, de retornar num futuro distante e recompensar seus adoradores, não é a mesma posta na boca de Jesus pelos evangelistas? Sobre esse texto, é interessante notar que a sugestão foi levada a sério pelo poeta americano Richard L. Tierney, que no romance Drums of Chaos   reinterpreta os eventos dos Evangelhos à luz da mitologia lovecraftiana. Tierney é o criador da série de contos de fantasia protagonizada por Simon Magus , na qual o obscuro personagem dos Atos dos Apóstolos (mas em torno do qual existe u...

E chegamos a 100.000!

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Uma das consequências de termos dez dedos é o sistema decimal, e uma das consequências do sistema decimal é o fascínio quase supersticioso que cerca os números "redondos" -- aqueles terminados em zero. Cedendo, então, a esse fascínio, solto esta breve postagem para mencionar que o blog, com menos de um ano de vida, chegou, nesta terça-feira, 17, a 100.000 visualizações. Sendo um completo ignorante nas minúcias do bloguismo, não sei dizer se isso é muito, é pouco ou, mesmo, se é significativo. Suponho que seja um desempenho médio (afinal, a maioria está, por definição, perto da média) mas, ora bolas, são os meus 100.000, então vamos celebrar um pouco. Neste tempo de existência, o blog foi se desviando lentamente dos temas puramente científicos e migrando para questões de cunho mais filosófico ou às vezes até político -- pelo que me sinto um pouco culpado, a bem da verdade. A divulgação científica "pura" será sempre parte importante do meu mix, mas creio que outra...

Vida multicelular a jato: evolução em ação

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Artigo publicado online pela PNAS mostra que grãos de uma levedura unicelular,  Saccharomyces cerevisiae, bem conhecida por animar as noites de sábado dos não-abstêmios, são capazes de formar estruturas muito parecidas com organismos multicelulares em menos de dois meses. Agora, note que o parágrafo acima fala em "organismos multicelulares", e não em meras "colônias de células". Entre as características anotadas pelos autores do experimento, há a divisão de trabalho entre as células, elas são geneticamente idênticas e os aglomerados se comportam como organismos dotados de identidade individual, gerando até mesmo filhotes: células na superfície dos aglomerados morriam depois de um tempo, o que fazia com que novas células não tivessem como aderir à estrutura original e forçava-as a começar seus próprios aglomerados independentes. O segredo do experimento foi submeter as células de levedura uma "seleção natural" (no caso, artificial) por gravidade: como ...

Casamento gay e a ameaça ao futuro da humanidade

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O papa Bento XVI decidiu declarar que a união homossexual representa uma ameaça ao futuro da humanidade . Ele não estava, aparentemente, se referindo ao fato de que uniões entre pessoas do mesmo sexo são, em princípio, estéreis (ao menos por enquanto; mas a tecnologia não para de nos surpreender, e ao menos para as lésbicas já há alguma esperança ), mas a uma eventual  malaise social. Como escreve a Reuters : Segundo Bento 16, a educação das crianças precisa de "ambientes" adequados, e "o lugar de honra cabe à família, baseada no casamento de um homem com uma mulher" O sentido geral parece ser, portanto, o de que um par homossexual seria, de algum modo e em essência, deficiente na tarefa de criar uma criança. Pondo de lado minha forte suspeita de que esse ideal de família, com papai e mamãe cooperando ativamente para educar os pimpolhos, cada um dos genitores bem encaixado em seu papel bem-definido, provavelmente foi mais exceção que regra ao longo da histó...

Arquimedes e o mau-olhado

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Reza a lenda que, lá pelo século 3 AEC., Hierão II, rei de Siracusa, na Sicília, ficou em dúvida sobre o real conteúdo de ouro de uma coroa que havia recebido de um artesão. Temendo ter sido trapaceado, ele pediu ao sábio Arquimedes que determinasse quanto ouro realmente havia na peça -- sem destruí-la no processo. Em busca de uma solução para o problema, o grande matemático acabou descobrindo o princípio da impulsão: um corpo imerso num líquido recebe um empuxo -- uma força de baixo para cima -- igual ao peso do líquido deslocado. A dependência do empuxo em relação ao peso do líquido explica porque navios de aço flutuam, mesmo pesando várias toneladas, enquanto pregos de poucos gramas afundam: o grande volume da embarcação garante que ela desloque uma quantidade de líquido capaz de equilibrar sua enorme massa. Aplicado ao problema da coroa, o princípio da impulsão oferece um meio de determinar a densidade dos materiais, isto é, quanto de massa existe um cada unidade de volume. ...

Asimov e Tolkien, uma apreciação

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Este mês de janeiro marca os 92 anos do nascimento de Isaac Asimov e os 120 de J.R.R. Tolkien (e os 41 de um certo escrivinhador brasileiro, obscuro demais para ser mencionado). O que pouca gente sabe é que, mesmo separados por um oceano e duas gerações, os dois autores travaram uma "disputa" histórica em 1966, quando foi concedido um Prêmio Hugo -- o mais importante prêmio mundial dado, por meio de voto popular, a obras de fantasia e/ou ficção científica -- de "melhor série de todos os tempos". Entre os finalistas,  Fundação , de Asimov, e O Senhor dos Anéis , de Tolkien. Para não fazer suspense: Fundação ganhou.  Seu queixo caiu? Pois é, o meu também, quando ouvi esse factoide histórico pela primeira vez. Mas é verdade. E não adianta botar a culpa nos nerds malditos de 1966, incapazes de distinguir os méritos literários de um manual de engenharia dos das obras de Shakespeare. Naquele mesmo ano, a new wave da ficção científica -- um movimento dedicado a, exa...

E chegando em fevereiro...

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Já comentei aqui minha atividade como co-organizador da antologia Sherlock Holmes - Aventuras Secretas , mas acho que não tinha avisado, ainda, que o evento já tem data marcada: 4 de fevereiro, na Martins Fontes da Avenida Paulista! A capa do livro é esta aqui: O time de autores, todos brasileiros (alguns valorosos nomes de fora se apresentaram também, mas infelizmente tarde demais para tomar parte na seleção) ganhou uma caricatura em estilo vitoriano, que reproduzo abaixo: Acho que fiquei meio gordo, mas fazer o quê? Assim é a vida...