Uma agenda política humanista secular?

Cheguei há pouco de Porto Alegre, onde participei do 1° Congresso Humanista Secular do Brasil, organizado pela Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), onde tomei parte numa mesa sobre ceticismo, ao lado de Kentaro Mori e Horácio Dottori. 

Minha avaliação geral do evento? Versão curta: quem não foi, perdeu. E muito. Perdeu, para ficar em dois dos muitos pontos altos do evento, a oportunidade de ouvir Desidério Murcho declamando Fernando Pessoa. E de ouvir o depoimento da professora transexual Marina Reidel. Ouvi-la dizer, em referência à vida pré-transformação, e dizer com a frieza factual de quem descreve o almoço da véspera -- "Nunca fui feliz" -- deveria bastar para fazer corar de vergonha multidões de pastores e ainda outros tantos arcebispos.

Minha participação, para quem tem alguma curiosidade a respeito, tratou, mais ou menos como antecipei, da questão da ética da crença. Bem rapidinho: a razão não opera num vácuo. A racionalidade é como um programa de computador que precisa de inputs, dados de entrada, para operar. Esses inputs são as crenças e as emoções; é por isso que os vulcanos, de Star Trek, são personagens tão inverossímeis: se você expurga toda a emoção, a razão passa a girar em falso, como um moinho sem trigo para moer.

Encarando a coisa assim -- a razão como um processador de crenças e de emoções -- fica claro que muitas atrocidades e besteiras geralmente descartadas como "irracionais" são, de fato, perfeitamente racionais: dadas as crenças dos nazistas, por exemplo, os campos de extermínio eram uma conclusão lógica. 

Daí se deduz (ou, bem, eu deduzo) que existe um dever moral de cultivar apenas crenças corretas. Ou, dada a falibilidade humana, de se fazer o máximo possível  para evitar abraçar crenças falsas. Em resumo, da mesma forma que existe o imperativo ético de ser honesto, existe o imperativo ético de ser cético. Parafraseando Voltaire, acreditar em besteiras é meio caminho andado para cometer atrocidades. Logo, acreditar em besteiras é imoral, e provavelmente também engorda. Embora nem sempre seja gostoso.

Mas não é para falar de minha apresentação que abri esta postagem, mas sim para especular a respeito do que está ali no título: seria possível construir uma agenda propositiva política de base humanista e secular capaz de congregar a maioria ou (sendo otimista) a totalidade das pessoas que se identificam dessa forma?

Porque é possível enxergar muito claramente o que se costuma chamar de "agenda negativa" -- aquilo a que o humanismo secular se opõe -- como, por exemplo, a legitimidade de se usar premissas religiosas como base para políticas públicas. Mas, fora isso, o que mais? 

A reflexão me ocorreu porque, durante todo o Congresso, ficou meio claro que a orientação política das pessoas reunidas ali era, ao menos na maioria, de esquerda ou centro-esquerda. No entanto, existe todo um sistema ideológico que pode muito bem ser chamado de secular e humanista -- na medida em que privilegia a liberdade pessoal contra a interferência indevida por parte do Estado ou da Igreja, ao mesmo tempo em que privilegia uma visão de mundo radicalmente individualista -- que costuma ser considerado de direita. É a chamada "direita liberal", definida em oposição à "direita conservadora".

Será que essa direita cabe no movimento secular humanista da forma como ele está organizado hoje? O sucesso do Congresso da LiHS -- e ele foi um sucesso: realizado num miolo de feriado prolongado, numa sequência cansativa de palestras encadeadas por quase 12 horas ao dia, nunca teve o auditório significativamente vazio -- permite abraçar esses liberais? Ou um esforço nesse sentido levaria a uma explosão do movimento?

Grupos de interesse volta e meia defrontam-se com o dilema de ou serem pequenos demais para fazer diferença, ou serem tão grandes que perdem a essência. O movimento secular brasileiro ainda está longe disso, mas talvez valesse a pena refletir sobre onde está, afinal, essa essência, e qual seu significado político, se é que há algum. Quem sabe, este se revela um bom tema de discussão para os preparativos do 2° Congresso!

