Os ricos são mais escrotos? É provável, mas...

Uma série de experimentos realizados por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley sugere que pessoas de classe social mais alta tendem a ser mais trapaceiras e lenientes com o próprio comportamento -- "perdoando-se" mais facilmente quando cometem ações antiéticas e aproveitando com mais frequência oportunidades para roubar e trapacear com impunidade. O trabalho foi publicado pelo periódico PNAS, e há um resumo dos experimentos, em inglês, disponível aqui.

Agora, o resultado não só é plausível em si ("por trás de toda grande fortuna há um grande crime", já dizia Balzac) como também interessante, curioso e vem confirmar o estereótipo favorito de muito esquerdista estereotípico, que vê os ricos como uma massa informe de canalhas destinada, pelo infalível juízo de Deus ou da História, ao paredón. Também é atraente para nós, a massa ignara, que ganhamos autorização científica para encarar nossos problemas de crediário como indício claro de bom-caratismo.

Mas, será que o fato de o resultado ser assim tão atraente não seria um sinal de alerta? Já há algum tempo, desde a revelação das fraudes cometidas pelo psicólogo holandês Diederik A. Stapel, vêm surgindo questionamentos a respeito dos resultados produzidos pela aplicação de testes estatísticos em contextos de psicologia social.

E os problemas nem sempre são causados por fraude. Em novembro do ano passado, a revista Psychological Science trouxe um artigo com o sugestivo título False-Positive Psychology: Undisclosed Flexibility in Data Collection and Analysis Allows Presenting Anything as Significant ("Psicologia do Falso Positivo: Flexibilidade Oculta na Coleta e na Análise de Dados Permite Apresentar Qualquer Coisa como Significativa").

O artigo mostra como, tomando uma série de decisões aparentemente inocentes e perfeitamente éticas a respeito da forma como os dados brutos serão tratados, é possível obter "prova estatisticamente significativa" de resultados impossíveis -- por exemplo, que uma ouvir uma canção faz as pessoas rejuvenescerem 18 meses.

Os autores explicam que o problema nasce do que chamam de "graus de liberdade do pesquisador". Eles elaboram:

No processo de coletar a analisar os dados, pesquisadores têm muitas decisões a tomar: devemos levantar mais dados? Devemos excluir algumas observações? Quais as condições que devem ser comparadas ou combinadas? Quais controles devem ser considerados? Métricas específicas devem ser combinadas, convertidas, ou as duas coisas?

É raro, e muitas vezes impraticável, tomar todas essas decisões de antemão. Em vez disso, é comum (e aceito) que os pesquisadores explorem várias alternativas analíticas, em busca de uma combinação que produza “significância estatística”, e que reportem apenas aquilo que “funcionou”.

O problema, evidentemente, é que a probabilidade de que pelo menos uma das (muitas) análises produzir um resultado falso positivo no nível de 5% é necessariamenjte maior do que 5%.

Outro artigo publicado no fim do ano passado, desta vez uma peça de opinião no site da Society for Personality and Social Psychology, tinha o título Groundbreaking or Definitive? Journals Need to Pick One ("Revolucionário ou Definitivo? Periódicos Precisam Escolher Um") e chamava atenção para o fato de as publicações científicas, provavelmente sedentas de atenção da mídia generalista, incentivarem a produção de estudos que pudessem ser classificados como "revolucionários e definitivos".

O problema, nota o autor, Sanjay Srivastava,é que o aparentemente "revolucionário" muitas vezes é um falso positivo, e o "definitivo", quando aparece, tende a ser uma tediosa confirmação de vários resultados anteriores. Para que o revolucionário se torne definitivo, diz Srivastava, é preciso que passe por um longo processo de replicação independente por múltiplos métodos -- isto é, não basta que o resultado seja recriado por pesquisadores independentes replicando a metodologia original. 

O ideal é que a mesma conclusão surja de observações feitas em vários ângulos, por exemplo, em situações de laboratório e em levantamentos na população em geral. Esse critério parece ter sido atendido no estudo publicado na PNAS, que realizou sete diferentes experimentos, sendo dois deles de campo.

Mesmo assim, as questões dos "graus de liberdade do pesquisador" e do nível de significância de 5% (talvez "fácil" demais para estudos do comportamento humano) me deixa com o pé atrás. Realmente acho bem provável que os ricos sejam mais escrotos, em média, que a população em geral. Só que, por conta disso tudo, ainda me parece cedo para tomar essa leve impressão como fato científico.

Comentários

  1. Olá Carlos. Sim, nunca um único artigo pode ser tomado como evidência definitiva, é claro que não (nunca nenhum cientista são disse isso). A ciência se estabelece quando o original é replicado e corroborado por outros. E ainda assim, de qualquer forma, uma conclusão estatisticamente significativa não significa que TUDO esta contido nela. Trata-se de uma conclusão onde a maioria da população estudada se enquadra nos resultados (isso independe se é para estudos do comportamento ou de qualquer outra coisa, afinal, em última instância, tudo é matemático-biológico, ou seja, o comportamento não tem nada de "especial"). Nesse caso, até que se prove o contrário, parece que a maioria dos ricos se enquadra nessa descrição. Porém, isso só serve para analisar médias populacionais. Quando você está diante de "um rico em especial" sobre o qual você não tenha nenhuma outra informação além do fato de ele ser um "rico", você não pode concluir nem que ele seja um "escroto", nem que não seja um "escroto". O que você pode dizer é que ele faz parte de uma população em que se concluiu que a maioria é "escrota". ;)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo, mas gostaria de lembrar que a imprensa de maneira geral, trata qualquer publicação científica, como se fosse uma evidência definitiva. Não, não tenho nenhum dado estatístico para confirmar o que eu acabei de escrever.

      Excluir
  2. Caro Carlos,

    Sem desmerecer algumas áreas em particular, mas muitas
    vezes me parece que algumas pesquisas, sobretudo aquelas que envolvem áreas mais subjetivas (psicologia, ciências sociais, etc) são realizadas com um viés para provar a tese de seus autores.
    A propósito, não sei se é verídico, mas há algum tempo atrás correu um boato sobre uma pesquisa aceita (e publicada) em uma importante revista de Ciências Sociais que havia sido totalmente gerada por computador e era uma tremenda baboseira. Procede?

    ResponderExcluir
  3. Gerada por computador? Essa história eu não conhecia...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência