21 gramas é o peso da alma?

Outro dia encontrei uma propaganda do filme 21 gramas, de Alejandro Iñárritu, e me lembrei de que a quantidade de massa que dá título à película vem do suposto peso da alma humana. Não pela primeira vez, me perguntei da onde diabos esse número teria vindo, e ontem finalmente achei uma boa candidata a resposta, no livro Search for the Soul, de Milbourne Christopher.

Formado por uma série de artigos que descrevem, cada um, um tipo de experimento realizado para tentar detectar a "alma" humana -- entendida como uma entidade dotada de existência própria e separada do corpo -- o livro tem um capítulo sobre os esforços de pesar o espírito.

O valor de 21 gramas aparece logo no primeiro deles, realizado pelo médico Duncan McDougall, e que deu origem a um "paper" publicado em 1907 no Journal of the American Society for Psychical Research.

A história: McDougall preparou um leito hospitalar montado sobre uma balança, e convidou voluntários -- pacientes terminais de doenças como tuberculose -- a morrer nele, garantindo que não haveria dor ou desconforto adicionais em relação à morte numa cama de hospital comum.

O primeiro voluntário morreu após três horas e quarenta minutos de repouso no leito especial, que registrou uma perda de 0,75 onça -- em unidades civilizadas, 21,26 gramas. Este primeiro resultado, ao que parece, foi o que deu origem à lenda dos "21 gramas".

Mas esta não é a história completa: ao todo, McDougall realizou seis experimentos do tipo com seres humanos, e os resultados ficaram longe de serem consistentes. O segundo voluntário, por exemplo, perdeu uma onça e meia (42,5 gramas) em duas etapas, uma quando parou de respirar e outra, quando o coração parou de bater. Outro resultado encontrado foi de três oitavos de onça (10,6 gramas).

McDougall também usou seu leito-balança para pesar cães antes e depois de sacrificá-los, concluindo, a partir disso, que o melhor amigo do homem é, na verdade, um animal desalmado.

O trabalho do médico americano foi atacado, na época de sua publicação, por questões metodológicas: não há, afinal, como relacionar a perda de peso no ato da morte com a partida da alma. Outras variáveis poderiam muito bem estar envolvidas, ponderaram os sábios da época.

Em 1915, outro cientista americano, H.L. Twining, numa série de experimentos que hoje faria seu laboratório ser depredado por grupos de defesa dos animais, dedicou-se a lacrar camundongos em tubos de vidro, apoiar os tubos em balanças e esperar que os roedores morressem sufocados. O lacre garantia que coisas como excreção, respiração ou transpiração não afetariam o resultado.

Nenhuma diferença de peso foi detectada entre o ante e o post mortem.

Hoje em dia, o chamado "dualismo de substância" -- a ideia de que existem duas substâncias diferentes na composição do ser humano, a matéria física e a matéria espiritual -- não é mais levada a sério como hipótese científica (e nem filosófica, exceto nos recônditos de certas teologias). Outras formulações dualistas mais sutis ainda subsistem, ao menos no discurso filosófico, mas não creio que em alguma delas ainda se fale no "peso" da alma.

Comentários

  1. Parece que só o espiritismo leva isso a serio, essa coisa de espírito saindo do corpo e vivendo em um lugar especial, "nas muitas moradas da casa do Senhor". Mas como ensinou Chico Xavier, a mentira que consola é melhor que a verdade que fere" eles preferem serem consolados por mentiras

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  2. what about the soul? http://bit.ly/aoyxv6

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