Comentários

  1. Sei não. Isso de imperativo ético de agenda positiva me soa a proselitismo...

    []s,

    Roberto Takata

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    1. É certamente um risco -- mas é até por isso que a questão merece debate: até onde dá para empurrar uma agenda positiva, sem perder o que de fato define e une o grupo? Haverá alguma agenda positiva possível? De repente, conclui-se que não...

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    2. Olá, Carlos!

      Primeiramente, gostaria de te cumprimentar pela excelente palestra que deste no CHS2012! Ter estado lá, nestes dois dias foi, pra mim e certamente para todos os presentes, uma experiência histórica e enriquecedora! Parabéns e muito obrigada!

      Quanto ao "espaço que esta "direita" tem no grupo" é algo que só cada individuo dentro dele poderá estabelecer. Acredito que dado o esclarecimento de todos os seus integrantes, estamos, de fato, acima de qualquer "bandeira" ou ideologia política já existente, o que possibilitaria um espectro mais amplo neste campo, onde haveria espaço para as mais variadas opções ideológicas e político-partidárias, até que, quem sabe em um futuro próximo, possamos ter um "Partido Humanista Secular do Brasil".

      O que me parece importante agora é que mais ateus se posicionem politicamente, independente de qual seja esta posição, pois seja ela qual for, brindará a Política Brasileira com o pensamento crítico comum aos céticos, o que poderá ser de suma importância para o futuro político de Brasil.

      Pensando desta maneira é que me tornei candidatei à vereadora, aqui em Porto Alegre, minha cidade Natal, e me afirmo como a 1ª candidata assumidamente Secularista em nosso País. Se existem outros ou se existiram outros antes de mim, estes sempre preferiam permanecer sob o véu da dúvida, para evitar possíveis polêmicas ou perda de eleitorado dentre os religiosos.

      Minha luta, por sua vez, é o oposto: acredito ser necessário que se "rasgue este véu" para que ateus, agnósticos e céticos parem de ser vistos como "Personas Non Gratas" dentro da sociedade brasileira e, porque não dizer, MUNDIAL, uma vez que temos pessoas, a exemplo de Alex Ann, sendo encarceradas por seu pensamento secularista ao redor do mundo e tenho a esperança de que, ao invés de vivermos, daqui 20 anos, em um Estado Teocrático, como nos possibilita pensar o fato de já existirem 80 integrantes de uma Bancada Evangélica no Brasil, mas nenhum eleito declaradamente Secularista (torço para ser a 1ª de muitos!). Minha pretensão é que em duas décadas, ao invés de um Estado Teocrático, é que tenhamos uma Bancada Secularista, em contraponto aos políticos de Deus", legislando em nosso País!

      Nós, brasileiros ateus, devemos contestar esta "invisibilidade" do ateísmo dentro da sociedade, já que aqui podemos nos dar ao luxo de dizer que "Vivemos em uma Democracia", por mais que apenas teoricamente.

      Creio que a população ateísta ainda não percebeu a importância da formação de lideranças políticas dentro deste nosso ainda restrito grupo: se o cidadão está fadado a ter de se submeter às Leis de seu País e as Leis são feitas pelos governantes, enquanto formos meros eleitores contestando o poder pela anulação do nosso voto, estaremos permitindo que políticos teístas permaneçam no poder e é às regras destes que estaremos submetidos.

      Que tal, então, agora que estamos nos tornando um Grupo, com rostos, histórias e opiniões, e que tiveram o seu 1° encontro oficial, começarmos a trabalhar a construção de um REAL Estado Laico através do estímulo à candidaturas de ateus aos cargos governamentais do Brasil?

      É claro que alguém assumidamente ateu não se elegeria da noite para o dia e sem estar respaldado por formadores de opiniões. Mas eis nossa grande vantagem: somos blogueiros, jornalistas, geneticistas, historiadores, biólogos, sociólogos, arqueologistas, astrônomos, advogados, médicos, físicos, profissionais de TI, sociólogos, psicólogos, filósofos! Se tem algo que SOMOS é formadores de opinião!

      Só nos falta agora é darmos as mãos e tornarmo-nos gerenciadores da FORÇA que temos nas mãos!

      Vamos dar as mãos?

      Minha campanha é: APOIE A CANDIDATURA DE UM ATEU!!!!

