A ciência da revolta, versão minimalista

Por que as pessoas se rebelam? E por que se rebelam em certos momentos, e não em outros? Exceto em circunstâncias muito específicas, levantar-se contra o poder estabelecido parece ser, ao menos numa análise desapaixonada, uma péssima ideia: os rebeldes não só arriscam suas vidas e as de suas famílias, como ainda correm o risco de, em caso de sucesso, ver a ordem que se esforçaram para derrubar substituída por outra ainda pior.

A despeito de todos os riscos e contraindicações, no entanto, revoltas e revoluções continuam a acontecer, ou deixar de acontecer, de uma forma que desafia as previsões dos teóricos (como os acadêmicos marxistas que construíram carreiras inteiras tentando explicar a embaraçosa ausência de la revolución bem sabem).

Numa tentativa de compreender melhor o fenômeno, pesquisadores da Universidade de Washington, nos EUA, decidiram adotar uma abordagem minimalista e estudar detalhadamente os fatores envolvidos nos motins a bordo de navios da Marinha Britânica entre 1740 e 1820, período que inclui o famoso motim do HMS Bounty.

Os estudiosos encontraram cerca de 70 motins no período. De acordo com o sociólogo Steven Pfaff, a maioria dos motins não era causada por um espírito generalizado de revolta, sede de liberdade ou idealismo, mas por reivindicações específicas -- e em momentos em que os marinheiros viam uma possibilidade concreta de ter essas reivindicações atendidas.

Em alguns casos, os motins lembravam greves, como no episódio do Camilla, de 1783, cuja tripulação se recusou a trabalhar por considerar que o número de homens a bordo seria insuficiente para controlar o navio em caso de tempestade.

De acordo com Pfaff, muitos motins ocorriam quando os marinheiros se sentiam trapaceados. Revoltas iniciadas por motivos aparentemente fúteis -- excesso de água no rum ou roupas puídas, por exemplo -- são mais fáceis de entender quando se considera que a bebida e a vestimenta eram considerados parte do pagamento dos marujos. O material de má qualidade equivalia a um corte de salário.

Os marinheiros também esperavam que suas tradições fossem respeitadas: uma rebelião a bordo do Minerva, em 1793, ocorreu, entre outros motivos, porque o capitão havia proibido os marujos de praguejar.

De acordo com Pfaff, os marinheiros em geral mostravam-se dispostos a aceitar muita coisa, desde que os oficiais passassem uma imagem de justiça, competência e de alguma preocupação com o bem-estar dos homens.

Além disso, mais de 60% dos motins estudados foram mais parecidos com greves ou manifestações do que eventos dramáticos envolvendo a morte dos oficiais ou a transformação do navio numa nau pirata.

O estudo ainda está em andamento, e incluirá uma análise dos fatores que levaram alguns marujos a assumir o risco de se tornar líderes de motins, além de uma comparação entre navios amotinados e um grupo de controle de não amotinados.

Comentários

  1. Bacana essa pesquisa!!!

    Análise do comportamento através de textos e documentos antigos.

    A Análise do comportamento tem uma teoria descritiva do fenômeno da revolta, do qual chamamos Contracontrole.

    http://www.cemp.com.br/artigos.asp?id=36

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