Ferraz, Ferraz


Entre novembro e dezembro de 2009, fui, por mais de 20 dias, hóspede da Estação Antártica Comandante Ferraz, mantida pela Marinha do Brasil na Ilha Rei George, na vizinhança da Península Antártica. Essa é a mesma base que foi destruída -- ou, ao menos, seriamente danificada -- por um incêndio, ocorrido neste fim de semana. Dois militares da Marinha morreram, um ficou ferido, mas cerca de 60 pessoas, entre militares e cientistas, escaparam ilesas. É o que informa o noticiário.

A sensação de ver as imagens, feitas pela Marinha chilena, de Ferraz (como a estação é chamada informalmente) em chamas é, para mim, mais ou menos como a de ver a casa de um velho amigo pegando fogo. Morei lá, ajudei na faxina, na cozinha, limpei o banheiro masculino.

A manutenção de Ferraz sempre foi uma ação comunitária: uma vez sob o teto da estação, todos tornam-se corresponsáveis. Por conta disso, para muitos cientistas brasileiros, veteranos de inúmeras temporadas na Antártida, a perda da estação deve parecer a perda de um segundo lar. A eles, estendo minha sincera -- ainda que, efetivamente, inútil -- solidariedade.

Quando estive lá, havia um grupo de arquitetas da Universidade Federal do Espírito Santo analisando as instalações de Ferraz. A líder do grupo, Cristina Engel, era uma velha conhecedora da estação. É provável que ela venha a ser chamada para a reconstrução da base.

Seria interessante ouvi-la, agora, sobre a conformação de Ferraz. Após o incêndio ouvi, por exemplo, críticas ao fato de Ferraz ser formada por um único módulo, o que teria aumentado o potencial destruidor do fogo. Mas, por outro lado, a forma "monobloco" permite que os moradores se refugiem todos num só lugar e cuidem das necessidades da sobrevivência todos juntos e em segurança no caso de uma forte tempestade, por exemplo, sem que ninguém precise se aventurar na neve, como seria o caso se partes vitais, como os geradores, ficassem num módulo à parte.

A causa do incêndio em Ferraz ainda está a ser determinada, mas lembrando-me de minha experiência pessoal "a bordo" da estação, e ainda mais tendo em vista as duas vidas perdidas, não consigo deixar de sentir algo que deve ser muito parecido com que muitos americanos provavelmente sentem quando veem suas tropas em combate no exterior: um profundo respeito pelos homens e mulheres em campo, misturado a uma forte desconfiança em relação aos políticos e aos generais que os mandaram para lá, e que deveriam zelar para que estivessem devidamente preparados e equipados.

Não que o programa antártico seja uma "guerra inútil", como se diz de muitas das incursões americanas pelo globo. Longe disso. Para ficar apenas no lado prático, muito da meteorologia e da ecologia do Brasil depende, para ser corretamente compreendido, de informações que têm de ser colhidas na Antártida. Ampliando um pouco o foco, na Antártida pode estar a chave para mistérios tão profundos quanto a origem da vida na Terra. Trata-se de uma viagem que o Brasil não pode se dar ao luxo de perder.

Mas, em contrapartida, trata-se de uma viagem que exige muito para produzir resultados. Em Ferraz, militares, funcionários do arsenal da Marinha e cientistas faziam muito com muito pouco: no período que estive lá, passamos por um racionamento de água, por conta do congelamento do lago usado como fonte pela estação; a hipótese de os cientistas terem de ir cortar blocos de gelo a golpes de picareta para evitar uma escassez catastrófica chegou a ser aventada, informalmente, mas acabou não se concretizando. No mar, os navios Ary Rongel e Almirante Maximiano (do qual nada se falou na presente crise, aliás) dão apoio às pesquisas científicas ao mesmo tempo em que driblam grandes dificuldades.

Fazer muito com muito pouco é uma tradição brasileira. Mas às vezes o muito pouco é, pura e simplesmente, insuficiente.


Comentários

  1. Não daria pra fazer blocos separados, mas conectados por corredores?

    []s,

    Roberto Takata

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    Respostas
    1. Talvez fosse mesmo uma solução...

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    2. Um dos problemas da estrutura conectada por corredores é a perda de calor. Corredores longos conectando blocos separados ocasionaria um aumento no gasto energético da estação. Vale lembrar que a estação era composta por contêineres separados, numa estrutura modular, até a reestruturação de 2007, quando foi implementada a estrutura de corpo único.

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  2. Olá Carlos!
    Como um dos moradores eventuais de Ferraz, me faço porta-voz e agradeço tuas palavras.
    Ferraz é uma segunda casa, e vê-la em chamas doeu meu coração. Mais ainda saber que duas vidas foram perdidas.Santinho e o Carlos Alberto deram suas vidas tentando salvar a EACF justamente por esse amor e senso de dever que aquele cantinho especial nos desperta.

    Ferraz foi crescendo aos poucos, partes se juntando. Talvez esse tenha parte na culpa da grande destruição que o incêndio causou. Com relação à reconstrução, muito terá que ser discutido e muitos ouvidos.

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  3. Quando vi a foto das chamas lembrei-me logo da pequena biblioteca que, pelo que me contaram, era mantida e reciclada pelos "hóspedes" e visitantes...

    Agora, tudo terá de ser reconstruído! Em blocos separados, talvez. Mas como lutar contra o frio em graus negativos durante todo o inverno escuro antártico? Só quem conhece a realidade de lá poderá avaliar e fazer propostas condizentes.

    Carlos, obrigada por seu texto!
    abs
    Josefina

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  4. Carlos e a todos, bom dia!
    Tenho meus limites para as teorias conspirato'rias, embora eu ame acreditar que todas sao possi'veis.
    Mas achei interessante esse link que mostra uma super bacte'ria descoberta pela Estacao Anta'rtica Comandante Ferraz.

    http://seeker401.wordpress.com/2012/02/28/fire-at-brazils-antarctica-base-kills-two-deadly-bacteria-that-resist-antibiotics-found-in-antarctica-seawater-2-weeks-before/


    Ate' dizer que foram os ingleses ou americanos culpados pelo incendio e' o mesmo de dizer que americanos foram culpados pela explosao ha' alguns anos da base espacial no Brazil.
    Mas isso tem que ser estudado com cuidado e nao com o tradicional descaso do governo.

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    1. Isaac, minha postura em relação a teorias de conspiração é bayesiana: dado o que sabemos sobre como a ciência no Brasil é subfinanciada e os pesquisadores são, no geral, forçados a se virar com barbante e chiclete, a hipótese de acidente é a que me parece bem mais provável...

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