Calote digital e a natureza humana

Não sei quantas pessoas, aqui no Brasil, já ouviram falar num website chamado prosper.com, onde pessoas (na verdade, apenas residentes de cerca de 25 Estados norte-americanos) podem fechar negócios de empréstimo de dinheiro entre si, sem precisar recorrer a bancos ou financeiras.

Funciona assim: um usuário - que faz login na categoria "quero tomar emprestado" - cadastra suas necessidades monetárias, que vão parar numa lista;  outro - que faz login na categoria "quero emprestar" - tem acesso à lista, decide quem parece mais merecedor de empréstimo. Uma taxa de juros é calculada pelo sistema, o tomador recebe o dinheiro e então faz pagamentos mensais ao emprestador.

Pondo de lado o aspecto econômico do sistema e seus possíveis impactos no mercado financeiro tradicional (é curioso imaginar o que algo do tipo faria com os juros praticados, por exemplo, no Brasil), as interações no prosper.com chamaram a atenção por outro motivo: trata-se, afinal, de uma espécie de rede social. Se as pessoas mentem a criam perfis falsos no Facebook ou no Orkut para ganhar status ou arrumar namorada, o que não faziam por dinheiro? E os emprestadores, deixam-se engabelar?

O resultado desse tipo de questionamento aparece em dois atigos científicos, How Accounts Shape Lending Decisions Through Fostering Perceived Trustworthiness e Tell Me a Good Story and I May Lend You My Money: The Role of Narratives in Peer-to-Peer Lending Decisions.

Como o título do segundo trabalho deixa claro, uma boa conversa fiada ajuda bastante a conseguir um empréstimo.

Esse estudo analisou cinco tipos de perfil que os tomadores constroem para si mesmos dentro da redede empréstimos - e que os pesquisadores chamaram de "confiável", "bem-sucedido", "passando por dificuldades", "trabalhador", "ético" e "religioso" - e concluiu que ter um perfil "confiável" é o que atrai melhores resultados. Já os "religiosos" eram, curiosamente, os que tinham mais dificuldade em conseguir doadores.

Detalhe: tomadores com baixo perfil de crédito tendem a criar mais de uma identidade, e a dar características diferentes a cada uma. Citando o press-release que divulga os estudos:

Quanto mais identidades os tomadores construíam, mais chance os emprestadores tinham de financiar os empréstimos e reduzir as taxas de juros, mas menor era a probabilidade de os tomadores pagarem o empréstimo: 29% dos tomadores com quatro ou mais identidades deram o calote, contra 24% dos com duas e 12% dos sem nenhuma.

(No prosper.com, a criação de um texto com informações pessoais, incluindo um perfil de personalidade, é opcional.)

No geral, as pessoas sem perfil pessoal são as que têm mais dificuldade em obter empréstimos, mas as que melhor pagam.

Já o primeiro dos dois estudos mostra que os tomadores que se dão ao trabalho de explicar seus problemas financeiros - e o motivo que os levou a ter crédito negado no sistema financeiro formal - têm mais chance de conseguir o empréstimo, mesmo, como dizem os autores, sem que haja qualquer garantia de que as histórias contadas são verdadeiras.

Esses trabalhos sobre o prosper.com reforçam a teoria de que o ser humano é um tarado por narrativas - que nos deixamos convencer mais facilmente por uma boa história do que por números, dados e argumentos.

Como Aristóteles havia escrtito em sua Arte Retórica, exemplos convencem as massas, argumentos, os sábios. Estudos como os sobre o porosper.com sugerem que o velho filósofo talvez fosse um otimista...

Comentários

  1. Adorei, realmente a ideia se todos fossem confiaveis seria uma coisa maravilhosa, mas nem todos são confiaveis e pode acabar se tornando uma dor de cabeça para quem empresta, ideia otima sem chances de dar certo...rs

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  2. podiam criar um perfil: "sou ateu, não acredito em prestação de contas após a morte e acredito que faço parte de uma espécie que veio a existir exterminando espécies concorrentes"

    será que daria mais credibilidade?

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