Cristianismo e bruxaria na África: atração fatal

Volta e meia a mídia internacional produz uma história sobre os efeitos trágicos que certas superstições têm na África -- por exemplo, como a perseguição e mutilação de albinos na Tanzânia, as condenações por bruxaria no Malawi, ou o uso de beterraba como remédio contra aids -- mas esses informes tendem a ser esporádicos, e vistos em conjunto forma um mosaico cheio de lacunas.

Uma visão mais  completa pode ser extraída de um relatório publicado em 2010 pela Unesco, com o título Crianças acusadas de bruxaria, que chama a a atenção para o papel catalisador que a religião cristã tem nessas atrocidades.

É um texto de 59 páginas e, embora apele para o tipo de eufemismo que faz da linguagem da burocracia da ONU uma fonte universal de piadas de mau gosto (por exemplo: "Comportamentos comumente associados à acusação de bruxaria incluem violência, maus tratos, abuso, infanticídio e abandono de crianças. De uma perspectiva ocidental, essas práticas representam violações dos direitos das crianças" -- e numa "perspectiva oriental", essas práticas representam o quê?), ele traz uma apreciação antropológica do fenômeno da bruxaria nas culturas africanas e destaca que as superstições, mesmo as de origem tradicional, mudam junto com a sociedade ("novas circunstâncias requerem novas magias").

O relatório nota que, nos países africanos cristianizados -- principalmente onde predominam os sabores carismático e pentecostal do cristianismo -- linchamentos e abusos contra pessoas acusadas de bruxaria são muito mais comuns do que nos países islamizados: "A bruxaria é capaz de se integrar muito bem no discurso cristão, porque foi personificada e associada ao Diabo ou Satã".

O relatório elabora:

"A maioria das igrejas pentecostais [africanas] centram-se num pastor ou profeta que alega ter sido escolhido por Deus (...). Dentro de seu objetivo maior de combater um mal onipresente (a bruxaria é um mal ainda onipresente) os pastores-profetas oferecem a seus seguidores não apenas uma vida melhor -- prosperidade financeira -- mas, acima de tudo, cura divina e salvação".

E, mais adiante:

"O papel dos pastores-profetas nessas igrejas parece ser de grande importância na "caça às bruxas", não somente pela possibilidade de trazer salvação para as pessoas possuídas, mas também por sua capacidade de identificar bruxas. Em diversas cidades africanas, esses pastores-profetas desempenham um papel essencial nas acusações de bruxaria contra crianças. Embora nem sempre sejam a origem da acusação -- a pessoa às vezes já sofre suspeita da família ou da comunidade -- eles confirmam e legitimizam a acusação (...) esses pastores detectam bruxas por meio de sonhos e visões".

Crianças começam a ser acusadas de bruxaria a partir dos quatro anos de idade. "Acusações de bruxaria voltam-se mais frequentemente contra crianças pequenas, às vezes chegando ao início da adolescência". E as crianças acusadas geralmente são as mais vulneráveis -- órfãos, portadores de deficiência, bebês prematuros, crianças de rua.

Comentários

  1. Olá, Carlos Orsi. Gostaria de reproduzir os trechos que você traduziu para escrever um texto a respeito também e gostaria da sua autorização. Obviamente darei as devidas referências e fontes. Desde já agradeço.

    Sobre o conteúdo do texto, acredito que isso mostra o quanto o sistema de ensino falido somada à intolerância religiosa e crendices estúpidas podem manter países inteiros na idade da pedra. O países ricos deveriam para dar "esmolas" que nunca chegam e investir na educação para que esses povo crie um mínimo de discernimento.


    Abraços, Nihil.

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  2. Oi, Nihil! sinta-se à vontade para usar os trechos traduzidos. A questão da educação é realmente importante, mas também complicada -- é difícil saber como evitar (ou mesmo prever) a ocorrência de uma interação tóxica entre memes. O ideal, claro, seria abolir de vez as crendices, mas essa é uma tarefa que me parece impossível...

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  3. Obrigado, Carlos. Vi no meu comentário que comi umas letras de algumas palavras no plural, mas tudo bem. rs O escrevi as pressas.

    O maior problema da África parece morar nas crendices e culturas que parecem paleolíticas mesmo. Isso mostra que a crise lá vai muito além da miséria. Mas encontramos um paradoxo: a crendice que gerou a miséria ou a miséria gerou a crendice? Paradoxo Tostines revisitado...

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