      E minha única promessa de campanha é, caso eleita for, desafiar meu correligionário Jair Bolsonaro, para um debate sobre Liberdade Pessoal e Diversidade Sexual!

      Deseje-me sorte! ;)

      Um beijo grande.


      Paula Berlowitz

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  2. Pena que não pude assistir o debate. Abs!

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  3. Olá, Carlos!

    Em primeiro lugar, foi um prazer te conhecer pessoalmente no Congresso. Para quem te conhecia de literatura, dar rosto e voz aos nomes com os quais convive há tanto tempo sempre é um prazer!

    Mas, quanto à questão da orientação política: a LiHS é apartidária - e congrega, em um terreno comum, pessoas de diferentes orientações políticas, de uma esquerda bem pronunciada a uma "direita" extremamente liberal (e é difícil utilizar aqui o termo "direita", pois, pelo menos no Brasil, a "dieita" sempre foi historicamente identificada com os setores conservadores - com a exceção de tímidos movimentos, nunca tivemos uma direita liberal). Eu mesmo me defino como ultraliberal, e divido um Conselho na LiHS com uma colega de posicionamento à esquerda - e, surpreendentemente, temos zero atrito em nossas funções.

    É natural, no entanto, que esse Congresso específico - o qual trata de questões de gênero, do direito e da liberdade de ser quem se é - dê uma proeminência às pessoas mais ligadas à esquerda, e isso se deve a um motivo bastante simples (e triste, na verdade): não fosse a esquerda ter prestado esse inestimável serviço, tais bandeiras teriam sido simplesmente abandonadas no nosso país nas últimas décadas, pela absoluta inexistência de um movimento verdadeiramente liberal no Brasil (ou de "direita liberal", como você se referiu), o qual, logicamente, por dever intrínseco deveria defender tais liberdades. Não há, hoje ou nos últimos anos, absolutamente, qualquer representação política para os verdadeiramente liberais no Brasil.

    Um incipiente movimento liberal, no entanto, começa a tomar forma nas redes sociais e na academia, e podemos ter alguma esperança de que, no futuro, exista representação política capaz de dar voz não só aqueles que acreditam na liberdade de transacionar o produto do seu trabalho livremente - o que, paradoxalmente, defendem tão bem os conservadores e ultraconservadores - como as liberdades individuais básicas, fundamentais, de ser quem você é, de amar quem você quiser amar, de ler o livro que você quiser ler, de crer ou não na religião que você quiser - enfim, de se engajar na única atividade capaz de dar um significado à experiência humana, que os fundadores americanos tiveram a magistral inspiração de chamar de "The Pursuit of Happiness".

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    1. Oi, Douglas! Foi ótimo conhecer pessoalmente você, o Daniel, o Eli e todos os demais, também. Por favor, não tome minhas ponderações na pastagem como uma crítica à organização do congresso ou ao line-up dos palestrantes, mas como algo bem na linha do que você mesmo disse: onde, afinal, estão os liberais brasileiros? Parece que sempre que um intelectual desponta com um discurso aparentemente liberal clássico, dois ou três artigos mais à frente ele sai do armário como teocrata, negacionista climático ou coisa pior.

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    2. Oi, Douglas! O garnde problema é que as pessoas tem medo de assumir sua descrença publicamente.

      Um amigo meu, inclusive, me disse que agora que eu era candidata, teria de começar a "medir" mais os meus comentários sobre ateísmo na Web. E eu garanti pra ele que não: que seguiria firme e forte em minhas convicções. E que se isto representar uma não eleição, sem problemas! Minha intenção é ser a precursora deste novo movimento, com uma grande vantagem: eu não tenho medo de "dar a cara à tapa"!

      De fato, conversando com inúmeras pessoas da sociedade civil e da classe política, acabo me sentindo a única representante desta "direita liberal" da qual vocês falam!

      E como eu disse em outro comentário aqui no post, antes de ler este teu: que tal começarmos a nos organizar neste sentido, agora que temos "rostos" e futuramente darmos à existência o PHSB - Partido Humanista Secular do Brasil? ^^

      Fica o convite (ou a "provocação"!). ;)

      Bjs.

