Certo e errado na língua portuguesa

Parece que a elite jornalística brasileira descobriu, na semana passada, que os professores de língua portuguesa não se referem mais a formas "certas" ou "erradas" de emprego do idioma, e sim a formas "adequadas" e "inadequadas".

O que é engraçado, porque eu me lembro de que, em minhas primeiras aulas de gramática de ensino médio, lá se vão 25 anos, as coisas já eram assim.

 Lembro-me até de como o professor introduziu o assunto, exemplificando que, embora uma forma como "É nóis aí, bróder", possa ser útil na pelada de fim de semana, chamar o pai da namorada de "mermão" poderia prejudicar as chances de sucesso do romance.

Enfim, se a coisa é ensinada dessa forma há 25 anos (pelo menos), por que o escândalo agora? Os jornalistas em atividade hoje não fizeram ensino médio? Fizeram e esqueceram? Faltaram nessa aula? Se deixaram os bancos escolares em eras ainda mais remotas, nunca prestaram atenção nas lições que seus filhos, netos, bisnetos, traziam para casa?

O que talvez tenha causado espécie, ao menos pelo que se vê nos exemplos destacados pela mídia, é a brutal relativização a que a chamada norma culta da língua é submetida no livro que serviu de estopim ao escândalo, o tal Por uma vida melhor. Fica a impressão de que a norma culta é fruto de uma espécie de conspiração das "zelite" para submeter o povão a "preconceito linguístico".

Essa visão, tacanha e populista, deixa de dar à norma culta, construída pelo esforço de estudiosos, dicionaristas, gramáticos, escritores e, sim, falantes "comuns", o devido valor. O respeito às normas estritas de concordância de gênero e número dá à língua uma expressividade e um poder de sutileza que ela não teria de outra forma.

Uma das frases destacadas do livro criticado é:"Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". O plural parcial seria, argumenta-se, suficiente. Mas esse uso impediria a construção de uma sentença mais rica, como "Os livros ilustrados mais interessantes e o mapa estão emprestados, mas ele será devolvido amanhã". O português oferece recursos fantásticos, como o sujeito oculto e a elipse, que dependem, crucialmente, do cuidado com as concordâncias, principalmente a concordância verbal.

Resumindo, achar que a norma culta só está aí para que as pessoas que não votam no PT e que se dão ao trabalho de conhecer a língua portuguesa com algum grau de intimidade possam chamar o Lula de preguiçoso apedeuta é um erro (essa possibilidade é apenas um bônus extra). A norma culta está aí porque, primeiro, é preciso haver uma "língua franca" que permita a comunicação entre as diferentes tribos; segundo, porque ela permite articular um grau de precisão e expressividade que as demais normas -- tribais, profissionais, étnicas, etc. -- não atingem, ou atingem apenas em campos muito específicos.

Numa reação, compreensível, ao sufocante beletrismo engendrado pelo período parnasiano, o modernismo brasileiro entronizou o coloquialismo como uma espécie de valor absoluto. Isso foi um erro. A linguagem coloquial certamente tem seu lugar; é, no mínimo, ridículo imaginar mesóclises, digamos, numa briga de bêbados. Mas uma coisa é reconhecer que o coloquial tem seu espaço e seu lugar. Outra é tratá-lo como valor absoluto.

Falando de minha experiência pessoal como escritor, digo que às vezes me sinto numa camisa de força ao notar que pronomes oblíquos e tempos verbais como o mais-que-perfeito soam "estranhos" em determinados contextos. Trata-se de um empobrecimento líquido da língua: uma perda de poder de precisão, da capacidade de reduzir ambiguidades no texto.

Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada no almoço: na fila do quilão, ouvi uma mulher comentando com a amiga, "esta salada parece boa, você vai comer ela?". Só que a mulher não pronunciou o "r" do "comer", e a sentença soou "... vai comê ela?" Daí para a forma correta (ou "adequada de acordo com a norma culta") "comê-la", é só um pulinho.

O que me faz imaginar que, se algum dia os populistas linguísticos tiverem sucesso em abolir os pronomes oblíquos, o povo tratará de reinventá-los. Eles não são frutos de uma conspiração das zelite: a língua simplesmente funciona melhor assim.

Comentários

  1. Adorei o comentário, Orsi, mas há de se levar em consideração que o exemplo apontado no livro didático em questão refere-se a uma situação de fala, não de escrita.

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  2. O livro não ensina a falar ou a escrever errado. Ele valoriza a linguagem coloquial e mostra a variante da norma culta - esta, sim, é a ensinada. É de se ressaltar que o livro é para programa de Educação de Jovens e Adultos.

    Tentarei obter um exemplar para uma análise mais minuciosa.

    []s,

    Roberto Takata

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  3. Microempresário16 de maio de 2011 14:48

    Para aprender a falar coloquialmente, não é preciso ir à escola. A escola existe justamente para expandir o conhecimento, tando do idioma quanto de outros campos.

    Meu contato cotidiano com os mais jovens tem me convencido de que na escola moderna o português "coloquial" e errado não é apenas justificado ou tolerado: é o único. Tenho visto, ouvido e lido jovens com curso superior que estão pouco acima do chamado "analfabetismo cultural". São pessoas que tem grande dificuldade em usar a língua para expressar uma idéia, e quando conseguem, é de uma forma feia e pobre, que não dá vontade de ler. Fico imaginando se uma pessoa dessas, em sua vida profissional, precisar ler um livro mais antigo, um manual técnico, ou mesmo publicações antigas. Não vai conseguir, por falta de vocabulário e de conhecimento de certas construções gramaticais "obsoletas", como a primeira pessoal do plural, o pronome obliquo, etc

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  4. Aqui tem o primeiro capítulo do infame livro: http://www.advivo.com.br/sites/default/files/documentos/v6cap1.pdf
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    Toda 'polêmica' por nada.

    []s,

    Roberto Takata

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