A Curiosidade pousou

Primeira visão do solo de Marte pela Curiosity
Na madrugada desta segunda-feira, 6 de agosto de 2012, habitantes do planeta Terra fizeram descer um veículo do tamanho de um Fusca, movido a eletricidade produzida por um gerador nuclear, na superfície de outro planeta, a 250 milhões de quilômetros daqui. Chamado oficialmente de Laboratório Científico de Marte, o veículo, teleguiado, é mais conhecido pelo "nome de fantasia" Curiosity ("Curiosidade").

Em sua chegada a Marte, durante aproximadamente sete minutos, a sonda executou uma série de manobras -- programadas meses antes -- que incluíram o mergulho na atmosfera marciana, a liberação do escudo que a protegia do atrito com o ar rarefeito de Marte e a ativação dos retrofoguetes que a mantiveram a flutuando enquanto um guindaste voador descia-a, delicadamente, na superfície do planeta, por meio de cabos: a Curiosity é pesada demais (e a atmosfera marciana, excessivamente tênue) para que o pouso pudesse ser feito simplesmente por meio de paraquedas.

Por último, mas não menos importante, o guindaste teve de ser eliminado, com um último jato de seus retrofoguetes projetando-o para longe do veículo -- afinal, não faria sentido o robô descer em segurança apenas para ser esmagado pelo equipamento de apoio, caindo do céu quando seu combustível acabasse!

Repetindo, só para deixar claro: todo esse procedimento, da entrada violenta ao pouso suave, e incluindo a partida do guindaste, ocorreu em outro planeta, e sem nenhum tipo de intervenção humana direta -- que, de resto, teria sido impossível. Dada a limitação imposta pela velocidade da luz, nenhum comando terrestre teria tido tempo de chegar à sonda, após o início da penetração na atmosfera, antes que o pouso estivesse consumado.

Tudo se deu, portanto, de modo automático, conforme programado ainda antes da partida do jipe Curiosity da Terra, no ano passado.

Agora, imagine: que meros mortais como nós, que pagam aluguel, têm hemorroidas e comem fast-food, foram capazes de prever e implementar, com precisão espantosa e meses de antecedência, todos os passos necessários para controlar exatamente o que aconteceria em outro mundo, a milhões de quilômetros de distância, quando ninguém estivesse olhando, quando ninguém poderia estar olhando.

A simples contemplação do conceito, de suas implicações,é de tirar o fôlego. Poucos poemas, pouquíssimas sinfonias, são tão chocantes, ligam de modo tão potente o cósmico ao comezinho, deixam tão claro que a transcendência está em nossas mãos, em nossa capacidade para a arte, o trabalho, a ciência.

Minha carreira jornalística tem uma curiosa ligação com a exploração de Marte. Logo depois de ter sido contratado pela Agência Estado, cuidei de acompanhar as aventuras do primeiro jipe-robô enviado ao planeta vermelho, o pequenino Sojourner, que também foi o autor das primeiras fotos de outro planeta transmitidas pela internet. Depois dele vieram Spirit, Opportunity, Phoenix; as sondas orbitais Mars Reconnaissance Orbiter, com sua fantástica câmera HiRise, fonte de algumas das mais estonteantes imagens interplanetárias, e Mars Odissey; além da europeia Mars Express.

Também acompanhei diversos fracassos, como a recente Phobos-Grunt, da Rússia, que sequer conseguiu deixar a órbita terrestre; o robô britânico Beagle, que provavelmente se espatifou em Marte, numa queda descontrolada, mesmo destino do americano Mars Polar Lander; o tragicômico caso da sonda Mars Climate Orbiter, que fracassou porque o computador de bordo havia sido programado no sistema métrico, com quilogramas, metros, etc., mas as ordens enviadas da Terra usavam os sistema anglo-americano de libras e pés.

Segui ainda os esforços heroicos do Japão para tentar salvar sua sonda Nozomi, lançada em 1998. Depois de apresentar defeito numa válvula de combustível, o satélite se viu incapaz de obter a energia necessária para chegar a Marte por meio da rota traçada originalmente, mas cientistas japoneses seguiram tentando encontrar um meio mais econômico de levar a Nozomi a seu destino. Os esforços só foram abandonados em 2003, e hoje a sonda gira, perdida, em órbita do Sol.

Vários bilhões de dólares já foram gastos na exploração de Marte, e volta e meia aparece alguém perguntando "por quê", questão que geralmente vem acompanhada por algum tipo de menção ferina às criancinhas famintas da África e ao coração duro das potências capitalistas.

Pondo de lado os fatos de que foram os soviéticos quem começaram com esse negócio de gastar dinheiro no espaço e de que todo mundo é livre para vender tudo o que tem e doar o dinheiro para o Unicef, caso se deseje, é preciso chamar atenção para o dado de que a expansão das fronteiras do conhecimento é um valor em si -- tão precioso, e em alguns momentos até mais precioso, que a arte, a literatura, o esporte. É curioso que ninguém sugira que os Jogos Olímpicos, a Fórmula 1 ou as grandes orquestras do mundo sejam suprimidos e o dinheiro, revertido para os Médicos Sem Fronteiras. Aposto que nem os Médicos Sem Fronteiras gostariam.

Além disso, e percebo que algumas pessoas têm uma profunda dificuldade em assimilar a ideia, a relação entre progresso científico e progresso tecnológico, e ente progresso tecnológico e mudança social, não é linear. A busca por uma lâmpada elétrica mais eficiente levou à Física Quântica, que por sua vez levou à bomba atômica, à radioterapia para câncer e à internet. O processo é caótico e imprevisível, e as únicas opções que temos é abraçá-lo ou voltar à Idade Média.

Exploramos Marte porque ele está à mão, porque é parte do Universo, assim como nós, e quanto mais entendermos do Universo, mais entenderemos de nós mesmos. Exploramos Marte porque podemos. Exploramos Marte porque ele está lá. Exploramos Marte, e Júpiter e Saturno e a Lua e as estrelas e tudo mais porque estão lá, e porque estamos aqui. Exploramos o Universo pelo mesmo motivo que fazemos música, escrevemos livros e pintamos quadros: porque somo humanos.

Comentários

  1. "É curioso que ninguém sugira que os Jogos Olímpicos, a Fórmula 1 ou as grandes orquestras do mundo sejam suprimidos e o dinheiro"<=Na verdade tem.

    "The main issues is whether or not the Olympics benefit the poor.Certainly everything about the Olympics is elitist. The poor may not really benefit as such. Most of those who wemay refer to as poor certainly are not found in the developed countries but in the developing countries like African and Asian countries."
    http://www.tribune.com.ng/index.php/shehu-sani-on-friday/45310-does-the-olympics-benefit-the-poor
    -----

    []s,

    Roberto Takata

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  2. Orsi, meus parabéns! Grande texto!

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  3. Carlos Orsi,
    Será que somos parentes ?

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    Respostas
    1. Não faço ideia... Mas não se trata de um sobrenome exatamente incomum.

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