Exemplos e personagens: convencendo idiotas

O título desta postagem -- mais um da minha longa DR com o jornalismo, cujos lances iniciais você pode conferir aqui e aqui --  ia ser "vieses cognitivos na imprensa", mas aí me lembrei de uma passagem da Arte Retórica de Aristóteles, onde o filósofo diz (estou parafraseando) que os idiotas se deixam convencer por exemplos, enquanto que as pessoas inteligentes só são persuadidas por argumentos.

A razão disso é simples: podem-se encontrar exemplos a favor de ou contra praticamente qualquer coisa. Sem controles adequados e um tratamento estatístico honesto e competente, um monte de exemplos acumulados de qualquer coisa não serve para provar nada. Ou, como se diz, "o plural de anedota não é dados".

("Anedota", nesse contexto, não é usada com o sentido de piada, mas algo mais próximo do original grego, anékdota, "coisas que não foram publicadas": relatos esparsos, desorganizados, que não formam um conjunto coerente.)

 A mente humana, no entanto, adora tirar conclusões a partir de exemplos. Eles são especialmente úteis porque não importa o quanto a sua convicção seja furada, você sempre conseguirá, a partir de uma criteriosa seleção de casos, "prová-la" por meio de exemplos.

Criminosos, corruptos e degenerados existem em todos os grupos humanos, o que garante que racistas de todo o espectro, nacionalistas e preconceituosos em geral sempre contam com um amplo estoque de casos exemplares a citar.

Este é um dos vieses cognitivos do meu título original: o viés de confirmação, que define a tendência humana de prestar mais atenção nos casos que confirmam crenças pré-existentes, fazendo pouco dos que poderiam desconfirmá-las.  O outro viés é o viés de disponibilidade: achar que o que está mais à mão é o mais comum, ou o mais normal. Se o viés de confirmação serve aos preconceitos, o de disponibilidade alimenta o provincianismo.

O viés de disponibilidade é uma praga persistente em pesquisas de opinião pública: por mais esforço que se ponha na tarefa de construir uma amostra aleatória, sempre resta a questão de que só responde à pesquisa quem está disposto a fazê-lo, e muitas vezes essa disponibilidade acaba viciando o resultado.

Chegando agora à imprensa: muito do jornalismo -- principalmente sobre saúde -- que se faz hoje oferece amplos flancos abertos a esses dois vieses. E isso por conta de um dos dogmas da forma, a necessidade de apresentar ao leitor um personagem.

O personagem é uma pessoa -- de preferência uma bela mulher jovem e trabalhadora de classe média, com quem o público leitor possa simpatizar (homens) ou se identificar (mulheres) -- que sofra da doença ou tenha passado pelo tratamento em questão. O depoimento do personagem pode dar apoio ou contradizer o espírito da reportagem principal.

O problema básico é que, exceto como fator-fofoca e modelo fotográfico, o depoimento do personagem é essencialmente irrelevante, e potencialmente daninho.

 Digamos, por exemplo (ops!), que a reportagem seja sobre a análise de 20 estudos médicos realizada pela Cochrane Collaboration e que demonstra que pílulas de antioxidantes como a vitamina E, a vitamina C e a vitamina A são totalmente inúteis para evitar câncer de estômago e intestino (yep! pode jogar a caixa de suplemento fora).

A personagem pode ser uma linda divorciada de 30 anos que luta para criar um casal de filhos de 7 e 3 anos e que toma suplementos  de antioxidantes porque tem casos de câncer gastrointestinal na família e quer se prevenir, e que atribui o fato de não estar doente ainda às vitaminas.

Então, de um lado você tem médicos sem rosto, usando termos esquisitos como meta-análise, para dizer (ainda que apenas por implicação) que o que essa mulher está fazendo é jogar dinheiro fora; e do outro, esta guerreira do mundo moderno, lutando contra o destino cruel, de jeans e camiseta na foto colorida.

Se o objetivo da reportagem é (como deveria ser) informar o leitor para que ele tome decisões mais responsáveis sobre sua saúde, essa personagem ajuda exatamente no quê? No que exatamente o depoimento de uma pessoa pesa, contra um estudo que avaliou os resultados de 211.818 participantes?

Aliás, o espaço que o depoimento ocupa na página não teria sido melhor usado dando-se uma explicação mais detalhada e didática da análise feita pelos cientistas? Claro, a personagem poderia ser um caso oposto -- alguém que desenvolveu câncer mesmo tomando suplementos -- mas os pacientes da doença são uma pequena porcentagem da população. O viés de disponibilidade milita contra.

Acho que ficou claro que existe uma questão ética complexa na seleção do personagem para uma reportagem de saúde: o depoimento pessoal, com seu caráter emocional e o poder retórico do exemplo, pode, aos olhos do leitor, fazer um argumento científico ruim parecer robusto, ou lançar dúvidas infundadas sobre um resultado sólido.

Repórteres conscienciosos sabem disso, e são especialmente cuidadosos na seleção de personagens para suas histórias. Mas repórteres conscienciosos também são seres humanos, e podem se sentir tentados a cortejar o senso comum (ou suas próprias convicções pessoais) escolhendo personagens com o perfil "certo".

Comentários

  1. BTW, Carlos, você viu os comentários em seu post reproduzido lá no Amálgama? Impressionante, não?

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  2. Eu vi os primeiros, e depois meio que me desesperei... ;-) Um sinal bem claro de que uma pessoa está defendendo preconceitos, e não ideias, é quando a conversa descamba para o "a quem essa afirmação serve?" Numa discussão séria, o tema é se a afirmação é verdadeira ou falsa por seu próprio mérito. Quem se beneficia ou é prejudicado por ela é outra história, que até pode ser tema de debate, mas que não tem nada a ver com o mérito da questão principal.

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