Sorte, riqueza e a ilusão do controle

Sorte e acaso são termos que andam meio fora de moda. O ser humano sempre gostou de ter algum senso de controle sobre seu destino, e as atuais teologias da prosperidade, somadas à enxurrada de literatura de autoajuda, só fizeram agravar o processo, vendendo uma supersticiosa ilusão de controle às massas afoitas.

Claro, não se trata de dizer que a sorte é tudo -- preparação, empenho, senso de oportunidade, clareza de visão... tudo isso tem um papel, e um papel importante.

Mas é preciso reconhecer como é forte a tentação de se cair no extremo oposto: achar que todas as coisas que ocorrem, acontecem por algum motivo. Que as pessoas sempre e inevitavelmente merecem o que acontece a elas, seja fortuna ou desgraça.

Em termos teológicos, substitui-se a doutrina paulina da graça -- segundo a qual Deus distribui dores e recompensas de modo inescrutável -- por uma visão supersticiosa, quase mecanicista, do funcionamento dos céus: feitos tais e tais sacrifícios (seja um holocausto de touros ou do cartão de débito), decorrem daí os favores da eternidade. E se não decorrerem, é porque você não sacrificou o suficiente.

Em termos culturais, cria-se um clima propício para a indústria do pensamento positivo, com suas leis da atração e quejandos. E, em termos sociais e econômicos, dissemina-se uma atmosfera de desprezo pelos menos favorecidos -- vagabundos, todos -- e uma frenética idolatria por quem está no topo.

Daí que uma pequena simulação publicada no periódico PLoS ONE pode servir como um leve beliscão nas consciências. Economistas da Universidade de Minnesota, nos EUA, criaram um modelo de computador para estudar as condições em que, a partir de uma origem teórica perfeitamente igualitária, surge o fenômeno da concentração de renda. O que descobriram: basta sorte.

Em outras palavras: para explicar como nasceram a riqueza e a pobreza, não é preciso invocar fatores como talento, disposição para o trabalho, ética, etc. O acaso trata de garantir que a renda acabe distribuída de forma desigual, mesmo num modelo onde todos começam com exatamente o mesmo capital e exatamente as mesmas qualidades pessoais.

O mundo real é obviamente mais complexo que isso, e nele diferenças de disposição e preparo existem e fazem diferença. No modelo, diferenças entre os indivíduos aceleram a concentração; não são, como talvez se pudesse imaginar, uma força redistributiva.

No fim, os autores propõem um imposto sobre grandes fortunas com a finalidade de barrar a marcha da concentração -- que, segundo eles, tende a reduzir a diversidade e o crescimento da economia, porque os ricos tendem a reinvestir apenas, ou principalmente, em seus próprios negócios.

Sejam quais forem as receitas econômicas tiradas daí, porém, o resultado bruto -- de que eventos fortuitos conspiram, de modo virtualmente inevitável, para que, mesmo entre iguais, uns acabem com muito mais do que os outros -- deveria inspirar, se não outra coisa, um certo senso de humildade. Talvez, até, um pouco de compaixão.

Comentários

  1. Que belo antídoto a essa maré de auto-ajuda, que adula os egoístas ao ponto de se acharem predestinados...

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