'Mind the Gap': da teologia à mitologia

"Mind the gap" é uma já folclórica expressão usada no metrô londrino, significando "cuidado com o vão" -- no caso, o vão entre a plataforma e o trem. Turistas que visitam a capital britânica têm à disposição uma infinidade de produtos com a frase, incluindo canecas, camisetas e moletons.

Mas o gap (ou vão) desta postagem é de outro tipo: um que assoma, como uma espécie de abismo no horizonte distante, em toda discussão sobre teísmo e ateísmo. É o gap entre filosofia e mitologia.

Suponho que todo mundo que já tentou acompanhar uma conversa civilizada -- sim, elas existem -- entre teístas e ateus acabou vendo a história empacar logo no primeiro item: o Universo requer uma causa? O ateu diz que não, o teísta diz que sim, não há acordo e o debate para por aí mesmo, ou então começa girar em círculos.

O apelo à intuição dá alguma vantagem ao teísta nesse ponto, mas uma visão um pouco mais sofisticada da questão basta para mostrar que não é válido elevar um dado empírico -- as coisas que conhecemos têm causas -- ao estatuto de princípio lógico-metafísico. Que é o que o teísta tenta fazer, convertendo o resultado de uma série de observações ("todas as coisas que vemos ao nosso redor têm origem em alguma outra coisa") num princípio de implicação lógica, do tipo "não há solteiros casados" ou "é impossível ser e não ser ao mesmo tempo".

O erro é o mesmo de, a partir da constatação observacional de que tudo o que sobe, desce, concluir que viajar ao espaço deve ser tão impossível quanto desenhar um círculo quadrado.

Aqui cabe, ainda, a objeção do "táxi" de Schopenhauer: se se vai assumir que "tudo que existe tem uma causa" é um princípio tão sólido quanto 1+1=2, não é honesto abandoná-lo (como se fosse um táxi) no ponto mais conveniente -- na porta do Universo. É preciso ir com ele até o fim e perguntar, "então, qual a causa de Deus?"

E não vale dizer que Deus não tem causa porque é o "ser necessário". Mesmo sem levar em conta o óbvio fato de que necessidade lógica é algo que se aplica a proposições, não a seres, afirmar que uma premissa tem validade universal para então deduzir que existe uma exceção a ela não é uma manobra válida -- sequer chega a ser mentalmente sã! --, a despeito de séculos de teologia militando nesse sentido. Tente construir um silogismo que vá de "Tudo o que existe é azul" a "Rosas são vermelhas" sem passar por "Rosas não existem" e veja onde isso lhe leva.

Mas, enfim, há respostas que o teísta pode tentar levantar neste momento, nenhuma delas válida, a meu ver ("Deus está fora do tempo" é um exemplo clássico, mas se algo está fora do tempo, como pode ser causa de outra coisa? Toda causa antecede a, ou ao menos é simultânea com, seu efeito). Para quem quiser um gostinho de até onde esse tipo de discussão pode ir, há este clássico debate entre Bertrand Russell e o Padre Copleston.

Agora: supondo, por um momento, que a etapa metafísica da discussão pudesse ser superada -- assumindo, por exemplo, que o ateu se convencesse, mesmo contra a melhor evidência científica, de que o Universo realmente precisa de uma causa extraordinária, para além das causas específicas de seus componentes individuais -- como poderia ser possível superar o gap que se segue? Como partir, da presunção de uma causa, para a constatação de que essa "causa" é um criador pessoal e, mais especificamente, YHWH, um mito levantino da Idade do Ferro, que antes de se tornar a divindade exclusiva dos judeus era apenas mais um deus das chuvas e das tempestades, parte de um panteão que incluía ainda figuras como El, Anat e Asherah e que, como uma espécie de Thor mediterrâneo, lutava contra serpentes marinhas (mito este, aliás, preservado de modo fragmentário na própria Bíblia?).

Trata-se de um problema análogo ao dos chamados "saltos" de Tomás de Aquino. Em suas clássicas "provas" da existência de Deus, Aquino tenta estabelecer que algo com as propriedade X, Y ou Z tem de existir (algo que seja a causa do Universo, por exemplo) e arremata com "[o ser que tem essas propriedades] é aquilo que os homens chama de Deus". Mas peraí, mermão: como assim? Como ele "salta" do Ser Necessário para o Deus de Abraão, Isaac e Jacó, que coleciona prepúcios, detesta camisinhas e coleta dízimos?

Assim como nos melhores truques de mágica, o movimento crucial acontece longe dos nossos olhos.

Desconfio que a questão do gap (ou do vão, ou do salto) é muito pouco reconhecida porque, claro, o debate nunca avança até esse ponto. Se uma pessoa se deixa convencer de que o Universo requer um criador, o movimento psicológico imediato é submergir nas noções a respeito que prevalecem da cultura circundante.

Mas esse é um desfecho psicológico, não lógico. Se a sua intuição insiste em exigir um mito da criação para sossegar, não há por que baixar a cabeça e seguir a manada. Você pode escolher uma outra história. Adotar uma alternativa moderna. Ou, até, inventar a sua.

Comentários

  1. Há tempos faço essa mesma objeção quando sou convidado (ou "autoforçado") a participar de discussões dessa natureza.

    A hipótese "existe(m) entidade(s) metafísica(s)" é só parte do problema. Saber se é apenas uma ou se são muitas e quais suas características é questão tão ou mais tormentosa. Acho MUITO curioso o fato de teístas passarem batido por ela.

