Saúde, jornalismo e a febre da correlação

A frase, creio, é do colunista britânico Ben Goldacre: a missão do jornalista que escreve sobre saúde é dividir todas as substâncias do Universo, sejam de origem animal, vegetal ou mineral, em duas e apenas duas categorias: as que causam câncer e as que evitam câncer.

A piada é boa e, tendo militado um pouco na área, não tenho como negar que contém aquele grão de verdade que define as formas mais sofisticadas de humor, transmutando o mero chiste em valioso insight. Neste caso específico, há, de fato, múltiplos insights.

O primeiro é de que esse jogo de "provoca/evita" não é difícil de fazer, principalmente quando se perde de vista a velha máxima de que "correlação não é causação" -- isto é, de que coisas que variam de forma semelhante ao longo do tempo não estão necessariamente relacionadas por causa e efeito. Veja, por exemplo, o gráfico abaixo:

Charting Software

Ele mostra que o número de mortes por câncer no Brasil aumentou junto com crescimento da economia ao longo de um período de 12 anos. Devemos concluir que o enriquecimento do país causa câncer? Abaixo, um gráfico sobre o avanço do saneamento básico e, de novo, o número de mortes por tumores malignos:


Charting Software

O aumento da rede de esgoto torna os tumores mais violentos? Não creio, e você não deveria crer, também. Ambas as "correlações" são claramente espúrias. Mas, se em vez de "crescimento econômico" e "saneamento básico" os eixos verticais dos gráficos dissessem "consumo de chocolate diet" e "número de antenas de telefonia celular" -- duas outras grandezas que certamente aumentaram no Brasil nas últimas décadas -- teríamos o embrião de dois belos pânicos de saúde pública nas mãos, ambos tão espúrios quanto as correlações com a economia e o saneamento.

Nem toda falsa correlação é assim tão transparente, e não é raro que mesmo cientistas e autoridades de saúde pública se deixem levar por ela. Às vezes, os dados estão realmente relacionados, mas a causa é tomada por efeito, e vice-versa. Por exemplo, um estudo realizado nos EUA indica que as pessoas com muitas dívidas têm saúde ruim. Isso significa que o estresse de estar endividado faz mal? que pessoas doentes fazem mais dívidas para pagar pelo tratamento? Que pessoas de saúde ruim ganham menos e por isso não têm renda para cobrir todos os gastos que fazem? Seu palpite é tão bom quanto o meu.

Também ocorre de os eventos estarem realmente correlacionados, mas por uma causa oculta. Por exemplo, a ideia de que o álcool, a maconha e o tabaco são "portas de entrada" para drogas pesadas baseia-se numa correlação entre o consumo dessas substâncias "leves" e o subsequente consumo de produtos ainda mais danosos. Mas a correlação também pode ser interpretada de outra forma -- digamos, como sinal da existência de um tipo de personalidade que tende a gostar de se drogar, e que muito naturalmente começa com as substâncias que estão mais à mão antes de cair no fundo do poço.

À selva das correlações dúbias -- muitas delas apresentadas por fontes de autoridade -- , somam-se as pressões sobre o jornalista. O leitor comum talvez não note, mas as páginas dos jornais (e, ainda mais, as da internet) são verdadeiros concursos de gritaria, pregões da bolsa onde cada título tenta clamar mais alto que os demais pelo tempo e pela atenção de quem passa os olhos por ali. 

No caso dos jornais impressos, onde o papel é cada vez mais escasso -- e dos portais noticiosos, onde o espaço nas homepages principais, que servem de porta de entrada para o conteúdo online, é limitado --, esse é um processo que começa antes mesmo do produto chegar ao leitor. 

É preciso primeiro convencer o editor de que a história que você tem a contar é mais importante e interessante do que as outras que estão competindo pelo mesmo pedaço de papel (ou tela) e que podem ser, digamos, o último vexame do Mel Gibson, a cena de sexo explícito no Big Brother, a pancadaria na final da série B do campeonato paulista.

Essas pressões não pesam exclusivamente sobre o repórter de saúde, mas atingem todo mundo. Mas, no caso específico de quem escreve sobre saúde, elas atuam no sentido de premiar a hipérbole: uma doença letal, um tratamento salvador certamente merecem mais espaço que um ensaio clínico promissor, ou uma condição que requer cautela.

A isso se soma o dogma individualista que se apossou das redações contemporâneas, segundo o qual não basta que o fato noticiado seja importante para a galáxia, o universo, o planeta, os pandas da China ou as criancinhas da Somália. 

Ele tem de ser visceralmente importante para você, o leitor individual, e afetar a sua vida na forma mais pessoal possível (a ideia, possivelmente apoiada por uma série de pesquisas de marketing, é a de que o leitor de jornais e revistas da atualidade sofre de miopia intelectual aguda e só se interessa por coisas capazes de melhorar sua longevidade, sua vida sexual e suas finanças, não necessariamente pela ordem). 

Enfim, o que você pode fazer para escapar do ebola? Da dengue? Como a descoberta das raízes evolutivas da intolerância à lactose deve impactar a sua escolha de iogurte para o seu próprio e pessoal café da manhã?

No meio desse turbilhão, é preciso uma virtude quase heroica para resistir à tentação de disseminar o pânico às terças, quintas e sábados e apresentar o elixir da vida eterna às segundas, quartas e sextas. É alentador, de fato, ver que essa virtude ainda existe.



Comentários

  1. Pois e' Carlos, eu vivo me perguntando se os jornalistas/editores sao bestas atraidas pela faculdade de jornalismo ou se o curso os torna assim no decurso de 4 anos... Os cientistas, por exemplo, ja chegam na faculdade completamente idiotizados.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Baleia ou barriga?

O financiamento público da pseudociência

Design Inteligente é propaganda, não ciência