HP Lovecraft e eu, uma longa história

Quem acompanha a minha soi-disant "carreira" há mais tempo sabe que meus primeiros trabalhos como ficcionista foram fortemente influenciados pela obra do americano Howard Philips (H.P.) Lovecraft. Um dos grandes nomes da era pulp, Lovcraft criou uma fusão de ficção científica, terror e fantasia que se encaixava muito bem no que eu queria fazer lá pelos idos de 1990, e portanto bebi a fundo em sua fonte.

A obra disponível no Brasil era pequena -- encontravam-se, com alguma facilidade, apenas quatro volumes: três, se não me engano, da Francisco Alves e um da L&PM. Meu primeiro livro de contos, Medo, Mistério e Morte, contém algumas tentativas incipientes de criar um "Arkham Country" (como é chamado o trecho fictício, e mal assombrado, da Nova Inglaterra onde se passam muitas das crônicas lovecraftianas) brasileiro.

Meus primeiros contatos literários com o exterior vêm dessa época, com as primeiras traduções de contos meus para o inglês (quem quiser se arriscar encontra exemplos aqui, aquiaqui).

Quando, num dos poucos atos memoráveis de seu governo, Fernando Collor autorizou o uso de cartões de crédito em despesas internacionais, comecei a importar livros da Chaosium via catálogo e, na era do populismo cambial do governo FHC, consegui trazer a obra completa nos cinco épicos volumes da Arkham House -- os três de ficção solo e os dois outros de "colaborações" (em sua maioria, contos escritos por HPL mas assinados por terceiros, como Harry Houdini).

Com o passar do tempo, meus interesses diversificaram-se e acabei me afastando do velho mestre, mas nos últimos dois anos dois fatos acabaram me levando a uma reaproximação com, e reavaliação de, HPL.

O primeiro foi a, digamos, nova exegese da obra de Lovecraft feita pelo crítico S.T. Joshi. Ele argumenta que os Mitos de Cthulhu são melhor interpretados na chave da paródia, e que o parodiado neles é o sobrenaturalismo -- a religião, as superstições, a metafísica em geral. Escrevi um artigo sobre isso.

(Joshi, biógrafo de Lovecraft, chegou a incluir o autor em seu livro sobre grandes ateus da história, The Unbelievers: The Evolution of Modern Atheism e a organizar uma coletânea dos escritos ateístas do autor, Against Religion: The Atheist Writings of H.P. Lovecraft.)

O segundo foi o convite para participar da preparação de um livro de luxo com algumas obras selecionadas do autor, incluindo as primeiras versões, no Brasil, de seus poemas. A iniciativa, de Denilson Ricci, que mantém o impávido Site Lovecraft, pretende publicar o volume em breve, que será uma edição especial só para assinantes.

As traduções e ilustrações foram feitas por voluntários, e meu principal trabalho foi verter para o português os 36 sonetos reunidos no ciclo Os Fungos de Yuggoth. Isso ocupou boa parte de meu tempo livre no segundo semestre do ano passado (quando eu ainda trabalhava no Estadão), e causou um certo espanto em minha mulher ("Como assim, 36 poesias sobre um fungo?").

Na verdade, os poemas do ciclo são, cada um deles, pequenas peças narrativas em verso -- que às vezes parecem encadear-se, com um soneto dando continuidade ao anterior, e às vezes são autocontidas. O ciclo como um todo pode ser visto como a sequência de experiências que um narrador comum vive depois dos eventos do soneto número I, mas essa é apenas uma interpretação possível.

Um dos meus favoritos é este aqui (já em minha versão de pé quebrado):


XXI. Nyarlathotep

E finalmente da terra do Egito veio o Obscuro
Forasteiro diante de quem se curvam as gentes;
Silente e delgado e cheio de críptico orgulho,
Envolto em tecido rubro com o fogo de inúmeros poentes.
Multidões aguardam fanaticamente pelo sermão,
Mas ao partir não sabem dizer o que tinham escutado;
Enquanto pelas nações espalha-se, e com espanto é narrado,
Que feras selvagens o acompanham e lambem suas mãos.

Logo, no mar tem início um tóxico renascer;
Terras esquecidas com torres douradas, de algas cobertas;
O chão se parte, e loucas auroras se veem libertas
Sobre as humanas cidades, que não param de tremer.
Então, esmigalhando o que havia moldado ao brincar,
Com um sopro o Caos idiota fez o que restava da Terra voar.

Comentários

  1. "O Planeta Vermelho", grande conto. Li na revista Só Aventuras há muito tempo, e lembro até hoje do sofrimento daqueles três infelizes nos subterrâneos de Marte. Foi a primeira obra que li a respeito do Cthulhu Mythos. Parabéns pelo sua obra! Vou ver se eu leio agora o "Pura Picaretagem".

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência