Poder da oração. Poder?

Rezar pode ter uma grande utilidade subjetiva -- ajuda a acalmar as emoções, focalizar a mente, reduzir o estresse. Mas, até aí, cantarolar, contar devagar até dez, meditar, ou ler as tirinhas do jornal ou respirar fundo também têm o mesmo efeito. 


Mas não é esse efeito prosaico (ainda que importante) o mais fervorosamente anunciado pela indústria da fé. Os verdadeiros efeitos da oração deveriam ser muito mais dramáticos. Como disse Jesus: "Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto". Mas será que o produto corresponde à propaganda?


A primeira tentativa científica de avaliar o poder da prece foi empreendida pelo britânico Francis Galton e publicada em 1872. Em seu artigo Statistical Inquiries into the Efficacy of Prayer (“Investigações Estatísticas da Eficácia da Prece”), ele oferece uma série de sugestões sobre como validar a ideia de que orações são úteis.

O plano geral, adotado até hoje em vários campos da pesquisa científica, é comparar a população de interesse com um grupo de controle – no caso, pessoas que rezam (ou que são objeto de oração) com pessoas de caráter mais secular ou que recebem menos preces.

Entre as comparações sugeridas por Galton estão: naufrágios de navios de missionários versus de navios de traficantes de escravos; tempo de recuperação de doentes religiosos e de doentes ímpios; mortalidade infantil em famílias religiosas e em famílias seculares.

Mas a parte mais famosa do artigo de Galton é a comparação da longevidade de membros de famílias reais com a de outros grupos de pessoas ricas. Por que a famílias reais? Porque, nas monarquias onde não há separação formal entre Igreja e Estado, a população reza pela saúde do rei na maioria dos serviços religiosos. 

A idade média em que a morte alcançava os homens de famílias reais, no período de interesse, era de 64,04 anos, de fato a menor entre todas as classes afluentes. O grupo mais longevo era o dos proprietários rurais (70,22 anos). 

Curiosamente, o resultado de Galton foi, de certa forma, reproduzido em 2006 pela “a investigação mais rigorosamente científica sobre se preces podem curar doenças” (palavras do New York Times), o estudo STEP, publicado no American Heart Journal em abril de 2006.

O trabalho envolveu pesquisadores de seis centros de estudos, avaliando 1.802 pacientes. Teve entre seus autores um padre católico, dois pastores batistas cerca de uma dezena de médicos. 

No estudo, pessoas submetidas a cirurgias coronárias foram divididas, de forma aleatória, em três grupos: 604 pacientes receberam orações depois de serem informados de que poderiam ou não ser alvo de preces; 597 não receberam orações, depois de ouvirem a mesma informação; enquanto outros 601 foram avisados de que seriam alvo de oração, e receberam as preces.

Os médicos e enfermeiros envolvidos no cuidado direto dos pacientes não foram informados de quem receberia ou não preces, para evitar que os profissionais se mostrassem, ainda que inconscientemente, mais (ou menos) atenciosos com membros de um ou outro grupo. 

Rezaram pela recuperação sem complicações dos pacientes selecionados três equipes de religiosos, sendo duas católicas – freiras carmelitas e beneditinas – e uma protestante, do grupo Unidade Silenciosa. Foi usada uma prece padronizada. As orações tiveram início na véspera de cada cirurgia e foram repetidas diariamente durante 14 dias consecutivos. O estudo foi realizado ao longo de vários anos, a um custo de US$ 2,4 milhões.

O que o STEP revelou foi que, entre os pacientes que não sabiam se receberiam ou não preces, a taxa de complicações foi praticamente idêntica, embora os alvos de oração tenham se saído ligeiramente pior: 52% desses apresentaram dificuldades pós-operatórias, contra 51% no outro grupo. Já no grupo de pacientes que tinha certeza de que era alvo de oração, a taxa complicações foi significativamente maior: 59% deles sofreram dificuldades após a cirurgia.

Críticas ao caráter “reducionista” da pesquisa – “má religião e má ciência”, nas palavras de um comentarista – obviamente não demoraram a aparecer. Seria curioso ver, no entanto, como muitos dos algozes do reducionismo científico reagiriam se os dados tivessem indicado um forte efeito positivo das preces.

(Esta postagem é um resumo bem resumido de parte do 'Livro dos Milagres', uma obra que escrevi reunindo as informações mais atuais sobre o estudo científico de fenômenos religiosos/milagrosos, e que será publicada assim que aparecer uma editora interessada...) 

Comentários

  1. "O grande experimento da prece" do livro de Richard Dawkins: Deus, um delírio descreve uma experiencia desse tipo, financiada pela Fundação Templeton. O Mais interessante foram as "desculpas" dos financiadores, pois o resultado não foi o que eles esperavam. Argumentaram por exemplo dizendo : Deus percebeu que era uma experiencia para identifica-lo e não se manifestou. Boa sorte com seu livro!

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  2. Muito bom o post: gostei mesmo. Gostei ainda mais sabendo que em breve poderá sair um livro sobre o assunto. Já experimentou entrar em contato com a editora Vieira & Lent? Eles possuem um grande acervo voltado para a Ciência.

    Abraços...

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  3. Descobri por acaso uma tal "Igreja da Realidade" (www.churchofreality.com) nos EUA. Os caras (ou talvez seja um só) tem boas sacadas. Uma delas, que tem a ver com o caso aqui:

    Ter fé significa acreditar sem provas (ou mesmo indícios). Então, se alguém apresenta argumentos a favor de sua fé, automaticamente sua fé deixa de ser verdadeira.

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  4. Eu acho que faltou um grupo neste estudo. O grupo dos que ouviram que iriam receber prece, mas não receberam.

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  5. Rubens, acho que no estudo financiado pela fundação templeton, citado no primeiro comentário aqui, eles tem esse grupo, mas os resultados são parecidos com os desse estudo - efeitos insignificantes ou contraditórios. Muito bom o texto e bacana saber do livro, conheço muita gente que vai estar interessada em comprar (eu, inclusive).

    um abraço,
    André

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