O planeta habitável que talvez não esteja lá



No ano passado, em plena corrida eleitoral, escrevi uma matéria que, durante algumas horas, foi a mais lida de todo o estadão.com.br, superando até mesmo o circo Serra/Dilma: tratava-se da descrição da descoberta de Gliese 581g, um planeta com cerca de 4 vezes a massa da Terra e que é potencialmente habitável. Mas, como dizem os latinistas, sic transit gloria mundi: algum tempo depois, a existência do planeta foi posta em dúvida por outra equipe de astrônomos (o que também noticiei dilgentemente).

Vários meses mais tarde, análise estatística feita por um terceiro astrônomo, não envolvido com nenhuma das duas equipes anteriores, sugere que a chance de Gliese 581g realmente existir é de parcos 0,002%.

Situação que deve deixar muita gente coçando a cabeça. Digo, como é possível não ter certeza de se um planeta existe? Essas coisas são enormes, e Gliese 581g é maior que a Terra, ora bolas. Uma coisa é não saber onde estão as chaves de casa, outra é perder uma massa equivalente a dez nonilhões de chaves.

Claro, o Universo é razoavelmente maior que a maioria dos lugares onde as pessoas costumam esquecer as chaves. E a questão do desaparecimento de Gliese 581g lança luz sobre o método pelo qual planetas distantes são descobertos.

Atualmente, com os satélites Kepler e Corot, é possível virtualmente ver os planetas -- ou ao menos suas sombras -- ao descobri-los: esses dois observatórios espaciais detectam o enfraquecimento da luz de uma estrela quando um planeta passa diante dela. Para que essa técnica seja eficaz, no entanto, é preciso que a órbita do planeta em torno da estrela esteja no mesmo plano da linha de visão que une a estrela à Terra. Se, em vez disso, a órbita, vista da Terra, for algo parecido com o emblema na testa do Dr. Manhattan, nada feito. Não temos (ainda) a capacidade de enxergar diretamente planetas que não passam na frente de suas estrelas.

Quando o alinhamento não é favorável, a detecção tem de ser feita por meios indiretos. Basicamente, os astrônomos usam as perturbações no movimento da estrela causadas pela presença de uma massa não-observada na vizinhança para deduzir a existência do planeta. O problema é que, com esse tipo de evidência indireta, acontece de algumas vezes a mesma perturbação poder ser explicada por diferentes cenários hipotéticos.

(Suponha que você more numa casa com três crianças igualmente encrenqueiras. Quando escuta o vaso quebrar na sala, você corre até lá e vê os três petizes fazendo cara de anjinho, todos a uma boa distância dos destroços. Você certamente tem bons motivos para deduzir que um deles é o culpado, ou talvez os três sejam, mas a menos que novos dados apareçam, todos, individualmente ou em qualquer combinação possível, são igualmente suspeitos.)

O problema com Gliese 581g é desse tipo: os dados disponíveis -- a perturbação detectada na estrela -- podem ser satisfeitos por um conjunto de soluções, envolvendo diferentes números de planetas, diferentes formatos de órbita, diferentes massas planetárias, etc.

O que o novo crítico da "descoberta" de Gliese 581g, Philip Gregory, diz é que a probabilidade de o sistema ter apenas cinco planetas, e nenhum deles dentro da zona habitável, é maior do que a solução de seis planetas, que prevê a existência do mundo habitável.

Já os autores do estudo original que postulou a presença de Gliese 581g continuam a defender sua interprtetação dos dados. Quem está certo? Só o tempo (e mais observações e cálculos) pode dizer.

Comentários

  1. Bom, isso não impede que a conta do Twitter de Gliese -- @Gliese581_G -- exista e seja até divertida de acompanhar :-)

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