Mágica!


Sábado passado, como parte da celebração do aniversário da Mais Bela e Paciente de Todas as Esposas, fui ao show do ilusionista Franklin Albuquerque, no Teatro Juca Chaves, em São Paulo.

Albuquerque constrói suas rotinas em torno do mentalismo -- truques em que o artista parece adivinhar ou antecipar pensamentos da plateia.

 Ele também faz objetos se moverem "com o poder da mente" e realiza truques de psicometria, quando o mágico finge captar "vibrações" de objetos para obter informações relevantes. O ponto alto do espetáculo, a meu ver, foi um desses números "psicométricos", uma variação dramática do velho "three card monte", em que é preciso adivinhar sob qual copo está uma ervilha.

Não se trata, no entanto, de um espetáculo de mentalismo puro. Não há nenhum número de leitura a frio, nem de leitura muscular: por exemplo, a rotina clássica em que o mágico sai do palco enquanto um comitê de membros da plateia esconde o dinheiro da bilheteria e, depois, encontra a renda do show apenas observando a linguagem corporal da audiência não está no repertório.

Confesso que sou um fã ávido de mágica. Como leitor assíduo dos livros de Jim Steinmeyer, consegui ter uma boa ideia de como parte razoável dos truques foi executada (um engano comum é imaginar que a cada efeito produzido pelo mágico no palco corresponde um, e somente um, truque: há várias rotas possíveis para produzir o mesmo efeito, e portanto toda "explicação" de uma mágica é sempre tentativa).

Mas isso não depõe, de modo algum, contra o espetáculo: Abuquerque é um artista talentoso e competente, e a hora e meia -- mais ou menos -- que passei em seu show foi extremamente agradável. Minha única crítica seria à linha de "patter" -- a "conversa fiada" que todo mágico usa para distrair a plateia e pôr a audiência no clima para os truques que virão -- adotada por ele: o mágico se apresenta como um misto de estudioso de parapsicologia e médium espírita.

Embora a persona de palco de Albuquerque misture doses suficientes de cinismo e pura canastrice para deixar bem claro que o espetáculo é uma obra de ficção que não deve ser levada lá muito a sério, imagino se um espírita sincero presente à plateia não poderia se ofender (ou, pior ainda, levar o show mais a sério do que o que seria saudável).

Ao final do show, tive a feliz surpresa de ser chamado ao palco para auxiliar o mágico em seu truque derradeiro, quando ele revela que uma série de informações que a plateia lhe havia dado ao longo da apresentação -- números, letras, formas geométricas -- havia, de fato, sido prevista por ele horas antes e anotada num rolo de papel, que estivera lacrado numa caixa à vista de todos, posicionada no palco antes do espetáculo começar. A foto acima sou eu segurando uma das pontas do rolo profético.

Trata-se de um truque clássico e extremamente eficaz: o grande mágico americano Milbourne Christopher certa vez fez algo parecido, prevendo o resultado da loteria nacional de Cuba, sendo que o papel com a previsão foi mantido sob guarda das tropas oficiais cubanas.

Há histórias de que o ditador Fulgêncio Batista ficou tão impressionado com o sucesso do truque, quando se revelou que o papel lacrado continha exatamente a sequência sorteada, que chegou a oferecer a Christopher uma vaga em seu gabinete. Que o mágico, mostrando mais uma vez seu poder de prever o futuro, recusou.

Eu acho que sei como Albuquerque fez aquilo. Se estou certo, tratou-se de um truque cuidadosamente construído ao longo de todo o espetáculo. Mas não vou partilhar minhas suspeitas com vocês.




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