2011, o ano em que decidiremos o destino da varíola

A primeira epidemia de varíola de que há conhecimento ocorreu em 1350 AEC. Cicatrizes causadas pela doença aparecem na múmia do faraó Ramsés V. Os colapsos do Império Romano e dos Impérios Asteca e Inca podem ter sido apressados pela doença, que durante o século XVIII matava cerca de meio milhão de pessoas ao ano, somente na Europa.

Reis e imperadores, entre eles Pedro II da Rússia, Luís XV da França e Higashiyama do Japão sucumbiram ao vírus da Variola vera.

A doença em si pode ser descrita como o material de que pesadelos são feitos: começando com fortes dores de cabeça e crises de ansiedade, ela evolui para feridas que se espalham pela pele, e que podem causar sangramento a partir dos olhos, das gengivas, dos ouvidos e do nariz.

Conforme a doença progride, as feridas acabam cobertas de bolhas que se vão enchendo de pus, esticando-se até um ponto em que chega a se tornar impossível reconhecer o doente por baixo da camada de pústulas. Então as bolhas estouram. O cheiro que emana das feridas abertas foi descrito num relato do século XVIII como "podre e venenoso". A taxa de mortalidade era de 30%.

E eis que, desde uma epidemia final em 1977, na Etiópia, a doença desapareceu da face da Terra.

A vitória foi da vacina -- que se seguiu à prática mais primitiva de inoculação, na qual o pus dos doentes era esfregado numa ferida aberta no corpo de uma pessoa saudável. O processo surgiu de forma empírica, mas hoje sabemos que ele dava ao sistema imunológico do paciente uma oportunidade de familiarizar-se com o vírus, deixando-o precavido.

O fato de as pessoas nos séculos XVII e XVIII aceitarem se submeter a um procedimento tão repugnante é, nas palavras de Seth Mnookin, autor do livro The Panic Virus: A True Story of Medicine, Science, and Fear, um testemunho do horror que a doença causava.

(O livro de Mnookin é sobre a onda irracional de propaganda antivacinação que se espalhou pelo mundo a partir da Inglaterra, na década de 90, um assunto de que pretendo tratar numa postagem específica mais adiante.)

As últimas amostras conhecidas do vírus da varíola existem em dois laboratórios: um em Atlanta, nos EUA, e outro em Novisaibirsk, na Rússia. Em maio desde ano, a Assembleia Mundial de Saúde vai decidir se uma data deve ser marcada para a destruição desses vírus.

Em editorial, a revista Nature manifesta oposição à ideia. O argumento é de que esses estoques são necessários para combater um eventual ressurgimento da doença. Os estoques americano e russo são apenas os conhecidos, adverte o texto. Não se sabe quem mais pode ter amostras do vírus, nem o que essas "fontes não declaradas" podem se sentir tentadas a fazer com ele.

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