Padres poloneses criam revista mensal de exorcismo

Capa da revista, com cena do filme 'O Ritual'
A fonte original da notícia parece ser a agência France Presse (AFP). Em termos de bizarrices, ela costuma ser um pouco mais confiável que a EFE, e o negócio saiu até no Huffington Post, então, de repente, é mesmo coisa séria: uma explosão no número de ocorrências de possessão demoníaca na Polônia levou uma grande editora do país, em parceria com prelados católicos, a lançar uma revista sobre exorcismo, a Egzorcysta, nome que eu, do alto da minha profunda incompetência linguística, suponho significar "Exorcista". O número de estreia tem Anthony Hopkins na capa. Ela sai com tiragem inicial de 15 mil exemplares. Isso é menos de 4% da circulação da Superinteressante no Brasil mas, ei, a Polônia não é lá um país tão grande assim!

De acordo com os sacerdotes ouvidos pela AFP, o número de exorcismos oficiados na Polônia saltou de quatro para 120 ao longo dos últimos 15 anos, e atualmente há uma lista de espera de três meses para quem quiser exorcizar-se em Varsóvia. Tá pior que a fila do SUS.

É importante notar que, nas últimas décadas, a Polônia moveu-se de um ateísmo de Estado, imposto pelos comunistas, a um estado de catolicismo fervoroso, insuflado não apenas pelas tradições represadas que voltaram a aflorar após a libertação, mas também pela figura do falecido papa João Paulo II. Seria de se esperar que o aumento do fervor cristão no país tivesse feito o demo se despachar para outras paragens. Só que, pelo jeito, não foi o que aconteceu.

O sábio padreAleksander Posacki tem, no entanto, uma resposta pronta para o aparente paradoxo. Diz ele, de acordo com o relato da AFP: "O capitalismo cria mais oportunidades de se fazer negócios na área de ocultismo. A adivinhação já foi até categorizada como uma função tributável (...) Se as pessoas podem ganhar dinheiro com isso, a coisa cresce, e o dano espiritual, também".

Possessões demoníacas são, claro, pura bobagem. Dedico um capítulo inteiro do meu Livro dos Milagres ao assunto (tem também uma postagem a respeito no arquivo do blog), mas, resumindo bem resumidinho, há três grandes grupos de causas para uma "possessão": doenças que afetam o cérebro, como epilepsia ou síndrome de Tourette; role-playing (não como numa partida de D&D, mas como em "todo mundo aqui no culto tá babando e caindo no chão, vou babar e cair no chão também que é mó legal"); e, o mais interessante, o uso do demônio como válvula de escape para pressões psicológicas e sociais.

'Pacto diabólico' usado no caso do convento de Loudun
Essa última opção pode incluir desde casos legítimos de histeria de massa e até o uso da "voz do diabo" como instrumento de protesto. Há autores que atribuem a onda de possessões coletivas de freiras, principalmente em conventos da França no início da Era Moderna, a algo do tipo.

Faz sentido: ponha-se no lugar de uma adolescente heterossexual que, talvez porque o pai não queira morrer na grana do dote, é internada, a contragosto e pelo resto da vida, num casarão cheio de outras mulheres, onde cada movimento é vigiado, o trabalho é duro e maçante, e onde homens praticamente nunca são bem-vindos. E onde, se você de repente começar a rasgar as roupas, gritar e quebrar tudo, não só vão deixá-la ficar na cama (sem trabalhar) como ainda vão chamar um homem (o padre exorcista) para tomar conta do seu caso. Que tal?

Sem querer dar uma de adivinho mas já dando, essa hipótese de "válvula de escape" de repente ajuda a explicar boa parte do atual fenômeno polonês, já que, com o fim do comunismo, a Igreja Católica assumiu as proporções de um poder monolítico no país. Há menos de duas décadas, bispos arrogavam-se até mesmo a prerrogativa de ditar os termos da Constituição

É difícil prever como o lançamento da revista vai afetar esse clima cultural. Se o conteúdo refletir o mesmo tipo de ideologia da declaração do padre, culpando os "ocultistas" pelo fortalecimento do demo, a perspectiva não é das mais brilhantes.

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