    Por outro lado, como bom agnóstico, não deixo de dar uma cutucada: em se tratando de explicações, a nossa ciência não está exatamente em melhor posição e justamente pelo fato de ser toda pautada pela causalidade.

    Do nosso ponto de vista científico são pavorosas as hipóteses de que (a) algo simplesmente surgiu do nada ou que (b) algo sempre existiu. Ambas desafiam a causalidade.

    Outro dia eu estava aqui pensando só pela diversão como seria a minha teoria sobre deus. Tentei articular meus parcos e limitados conhecimentos de física e cheguei à conclusão de que a hipótese teísta mais plausível é um panteísmo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Marcelo Porto Allen6 de março de 2012 06:24

      A "explicacao" cientifica, como sempre, nao oferece o grau de certeza das religiosas, exatamente pelo reconhecimento de que estamos no processo de entender, e nao temos ja o entendimento pronto, restando apenas aceita-lo. A ideia de que o Universo surgiu "do nada" e' um pouco enganadora; nao temos elementos cientificos para analisar a singularidade que parece ter ocorrido nos primeiros instantes (o tempo de Planck). Outra coisa que precisa ser lembrada neste ponto e' que consideramos que o espaco-tempo teve origem junto com o Universo, ou seja, nao existe um "antes" com "nada" para ser contrastado com um "depois" com "tudo". Na perspectiva cientifica, essa questao do "antes" fica automaticamente prejudicada.

      Excluir
    2. Se não entendi errado, a mesma objeção que você faz pode ser feita a respeito do espaço. Se dizemos que algo existe, a conclusão imediata é de que existe num lugar; já se dizemos que não existe, é porque não está em lugar algum.

      É estranho imaginar que num momento havia nada ("haver nada" é por si esquisito) e no momento seguinte havia espaço. Veja que até para formular essa ideia a noção de tempo se faz presente (antes-nada, depois-tudo, em sequência).

      A noção de espaço é indissociável da de tempo e, embora consigamos formular e de certo modo até compreender sentenças do tipo "antes/fora do tempo/espaço", a verdade é que não conseguimos conceber qualquer coisa que prescinda da estrutura espaço-temporal. Isso está marcado na própria linguagem.

      Kant, Heidegger e Wittgenstein são três filósofos que foram expressos quanto a isso.

      Contudo, daí não se conclui que exista uma entidade imaterial e inteligente. Até porque, veja bem, ainda que se conceba um deus (o cristão, digamos), essa questão acerca do espaço-tempo-origem permanece intacta, porém se transforma em "mistério da fé", tal como a trindade.

      Não sei que tipo de certeza é essa. =)

      Excluir
  2. Não sei se "algo sempre existiu" desafia a causalidade: afinal, numa sequência infinta, todo evento sempre terá uma causa anterior a si. A questão de "qual a causa da sequência" pode não ser legítima -- há um exemplo clássico disso na questão dos cinco esquimós em Times Square:

    Cinco esquimós, que nunca tinham se visto antes, se encontram numa esquina de Times Square. Trata-se de um evento incomum! Ao investigar a causa, descobrimos como cada um deles, por motivos próprios e por meios específicos, acabou indo parar lá, no exato mesmo instante que os demais. Uma vez de posse de cada história individual, Faz sentido continuar a perguntar, "mas o que causou o encontro dos cinco esquimós"?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Carlos, perdoa a ignorância, mas acho que não compreendi o que você quis dizer com "A questão de 'qual a causa da sequência' pode não ser legítima" e, consequentemente, não saquei a analogia pretendida com o exemplo. =(

      Excluir
    2. Desculpe, acho que me empolguei. A questão é: se cada elemento de um conjunto já está explicado, faz sentido perguntar qual a explicação do conjunto?

      Excluir
    3. Faz lembrar de Aristóteles, para quem as coisas coexistem com deus, eternas e incriadas.

      É uma boa pergunta. Porém, não estou seguro de sua legitimidade, as evidências e a própria intuição parecem apontar para o caminho de haver um [fato] ancestral comum a tudo o que existe.

      Fico ainda com o que havia dito, penso que "algo sempre ter existido" desafia a causalidade, e, portanto, trata-se de hipótese que a ciência não pode abraçar. Pelo menos não sem cortar na própria carne [não que isso seja ruim, mas estão dispostos?].

      Excluir
    4. Bom, a ciência não é dogmática (abriu mão do determinismo clássico quando as evidências a favor da interpretação quântica se tornaram irrefutáveis, por exemplo), e o próprio papel da causalidade no ethos científico é muito superestimado.

      Antes de a Relatividade Geral apontar para o Big Bang, a ideia de um universo eterno era mais ou menos consensual (e foi defendida por alguns astrônomos e astrofísicos até a década de 60 do século passado). Hoje, hipóteses como a da Inflação Eterna são parte do "mainstream" científico -- há boas descrições dela nos livros mais recentes de Sean Carroll e Brian Greene, se você estiver interessado.

      Excluir
    5. Tenho interesse sim, sabe as referências exatas?

      Excluir
    6. Do Carroll, From Eternity to Here, acho que ainda sem edição em português. Do Greene, The Hidden Reality, também, creio, sem tradução.

      Excluir
  3. Aqui Orsi adorei seu blog.
    Parabéns meu amigo.
    quando der me visite em: www.recantodasletras.com.br/autores/neidelameu
    será um prazer.
    Abraços.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

"Fosfo da USP" volta a dar chabu em testes oficiais

A maldição de Noé, a África e os negros

Primeiros testes: "fosfo da USP" não funciona e não é "fosfo"