Enfim, que mal que há?

Parágrafo extraído da edição de segunda-feira do New York Times:

Ao nascer, a menina, Alaynia, era um pacotinho de bochechas rosadas, mas aos seis meses, um tumor do tamanho de uma bola de beisebol tinha consumido sua face esquerda, empurrando o globo ocular para fora da órbita. Os Wylands, membros da Igreja dos Seguidores de Cristo, uma seita que acredita em cura pela fé e cujos membros desprezam a medicina, recusaram-se a levá-la ao médico.

A notícia do NYT é de que os pais, Timothy e Rebecca Wyland, estão sendo levados a julgamento e podem pegar até cinco anos de cadeia. Já Alaynia, hoje com 18 meses e em um lar adotivo, pode ficar cega.

Este não é, claro, o primeiro caso do tipo registrado nos Estados Unidos. Em 2009, outro casal havia sido condenado a seis meses de cadeia por rezar em vez de tratar a filha que sofria de diabete.

A menina, no caso uma pré-adolescente de 11 anos, ficou "fraca demais para falar, comer ou caminhar". Do grupo de orações reunido em torno dela, alguém só pensou em ligar para uma ambulância quando a garota finalmente parou de respirar. E morreu.

Ela tinha diabete. Diabete.

Ao ser condenado, o pai dessa jovem, Dale Newmann, disse à corte: "Sou culpado de confiar plenamente no Senhor... Culpado de pedir pela intervenção celeste. Culpado de seguir Jesus Cristo quando o mundo todo não entende. Culpado de obedecer ao meu Deus".

O senhor Newmann tem precedentes de peso para defender a retidão de suas ações, ao menos à luz do cristianismo:  não só há o caso de Abraão, que teria apunhalado e assado o filho, não fosse a intervenção providencial de um anjo (sorte que a filha de Newmann não teve...), como ele pode ainda encontrar consolo no Novo Testamento, onde se lê que "todos os que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição" (o verso é de II Timóteo, uma carta atribuída a Paulo que a maioria dos estudiosos, hoje, considera apócrifa, mas que continua firme no cânone).

No caso de Alaynia, o NYT reporta que os pais estão firmemente convictos de que Deus está do lado deles.

Comentários

  1. Bom para eles. Terão companhia na cadeia.

    -Daniel Bezerra

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  2. o caso de Abraão não tem nada a ver com esse assunto. se você parar para pensar, aquele evento serviu para prefigurar a vinda do filho de Deus para morrer pela humanidade.
    além disso, Lucas, um dos escritores do novo testamento era médico, e receitava tratamentos conhecidos na época.

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  3. Microempresário2 de junho de 2011 12:29

    Muitos vão dizer que é melhor ser cego do que ser ateu. Mas a pobre Alaynia não teve a chance de decidir.

    Anonimo, me esclareça algo que eu nunca consegui entender: em geral os cristãos dizem que só quem crê em Jesus será salvo. Mas também repetem que Jesus "morreu para salvar a todos". Afinal, são todos ou não? Faz uma pequena diferença, se contar 1.5 bilhões de chineses (budistas), 1 bilhão de indianos e uns 3 bilhões de muçulmanos, por exemplo.

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  4. a bíblia complementa esta afirmação dizendo que a morte de Jesus abriu uma "oportunidade" (para todos) de recuperação de um benefício que é uma vida perfeita no futuro, mas não é automática pelo simples fato de crer.
    ele mesmo disse que não basta crer e dizer "senhor, senhor", mas antes é preciso buscar entender o que é correto e se esforçar em fazê-lo.
    a bíblia diz que as pessoas serão perdoadas amplamente, mesmo errando, mas é preciso se esforçar e ser sincero.
    resumindo, não basta apenas se auto proclamar cristão.

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  5. Carlos, em um mundo enorme com bilhões de pessoas você procura os piores casos de pessoas que obviamente não têm instrução ou têm até problemas mentais, e então você faz suas correlações.
    você não menciona os bilhões de casos positivos, como por exemplo jovens que não se envolvem com drogas nem marginalidade, ou fortalecimento do conceito de estrutura familiar (que é a base de sociedades fortes), outros que não se envolvem em guerras, ou ainda outros que se anulam (em partes ou às vezes completamente) para ajudar outras pessoas demonstrando um altruísmo elogiável...

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  6. Oi, Anônimo! Meu ponto, ao chamar a atenção para esses casos -- o que me assusta neles -- é que logicamente, analisando estritamente sob o ponto de vista da coerência entre crença e ação, o que esses pais fizeram foi, à luz da fé deles, perfeitamente correto. Ou, citando um físico ganhador do Nobel, o normal é gente boa fazer coisas boas e gente ruim fazer coisas ruins. Mas para levar gente boa a fazer coisas ruins, é preciso pôr fé na jogada...

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  7. Carlos, e para fazer gente ruim fazer coisas boas? Em muitos casos a fé está na jogada também. Por mais que muitas igrejas hoje sejam caça níqueis, e isso é totalmente condenável, muitos de seus frequentadores largaram vícios em alcolismo, depressão, etc. A classe média tem seus psicólogos e a classe baixa tem as igrejas neopetencostais.
    Quanto as famílias citadas no artigo, elas foram ignorantes. Se Deus deu o intelecto ao homem e permitiu que ele criasse avanços na medicina, devemos utiliza-la, e não despreza-la, pois isso seria desprezar a criação divina. Medicina + oração provaelmente teria salvo essas crianças. Mesmo talvez só a medicina, já que oração relaciona-se mais com os males do espírito do que com os do corpo.

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  8. Todos são livres para escolherem no que acreditar. Mas se até mesmo Jesus aconselhou a retirar um boi do poço num sábado, caso isso se fizesse necessário. "A Lei foi feita para o Homem, e não o Homem para a Lei". Ou, como prefiro dizer: "ajuda-te que o céu te ajudará".

    Deixar os próprios filhos em agonia por achar que Deus vai salvá-los é vaidade -- vaidade de se achar mais santo e, portanto, melhor do que os outros. E quantos vocês que são religiosos não conhecem em suas igrejas que se acham mais santos que todo mundo?

    Que esses pais idiotas apodreçam na cadeia, com ou sem Deus ao lado deles.

    -Daniel Bezerra

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