Pensamento positivo, cura e café fraco


Durante séculos, o templo de Esculápio em Epidauro, na Grécia, foi o principal centro de cura do mundo antigo. Doentes dirigiam-se até lá para se submeter ao ritual da incubação. Nesse rito, os afligidos passavam a noite e dormiam numa área especial do templo, o abaton, esperando que Esculápio, o deus da Medicina, lhes aparecesse em sonho e ditasse o tratamento adequado. Arqueólogos já encontraram inúmeras placas votivas, contendo depoimentos de pacientes satisfeitos que gravaram, para a posteridade, seus sonhos divinos e curas maravilhosas. Hoje, o templo de Epidauro está em ruínas -- parte delas você vê na imagem acima --, e é considerado um Patrimônio da Humanidade pela Unesco. A despeito dos séculos acumulados de depoimentos positivos e relatos sinceros de cura, não se veem mais multidões ansiosas pela próxima incubação.

Corta para o Brasil, 2016. Num domingo desses, pela manhã, estava eu num hotel em São Paulo e, zapeando pela TV, parei no programa de uma igreja neopentecostal. Fascinado, como o proverbial camundongo hipnotizado pelo olhar da serpente egípcia, fiquei assistindo a uma série de depoimentos de gente que havia superado problemas gravíssimos de violência doméstica, alcoolismo, drogas, pobreza e analfabetismo para passar a viver em mansões, com piscina, carro importado, TV de plasma e cães de raça, tudo graças às doações -- "sacrifícios" -- feitos à igreja.

Os depoentes pareciam todos muito felizes e sinceros, homens de cara escanhoada, cabelo curto emplastado de gel e camisa polo, mulheres maquiadíssimas, com brincos maiores que as orelhas. Conheço muita gente que acha que esses depoimentos na verdade são dados por atores, mas isso não me parece necessário para explicá-los.

A memória, afinal, é reconstrutiva -- quando nos lembramos de alguma coisa, não resgatamos um passado gravado no cérebro como a agulha da picape resgata a música gravada nos sulcos do vinil. Em vez disso, o cérebro reconstrói, recria as lembranças a cada recordação, e todos temos a tendência de exagerar as dificuldades que vencemos quando nos projetamos como heróis de nossas próprias vidas.

Além do quê, numa igreja com milhares, ou milhões, de fiéis, não deve ser difícil encontrar dezenas (ou centenas) de pessoas com histórias pessoais de superação e sucesso que tenham coincidido, no tempo, com seu envolvimento com a instituição. É até concebível que alguns tenham realmente tirado certo benefício concreto das palestras motivacionais de pensamento positivo, disfarçadas de sermões religiosos, que são oferecidas nesses templos, muito embora a melhor ciência indique que esse tipo de motivação é fundamentalmente inútil ou mesmo deletéria, e certos autores sugiram que sua principal função é manter as pessoas mansas e iludidas, ainda que sob condições intoleráveis.

De qualquer modo, também é importante notar que existem, ainda que divulgados com bem menos destaque, inúmeros depoimentos de fiéis -- ou, em muitos casos, ex-fiéis -- cujos "sacrifícios" e cuja atenção aos sermões/palestras não foram devidamente recompensados, muito antes pelo contrário.

Alguma semanas antes da viagem a São Paulo, eu havia assistido -- num arquivo do YouTube -- a um apresentador de programa popular de televisão concordar com a crítica de que, ao tratar de uma nova terapia "polêmica", era preciso dar menos atenção a "médicos e cientistas" e maior destaque aos depoimentos de pacientes. Na mesma época, uma postagem que encontrei nas redes sociais traduzia o mesmo sentimento: "não importa o que digam os pesquisadores, ainda confio mais na palavra dos pacientes curados".

Um defeito desse tipo de raciocínio é o de não levar em conta o simples fato de que pacientes não curados raramente falam (ou deixam placas votivas gravadas, por falar nisso): ou por culpa e vergonha (nossa "cultura do pensamento positivo" pune duramente quem sucumbe), ou porque ninguém os procura, ou porque estão mortos.

Eis a razão pela qual a palavra de médicos e cientistas é, na esmagadora maioria das vezes, mais valiosa que uma coleção de depoimentos individuais: médicos e cientistas costumam ter acesso a um ponto de vista mais amplo, à paisagem completa, formada pela totalidade dos dados disponíveis. E não apenas a recortes, a cenas particulares ampliadas e tiradas de proporção por interesses vários.

E não importa quantos desses recortes apareçam, sua soma nunca terá o mesmo valor que a paisagem total, cada parte em sua perspectiva correta, articulada às demais e vista no devido contexto. Há várias formas de traduzir esse  princípio. A mais tradicional é "o plural de anedota não é dado" ou, numa formulação mais clara, "o plural de caso individual não é informação". A minha favorita é: "juntar várias xícaras de café fraco não faz uma garrafa de café forte".

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