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  4. Bom, eu me pergunto a mesma coisa já faz algum tempo. Esses debates são todos muito frutíferos e precisamos que mais deles aconteçam. Mas já não seria hora de literalmente botar um partido na rua?

    O Russomano é a notícia do anti-laicismo, mas se vocês virem o freakshow que é a campanha dos vereadores, o que mais se percebe são bordões do tipo "em defesa da nossa fé".

    Definitivamente precisamos de representação política.

    -Daniel Bezerra

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  5. Precisamos mesmo de uma ética laica - se é que se pode chamar assim - onde a visão, regras e crenças religiosas não sejam motivos para transgredir ou para justificar comportamentos nocivos contra outras pessoas. A universalização de costumes e regras de convívio, onde a justiça e a ética consequencialista estejam acima de qualquer dogma, certamente trará novos rumos à convivência entre os povos e entre as pessoas. Talvez até mais confiança, harmonia e mais solidariedade.

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  6. Uso o blog do Orsi para saudar a todos os participantes e organizadores do Congresso. Não sabem o alívio que nós, os preocupados com o "religiosismo" que ainda estão à sombra, recebemos ao ver as atitudes proativas de vocês.

    Não tenho dúvida de que o "movimento humanista" precisa destilar alguns preceitos em linguagem clara e de fácil entendimento para usar como ponta-de-lança numa estratégia de marketing de massa. Propagandear é preciso, mesmo que seja propaganda "below the line" no começo. Ações pontuais, como os outdoors de Porto Alegre, precisam ser vinculados a um planejamento estratégico de âmbito nacional.

    E por quê acredito piamente nisso?

    Com o avanço e risco de predomínio das doutrinas religiosas/preconceituosas sobre a cena política e o Estado, afetando todos os cidadãos, algum movimento precisa ser feito no sentido contrário. Isso não é o mesmo que declarar "partidarismo" -- é tornar-se conhecido e agregar gente em escala suficientemente ampla para formar uma contracorrente e (aí sim) se pensar num partido político ou algo do gênero.

    Um partido político seria prematuro agora, mas um movimento de abertura para a sociedade, de divulgação de ideias e principalmente de convite para adesões (nem que sejam adesões de foro íntimo) é necessário e precisa ser iniciado com urgência. É preciso que os brasileiros incomodados pelo vagalhão religioso enxerguem um cais seguro para atracarem e planejarem movimentos de defesa.

    Na medida que entidades como a LiHS chegam a um nível organizacional suficiente para executar um Congresso de âmbito nacional, automaticamente assumem (queiram ou não) uma posição política, no sentido de levar a mensagem adiante. Eu diria que precisam agora se concentrar exatamente no principal ponto do Orsi: qual a direção a tomar?

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  7. Olá Carlos,

    Antes de mais nada, gostaria de dizer como foi gratificante conhecer você pessoalmente (eu que sou um leitor costumaz deste blog) e de dividir algumas Heineken :-)

    Bom, acho que as ponderações que você faz no texto são muitíssimo pertinentes, e me alinho às posições que o Douglas proferiu em um comentário logo acima.

    Quando vc pergunta "Será que essa direita [a chamada 'direita liberal'] cabe no movimento secular humanista da forma como ele está organizado hoje?", eu, particularmente diria que sim, sem dúvida cabe. E digo mais, considero importantíssimo que haja pessoas de diferentes matizes ideológicos dentro de grupos como LiHS, desde que essas pessoas saibam conviver democraticamente com as diferenças existentes (como o Douglas exemplificou) e busquem concentrar suas forças nas agendas em comum.

    Mas claro que é nesse ponto que a coisa pode dar merda. Parece-me que muitas pessoas não acreditam que não é necessário concordar com 100% das posições de um grupo para construir e lutar por uma agenda em comum.

    Abração!

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  8. Oi, Alex! O prazer foi mútuo, pode ter certeza! E espero que você esteja certo, que a "cola" do humanismo secular seja mais forte que as pressões centrífugas que devem surgir quando o movimento ganhar mais força e visibilidade.

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  9. Poder político indefere de qualquer influência religiosa, embora esta possa se usufruir daquela.
    Sendo o candidato ateu (direitista então!!) ou religioso, continuará não tendo meu voto.

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